Ano de 2013.
Outubro se adianta. Nas redes sociais a brincadeira é postar fotos da infância
em homenagem ao dia das crianças que se aproxima. Fiquei muitos dias curtindo
aquelas fotos, todas com uma beleza em comum: a inocência. Resolvi entrar na
brincadeira. Demorei um pouco para encontrar essa foto – a mais antiga que
possuo. Já estava com dez anos. Postei assim mesmo. Como diz o poeta: “Pra
gente ser feliz, tem que mergulhar na própria fantasia”.
Surpresa com o
carinho dos amigos – mais de uma centena curtindo e comentando carinhosamente –
decidi olhar com mais atenção a menina daquela foto. Foi como se voltasse no
tempo e me deparasse com um mundo muito diferente.
Perdida em meus pensamentos, dei-me conta do quanto
aquele cenário estava fora da minha realidade. Talvez por isso tenha me
encantado tanto. Esse arranjo, enorme, enfeitando a mesa, por exemplo. Em minha
casa, as flores ficavam apenas no jardim. Havia apenas uma pequena mesa em
casa. E muitas crianças para estudar. Não sobrava espaço para flores. As cortinas?
Tão dispensáveis em janelas de madeira! O telefone era algo muito distante. Nunca
havia nem tocado um antes. Além dos livros sobre a mesa – nessa época não havia
nem um livro em casa – e o ursinho enfeitando a cortina.
O coração se derreteu olhando aquela pequena menina.
Lembro-me do cabelo, ondulado e muito rebelde, difícil de pentear, ficava sempre
preso em uma comprida trança. O corpinho magro, vestido com o uniforme velho e
um pouco amarrotado, com muitos consertos, detalhes que não se tornaram visíveis
na foto. Os braços finos, colados ao corpo, e as mãos inseguras sem saber ao
certo como agir sugerindo uma timidez
sem limites. O rosto revela um semblante
sereno, um olhar quase triste, um esboço de sorriso num misto de espanto,
curiosidade e alegria. Meus olhos se enchem de água ao analisar aquela face singela,
tão conhecida e o aperto no peito é muito doído quando se dá conta da distância
que nos separa.
A memória não quis se aquietar, deixou-se voltar no
tempo e trouxe os dias de então. Fui uma criança muito feliz! Vivi muitas
aventuras por lugares incríveis oferecidos pela mãe natureza. As coisas mais
simples era motivo de grandes emoções. Hoje tenho consciência de como a vida
era difícil naquela época. Sei todas as necessidades que tivemos de suportar. Mas
aquela menininha da fotografia não sabia nada disso. Para ela, a vida era encantada. Cada minuto
era vivido com intensidade. Não tinha percepção das diferenças sociais. Na pobreza
em que vivia não lhe faltava nada. Como no momento dessa imagem em que se
sentiu alguém muito, muito importante.
O presente se impõe. A foto volta a ser apenas a
lembrança de uma época venturosa que será lembrada para sempre. Tomara consiga
resgatar essa maneira ingênua, pura, leve de lidar com os percalços da vida. No
coração ficará continuamente uma ternura enorme por essa criança que continua viva
em mim.
Luisa Garbazza
10 de outubro de 2013
Agradecimento a todos os amigos que curtiram minha foto motivando-me a escrever essa crônica.
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