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quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Um simples detalhe

Um dia como outro qualquer. O tempo chuvoso e escuro das primeiras horas ilumina-se com a chegada do sol e deixa mais colorida a manhã de primavera.
Coração também amanheceu chuvoso. Triste, angustiado, apertado no peito. E assim continuou. Uma sensação estranha, indefinida. Semblante pesado. Nostalgia pura sem saber por quê. Ou de quê.
A tarde já ia adiantada. Como as nuvens da existência ainda não tinham se dissipado, dirigi-me ao jardim – um dos meus lugares preferidos. Sentei-me na grama – muito verde, agradecida pelas chuvas constantes desta estação – e deixei-me ficar. A cabeça estava longe, os pensamentos desconexos, a mente embaralhada.
Pus-me a contemplar as plantas. Cada uma tem sua história: dois coqueiros. Um foi presente de minha mãe; outro, trazido do brejo  por meu pai – Há quanto tempo!; a roseira cor-de-rosa ganhei de uma vizinha, e a rosa preta, de meu esposo; a açucena foi presente – Um vaso lindo que ganhei no dia das mães e transplantei para o jardim. – Assim fui relembrado a procedência de cada uma delas. Agradáveis lembranças.
Meus olhos pararam na grama. Milhares de folhinhas formando um lindo tapete verde. Porém, algo mais me chamou à atenção: bem no meio da grama, também verde, só que em um tom mais claro, uma pequena plantinha havia brotado. Olhando brevemente, ela nem seria notada. No entanto estava lá, firme, nitidamente visível aos olhares mais atentos. Serviu-me como ponto de reflexão.
Pude perceber naquela plantinha um toque divino que se revelou em tão simples detalhe. É realmente nas pequenas coisas que Deus  se manifesta. Ela, que brotou apertadinha por entre as raízes da grama, conseguiu ganhar seu lugar e, apesar de estar só, estava crescendo de maneira bem saudável. Por sua força de vontade, ganhou novos ares e agora fazia parte daquele jardim.
Pensamento alçou voo. Do mesmo modo, também sou criação divina. Tudo que tenho e sou devo a Deus. Por isso, preciso estar de bem com a vida e valorizar cada detalhe do dia a dia. Também faço parte de um imensurável jardim. Não preciso estragá-lo. Posso escolher enfeitá-lo com a ternura que flui do meu coração, deixá-lo leve com minhas palavras de incentivo, iluminá-lo com a luz da minha fé. Posso cuidar de cada detalhe que vai fazer a diferença aos olhos dos que o observam.
Um sorriso brotou lá no fundo. Relutei em me levantar dali. Entretanto, já me sentia aliviada e pronta para retornar à rotina. Agradeci profundamente a Deus por ter me permitido esses momentos e por ter revelado essas coisas a mim, que sou tão pequenina.
Luisa Garbazza
13 de novembro de 2013
18 horas e 20 minutos

terça-feira, 5 de novembro de 2013

“Quero ser mais santo.”

Participar da celebração eucarística é, para nós católicos, motivo de muita alegria com um significado profundo de crença na presença real de Jesus na Sagrada Comunhão. Só o fato de estar ali, na presença do sacerdote e em comunhão com Deus e os irmãos, já faz desse um momento especial, mas há dias em que certos acontecimentos nos brindam com a beleza de sua essência. Foi o que aconteceu comigo em um domingo, na celebração das nove horas na Matriz de Nossa Senhora do Bom Despacho.
Como estava ajudando na celebração, foi fácil perceber a presença de um jovem, desconhecido para mim, que estava auxiliando na equipe de canto. A camisa que ele trajava chamou minha atenção. Um azul claro, muito bonito, com escritas brancas não identificáveis por causa da distância. Quando ele se aproximou um pouco pude identificar o que estava escrito – pelo menos as letras grandes: “Quero ser mais santo”.
Essa frase me motivou profundamente e participei da Missa com entusiasmo renovado. Depois da celebração, fiquei meditando sobre essas palavras, simples, que povoam nosso pensamento e se expandem ganhando espaço e significado abstratos, em um primeiro momento, mas que vão se concretizando durante a caminhada: “Quero se mais santo.” Querer ser mais santo deve ser o objetivo maior de todo cristão. Foi para isso que Jesus nos deixou seus ensinamentos. Porém não seremos santos sozinhos. Somos chamados a viver em comunidade respeitando os preceitos do Evangelho, que nos levam à salvação, e contribuindo para a santificação da Igreja, dos ministros, da família, dos pobres, de todo o povo de Deus.
A Igreja é mais santa quando ouve com docilidade a voz do Espírito Santo; sempre que age com sabedoria dando atenção preferencial aos pobres e oprimidos; coloca-se inteiramente a serviço da humanidade e trata a todos indiscriminadamente; preserva e expande cada dia mais a unidade dos primeiros cristãos. Assim estará se firmando como a “Igreja de Cristo” e sendo fiel à sua missão de renovar o mundo.
Pela sua misericórdia, possa Jesus incitar o desejo de ser mais santo a todos os ministros da Igreja, ordenados e leigos. Sejam mais santos ao escolher os caminhos que irão percorrer; ao encontrar o irmão necessitado de uma palavra amiga, de uma ajuda, de um sorriso, de uma mão estendida; ao se colocarem a serviço, dispostos a acolher os mais necessitados.
O povo de Deus será mais santo quando entender melhor as palavras de Jesus e sentir necessidade de colocá-las em prática. Quando perceber que não adianta querer ser melhor que ninguém, pois perante Deus somos todos iguais. Foi Ele mesmo quem disse: “Deixai vir a mim os pequeninos porque deles é o reino do céu”. Quanto mais simples, humilde, solidário, mais perto de Deus e, consequentemente, mais santo. Para isso, carecemos muito da graça de Deus para que possamos entender sua mensagem de vida plena e espalhar sua verdade por onde formos.
Queremos ser mais santos, Senhor. Por isso vos pedimos: Irradiai sobre nós a vossa luz e dai-nos a graça de difundi-la em todos os lugares por onde passarmos. Dirigi o trabalho de nossas mãos, para que tudo que fizermos seja em prol da dignidade do ser humano.
Nesse caminho para a santidade, ensinai-nos, Senhor, a sermos mais solidários com aqueles que necessitam de misericórdia. Não nos permitais deixar o irmão à margem do caminho, sem forças para continuar a batalha da vida. Muitas vezes somos nós mesmos que precisamos imensamente da sua indulgência. Portanto, Senhor, “não nos deixeis cair em tentação e livrai-nos sempre de todo mal”.
Ajudai-nos, Pai do céu, a agirmos com sabedoria para, seguindo o exemplo de tantos santos e santas, que nos precederam e são celebrados neste mês de novembro, não nos afastarmos do caminho que nos conduz a vós. Dai-nos a graça de amar o irmão da mesma forma como somos amados por Vós; a sermos honestos e a fazermos sempre o bem, mesmo se não formos valorizados. E, acima de tudo, dai-nos a graça de descobrir, a cada dia, o que precisamos fazer ou em que mudar para sermos mais santos e nos preparamos para a grande glória que é vê-lo face a face na eternidade. Amém.

Luisa Garbazza

Publicado originalmente do jornal "PARÓQUIA"
Paróquia Nossa Senhora do Bom Despacho
Novembro de 2013

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Nos caminhos de “A Magia das Chaves”

Fui convidada a entrar em um mundo mágico em busca de uma chave especial.  Fiquei bastante apreensiva ao imaginar como é extenso o universo das chaves. Encontrar “A chave” e carregá-la de significado pode ser tarefa penosa para principiantes. Depois de pensar e repensar, a decisão: “Estou disposta a percorrer esse caminho”.
Comecei encontrando “A chave do passado”, uma chave velha e quebrada que povoou meus sonhos, transportou-me de volta ao mundo mágico da infância e ensinou-me a olhar sempre para frente sem me prender às amarras do passado.   Alguns passos à frente, numa história parecida, deparei-me com Albertina Fernandes, que voltava à casa da sua infância, e, com a chave do carro na mão, ficou ali, a olhá-la, vazia, silenciosa, sem o encanto de outrora e a contemplar “O silêncio dos invisíveis”
Recomecei a caminhada com Adriana Teixeira Gomes falando sobre “O poder” que sobe à cabeça de quem tem o controle das chaves, afinal estamos todos dependendo delas. Concordei com ela. Precisamos sim, mesmo que seja para abrir uma ideia, como aconteceu com Alexandre Acampora em sua “Metamorfose”: uma ideia para eliminar os fungos que insistiam em impregnar seus livros. 
Retomei a procura com Alexandre Sandrieu. Uma chave na ignição, um acidente trágico e entre perdas, ganhos, luta pela vida e um amor muito grande, escreveu “A última carta de amor”. A tragédia se repetiu com a “Chave bendita”, que nas mãos de Lucas Figueiredo Silveira testemunhou o fim de uma linda história de amor que teve início nos tempos da meninice e desfecho de vingança. Trágico também foi o motivo de uma partida inesperada que deixou em pedaços Luz Corvo Dias. Uma chave guardada em um envelope dentro de uma caixa, uma carta e um endereço que resultou em “Retalhos de mim”. Ainda trágica a chave esquecida na fechadura, do lado de fora da porta, por Thaís Amado. Pretexto para um encontro feliz, mas que desencadeou uma tragédia passional. Resultado: “Uma chave e Três vidas”.
Observei durante a caminhada que algumas coisas precisam ser muito bem trancadas. Como o coração. Assim como “Sete chaves, no lugar do teu coração” foram abrindo uma a uma as sete portas, colocou Filipa Vera Jardim frente aos dissabores da vida e preparando-a para, enfim, viver. Ou as sete chaves que fechavam o coração de Teresa Almeida impedindo a felicidade que só foi reencontrada quando readquiriu a alegria da gratuidade e, com amor, recuperou a chave do coração em sua “Viragem”. O sete, também considerado “O número perfeito”, representava a casa de Alice Branco, cuja porta está sempre aberta a sete chaves sugerindo a liberdade de quem não se apega a coisas materiais. E as sete chaves de Dalila Moura Baião, cravejadas de lapas e vestígios de algas, cada uma com uma letra que “Entre o vento e o mar” formam a palavra INFINITO e mostram anjos que revolvem a terra e plantam a fraternidade.
Nenhuma dessas era a chave que procurava.  Soube então de uma chave velha que foi rejeitada por uma fechadura brilhante, convencida, soberba, revelada por Alice Mano-Carbonnier em “Era uma vez uma chave”. A fechadura teve um fim trágico: enferrujada, desmanchada e jogada no lixo; a chave, guardada em uma linda caixa. Continuei com “O Dandi imortal” e percebi a estranheza da vida de quem não encontra razão para viver e a loucura provocada por uma pequena chave dourada e descrita por André Lamas Leite. Ao longe, vislumbrei “A chave perdida” que abriria um cofre negro, recheado de dinheiro cobrado dos pobres por um rei perverso que morreu na batalha. Antonio MR Martins conta de um novo e bondoso rei, mas o cofre...
Sozinha nesse caminho, senti pesar a solidão. Encontrei sentimento comum em algumas chaves que descobri pelo caminho: primeiro Cristina Correia nos mostra a chave da arca de “A avozinha Eva”, que era aberta para esquecer a solidão, mas que ensinou a livrar-se dela ajudando as outras pessoas; em seguida o “Vai e Volta” de Beatriz Pacheco Pereira apresenta duas chaves douradas que serviram de pretexto para uma de muitas visitas que amainariam a solidão de alguém que estava longe de casa; a chave misteriosa de Bruno Resende Ramos que provocou a solidão, da qual só se liberta quem, pelos “Caminhos e descaminhos”, encontrar a chave da própria vida; e as perdas de “Mafalda de Loutulim” contadas por Cristina Malhão-Pereira, que sai em busca de si mesmo, encontra alguém e entrega-lhe uma chave que abre, ao mesmo tempo, sua casa e seu coração.
Em “É de repente que as coisas grandes acontecem”, depois de uma viagem forçada, Cristina Silveira de Carvalho revela os caprichos do destino. Encontra alguém que volta à memória quando procura as chaves da casa e encontra junto aquele bilhete: “Call me”. Já a chave de Elvira Cristina Silva pertencia a uma casa que escolheu a moradora e só ela possuía “As mãos certas para abrir a porta”. Encontrei Helena Osório contando sobre a angústia de alguém que está sempre esperando ouvir o barulho da chave abrindo a porta altas horas, mas precisava de “Cem chaves para abrir o coração”.
Na suavidade da poesia de Egídio Trambaiolli Neto, “A bailarina e o soldado” é uma história de amor de um soldado que morreu carregando consigo a chave da alma de sua bailarina, mas que deixou viva a chave da esperança. De forma análoga, “A chave da esperança” de Isabel Maria Nascimento Rodrigues revela o caminho para encontrar o amor e a chave para abrir o coração. E nos versos de Libânia Madureira, uma dança poética que entre chaves para alento da alma, chave do pórtico e chave-círio, que tudo ilumina, apresenta-nos a “Chave do ser”.
Bem no meio do caminho, esbarrei com uma chave de prata de tons azulados. Era “A chave do cofre de Lia” que abria o coração da menina de tranças e, conforme disse Joaquim Sarmento, prendeu para sempre o coração de alguém apaixonado.  Vi também “As chaves” de Joubert Amaral revelando a efemeridade da vida e a velocidade do tempo representada pelas consequências dos atos provocados pelas chaves perdidas.
De um momento a outro, estava dentro da literatura, no mundo de Fernando Pessoa que escreveu uma “Carta para Ofélia”. Haveria ela de decifrar o código que recebeu juntamente com uma chave. José Carlos Pereira entra na confusão causada pelos heterônimos da história e a chave servirá para que encontrem o próprio caminho. Num piscar de olhos encontrei “O livro mágico” em que Luís Pereira estava perdido. Em uma narrativa de um ritmo acelerado, cheia de personagens estranhos, só ele tinha a chave para terminar aquela história.
“Demorou a chegar” a chave de Maria do Céu Neves, que precisou ser procurada exaustivamente, anunciada em um poema e encontrada no próprio peito. Chave do enigma de uma vida estagnada que precisava apenas de uma ideia para desbravar novos caminhos. Mais adiante, um homem, que depois de carregar por tanto tempo um molho de chaves, fugiu de sua realidade. Maria Isabel de Mendonça Soares não o deixou esquecer seu passado e foi “Aquela chave” levada pelo cão que o fizera voltar para casa, para os braços da esposa.
Em um desses casos de “Vidas desencontradas”, localizei Maria Isabel Loureiro que falava da chave do portão por onde passava lembranças de um passado que não se concretizou. A mesma chave que fechou sua vida levando-a a viver outra realidade, outra história. E como esquecer “A matança do porco cilindro”, em que as chaves serviram para quebrar tradições e ensinar que o poder independe de forças exteriores, como conta Maria João Gonçalves. O poder está dentro de cada um.
Essa caminhada, cada vez mais longa, levou-me até “A auxiliar”, uma história fantasiosa de Maria João Saraiva de Menezes. Uma mulher explorada, levada a loucura e uma chave inútil, desnecessária, que fechava o apartamento, mas deixava-se passar. Compensando os descaminhos, encontrei Pedro Jardim mostrando-me três chaves que revelavam o valor do abraço, do amor próprio e o sentido da vida. Era preciso apenas encontrar “A chave da existência”.
Um pouco mais adiante, a surpresa foi descobrir com Maria Mamede uma chave de ferro que fez parte de muitas brincadeiras e proporcionava risos soltos e muita alegria, tudo registrado na “Carta ao Tonico”.  Também localizei, de maneira singular, “As chaves da paciência abre as portas da glória”. Essa chave, revelada por Paula Teixeira de Queiroz, abre a possibilidade de encantar-nos com as coisas pequenas e esperar por momentos de glória, como um simples desabrochar de uma flor.
Durante minhas andanças, um encontro muito bonito, foi com o “Sonho de um caipira”. Nilce Coutinho nos leva a acompanhar belas ilusões e a luta por uma vida mais digna. Após aspirações e desenganos, a concretização do sonho de uma família: a chave de uma casa, melhores condições de vida. Depois acompanhei Paulo Jorge Almeida quando encontrou uma chave, média, enferrujada e com ela pôs-se a caminho tentando encontrar a porta que ela abriria. A perseverança na caminhada levou-o a descobrir, em um sonho, a liberdade. Quando acordou, descobriu que, na realidade, precisava “Fechar a porta à chave”.
Já cansada da caminhada, alegrei-me ao encontrar “A chave sem relógio”. Uma imensa variedades de chaves e aquela chave especial, a mais pura e genuína, que, segundo Sofia Ribeiro Fernandes, abre o coração e ensina a esquecer a correria do tempo, imposta pelo relógio, e a ser muito feliz. A seguir fiquei mais encantada ainda ao encontrar José Alberto Sá perto de “Uma porta aberta”. Aquela porta não precisava de nenhuma chave material para abri-la: nem chave de ouro, nem de prata, nem de ferro; mas sim, a chave dos sentimentos.
Percebi que minha busca estava chegando ao fim quando encontrei Wilson de Carvalho Costa que já havia experimentado a sensação de várias chaves: chave dos sonhos, chave que aprisiona o coração, e aquela chave de bronze toda trabalhada que o levou a vários lugares procurando alguém. Foi, porém, “A chave do coração” que o ajudou a se libertar e a acreditar no amor e nas coisas incríveis da vida.
Assim cheguei ao fim da minha peregrinação. Pensando em tudo que vi e vivi, percebi que não é preciso ir muito longe à procura de uma chave específica, molho de chaves, sete chaves ou chaves douradas, prateadas. A chave de que mais precisamos estará sempre em nosso poder. É aquela que abre o nosso coração para as coisas simples da vida. Que nos ensina a viver, a ser feliz e a espalhar a paz, o amor, a solidariedade, a fraternidade e a igualdade por todos os lugares, tantos quantos conseguirmos. A verdadeira chave é a que abre a porta da existência e nos ensina que a vida só tem sentido quando é partilhada.
Luisa Garbazza
30 de outubro de 2013

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Vida plena aos idosos

 “Eu vim para que todos tenham vida”, disse Jesus. E ainda completou que todos deverão ter vida plena. Buscando significados para essas palavras, precisamos entender essa plenitude da vida começando na concepção, ainda no ventre materno – todos têm o direito de nascer; nos primeiros anos da vida, quando são necessários muitos cuidados; na juventude – tempo das descobertas, tantas e necessárias para a construção da personalidade; na idade adulta e também na velhice.
            A pessoa idosa passou por muitas experiências, boas e difíceis, e tem muito a nos ensinar. Quando olhamos para alguém de idade mais avançada, sem reservas, percebemos a paz que ela nos transmite. Hoje, por exemplo, vi um velhinho entrando na Igreja. Estava sendo conduzido em uma cadeira de rodas, possivelmente por um filho, que demonstrava paciência e zelo. Era magro, estava vestido com simplicidade, porém com elegância, tinha o cabelo muito branco, cuidadosamente penteado e apresentava uma expressão tão serena e feliz, que me fez sorrir por dentro, tamanha a ternura sentida. Pelas aparências, percebi que aquele homem tinha vida plena, apesar das limitações da idade.
Essa cena trouxe-me à mente a imagem de minha mãe. Também está velhinha e não consegue mais andar. Com a saúde debilitada, passa quase todo o tempo em sua cama. A despeito disso, conserva seu bom humor, sua vaidade e bom gosto. Seu rosto continua bonito. Os cabelos, lindos, não embranqueceram, tingiram-se de prata. Um tom tão lindo e brilhante que salta aos olhos. Possui um semblante tão puro, sempre calmo, com uma serenidade envolvente que aquece a alma. Não se exalta, nem se desespera. Deposita toda sua confiança em Deus. Confiante também porque está sempre bem cuidada, em especial por sua devotada filha caçula.
Assim deveria ser com todos os idosos. Por tudo que viveram, aprenderam, ensinaram, pelos filhos que criaram, por aqueles que ajudaram a superar obstáculos, pelo amor que espalharam e pela crença em Deus, merecem ser amados, respeitados, bem cuidados. É só se aproximar de alguém com mais idade e perceber que tem muito a ensinar daquilo que viveu ou do que aprendeu com seus antepassados. E sentem necessidade disso: conversar com alguém, contar as experiências de vida, mostrar que estão vivos.
Por merecerem o respeito da família e da sociedade é que os idosos ganharam uma homenagem: um dia no calendário. Dia primeiro de outubro é dedicado àqueles que já deram sua contribuição para melhorar o mundo em que vivem e precisam ser valorizados por isso.
Nesse dia comemora-se também o Dia de Santa Teresinha do menino Jesus. Portanto, é a ela que pedimos intercessão por nossos pais, mães, avós, tios, que já não podem mais viver independentes como gostariam e precisam de cuidados e atenção especiais. Tomara todos tenhamos a consciência de que eles são filhos amados de Deus e merecem todo nosso apoio, nosso amor, carinho e afeto.

Luisa Garbazza

Publicada no Informativo Igreja Viva - outubro de 2013
Paróquia Nossa Senhora do Rosário

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

A menina em mim

                Ano de 2013. Outubro se adianta. Nas redes sociais a brincadeira é postar fotos da infância em homenagem ao dia das crianças que se aproxima. Fiquei muitos dias curtindo aquelas fotos, todas com uma beleza em comum: a inocência. Resolvi entrar na brincadeira. Demorei um pouco para encontrar essa foto – a mais antiga que possuo. Já estava com dez anos. Postei assim mesmo. Como diz o poeta: “Pra gente ser feliz, tem que mergulhar na própria fantasia”.
                Surpresa com o carinho dos amigos – mais de uma centena curtindo e comentando carinhosamente – decidi olhar com mais atenção a menina daquela foto. Foi como se voltasse no tempo e me deparasse com um mundo muito diferente.
Perdida em meus pensamentos, dei-me conta do quanto aquele cenário estava fora da minha realidade. Talvez por isso tenha me encantado tanto. Esse arranjo, enorme, enfeitando a mesa, por exemplo. Em minha casa, as flores ficavam apenas no jardim. Havia apenas uma pequena mesa em casa. E muitas crianças para estudar. Não sobrava espaço para flores. As cortinas? Tão dispensáveis em janelas de madeira! O telefone era algo muito distante. Nunca havia nem tocado um antes. Além dos livros sobre a mesa – nessa época não havia nem um livro em casa – e o ursinho enfeitando a cortina.
O coração se derreteu olhando aquela pequena menina. Lembro-me do cabelo, ondulado e muito rebelde, difícil de pentear, ficava sempre preso em uma comprida trança. O corpinho magro, vestido com o uniforme velho e um pouco amarrotado, com muitos consertos, detalhes que não se tornaram visíveis na foto. Os braços finos, colados ao corpo, e as mãos inseguras sem saber ao certo como agir sugerindo  uma timidez sem limites. O rosto  revela um semblante sereno, um olhar quase triste, um esboço de sorriso num misto de espanto, curiosidade e alegria. Meus olhos se enchem de água ao analisar aquela face singela, tão conhecida e o aperto no peito é muito doído quando se dá conta da distância que nos separa.
A memória não quis se aquietar, deixou-se voltar no tempo e trouxe os dias de então. Fui uma criança muito feliz! Vivi muitas aventuras por lugares incríveis oferecidos pela mãe natureza. As coisas mais simples era motivo de grandes emoções. Hoje tenho consciência de como a vida era difícil naquela época. Sei todas as necessidades que tivemos de suportar. Mas aquela menininha da fotografia não sabia nada disso.  Para ela, a vida era encantada. Cada minuto era vivido com intensidade. Não tinha percepção das diferenças sociais. Na pobreza em que vivia não lhe faltava nada. Como no momento dessa imagem em que se sentiu alguém muito, muito importante.
O presente se impõe. A foto volta a ser apenas a lembrança de uma época venturosa que será lembrada para sempre. Tomara consiga resgatar essa maneira ingênua, pura, leve de lidar com os percalços da vida. No coração ficará continuamente uma ternura enorme por essa criança que continua viva em mim.
 Luisa Garbazza
10 de outubro de 2013

Agradecimento a todos os amigos que curtiram minha foto motivando-me a escrever essa crônica.

sábado, 10 de agosto de 2013

Lembrança paterna


 Aproxima-se o dia dos pais. Pego-me pensando em meu velho pai. Vasculhando a memória, certifico-me de que nunca escrevi nada sobre ele. Já se passaram vinte e cinco anos de sua partida para a eternidade, mas nunca caiu no esquecimento. Continua presente nas lembranças do tempo compartilhado. Apesar de ser um homem tosco, não acostumado com os afetos, estava sempre presente, nos dias de sol e nos momentos tormentosos de nuvens negras, que, infelizmente, foram bastantes.


Analisando o vídeo que perpassa em minhas reminiscências, percebo que muita coisa ficou indefinida em nossa convivência. Muitas lacunas deixadas por uma partida tão inesperada. Nostalgicamente, entristeço ao me lembrar de que poucas vezes o abracei – talvez somente nos dias dos pais e aniversários. No entanto, o coração ainda fica apertado e dorido nos momentos em que dele me recordo.

Vejo que são tantas lembranças!... As sombrias, prefiro deixar no passado. Há as que me deixam pensativas; outras me enchem de afeto.
Meu pai – homem alto, moreno, feições graves, jeito bravo – deixava transparecer certa tristeza no olhar. Nunca tive coragem de aproximar-me e perguntar se ele era feliz. O tempo passou, ele se foi, e eu fiquei com essa sensação de incompletude que muitas vezes me entristece. Ainda bem que o coração guardou os momentos de ternura para preencher os dias de saudades.
Quando criança, a única brincadeira dele que tenho gravada em mim: sentava-me em seus joelhos, levantava e batia os pés no chão repetindo uma frase: “Cavalinho três, três. Cavalinho três, três.” Nunca entendi o sentido daquelas palavras, mas me divertia muito.
Volto no tempo, e lá está ele, no final da tarde, com seu violão, brindando-nos com lindas melodias. Às vezes sozinho, outras vezes acompanhado por minha mãe e, ainda, pelos filhos. – “Casando fugido” de Tião Carreiro e Pardinho, era a sua preferida, cantava sempre.
No meu aniversário de quinze anos, sonhos embutidos, ou nenhum, pelas condições em que vivíamos, a única manifestação concreta foi de meu pai. A noite já ia adiantada quando ele chegou a casa. Aproximou-se de mim, deu-me os parabéns e entregou-me um embrulhinho com papel de armazém. Ainda agora as lágrimas voltam e o coração se enche de ternura. Bela surpresa! Envolto naquele papel amarrotado e sem cor, uma pequena caixa de pó de arroz: Cashmere bouquet. A emoção foi intensa e inexplicável. Talvez, a maior que ele me proporcionou pelo significado daquela data. Obrigada, meu pai!
Foram vinte e sete anos em sua companhia. As lembranças ficam tão distantes e, ao mesmo tempo, tão presentes! A demonstração de alegria em minha formatura; seu interesse em ensinar-me tocar violão – que nunca se concretizou; suas constantes variações de humor e suas ausências; o lugar que ele se sentava na Igreja; e outras.
Por mais que passe o tempo, a presença desse homem continua nítida em minha vida. Ao senhor, meu pai, minha homenagem neste dia dos pais. Minha gratidão por ter participado do projeto de Deus concedendo-me o dom da vida; por ter-me acompanhado, à sua maneira, por todos esses anos e por ainda povoar meus pensamentos e minhas emoções.
Sei que hoje está junto de Deus. Mesmo assim, entre lágrimas, deixo registrado o meu amor, o meu afeto e um abraço bem apertado.
Feliz dia dos pais!  
Luisa Garbazza
10 de agosto de 2013

Para o meu pai - Vicente Pereira Garbazza.

terça-feira, 9 de julho de 2013

Em tempos de bodas

Luisa e Flávio – 25 anos

       Deus nos guardou, desde o princípio, um para o outro.
     No tempo certo nos encontramos, ouvimos juntos o chamado de Deus e respondemos: “Eis aqui os teus servos, Senhor.”
      O amor tomou proporção tão grande que não cabia em um só coração.
         Escolhemos viver entrelaçados por toda a vida.
       Com os corações em festa, na noite fria do dia 9 de julho de 1988, recebemos o Sacramento do Matrimônio. Unimos, assim, os dois corações em um.
       Desde então, já não havia eu e você, e sim, nós. Onde o coração de um batia, era ali que o outro queria viver. Por onde um dava seus passos, ali o outro desejava estar. Para onde o olhar de um se dirigia, esse também era o foco do outro olhar.
     Chegou o dia em que o coração de um estava tão repleto do outro, que já não comportava mais nada. Resolvemos nos dividir para que o amor encontrasse maior espaço e não parasse de crescer.
      A graça de Deus desceu outra vez sobre nós em forma de filhos.
      Por um bom tempo, vivemos menos para nós mesmos e mais para os dois presentes que Deus nos concedeu: Matheus e Rafael. E como eles souberam preencher nossa existência! Tanto que, às vezes, deixávamos esquecida a nossa própria vida. Mas o amor não diminuiu. Pelo contrário: multiplicou. Agora éramos quatro a viver e a fazer crescer esse amor.
    O tempo passou tão depressa! Olhamos para trás e vislumbramos os 25 anos compartilhados desde que nos aceitamos um ao outro.
   Entre as alegrias – tamanhas – e os dissabores inevitáveis da vida, sobreviveram o amor, o carinho, a partilha, a convivência, as conquistas – principalmente dos filhos –  e outras coisas que merecem ser celebradas.
    Hoje, viemos novamente na presença de Deus para render-Lhe a nossa mais profunda gratidão. Nós Vos damos graças, Senhor, por ter nos aproximado e permitido que vivêssemos essa história.
    Senhor, ajude-nos a, sempre juntos, nós e nossos filhos, continuar essa jornada com a mesma confiança em Vós. E, acima de tudo: Fique sempre conosco, Senhor!

Luisa Garbazza

09 de julho de 2013 

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Junho de outrora

Todo ano, junho mostra a que veio apresentando-se, para muitos, como “o mês dos santos juninos”, “mês das quadrilhas”, “mês das fogueiras”, “mês das festas juninas”...  Para outros, junho tem ar de saudade e torna-se carregado de recordações. Volta-se à tona uma nostalgia boa dos tempos de outrora em que tudo era vivido com mais cautela, mais significado e respeito a Deus.
Apesar do frio quase insuportável que fazia, esse mês era um dos mais esperados do ano, principalmente pelas crianças. As datas em que se comemoravam os santos – Santo Antônio, São João e São Pedro – eram aguardadas com entusiasmo renovado. Cada uma delas era celebrada com bastante alegria, normalmente, em casas diferentes pela vizinhança. Minha mãe sempre era convocada para ajudar nos preparativos e “puxar” a reza do terço. Dona Maria sempre estava disponível para colaborar, seja qual fosse a tarefa. Doação total. Não media esforços pelo bem do próximo e pela glória de Deus. Em sua própria casa, ela gostava de festejar São Pedro.
O dia vinte e nove de junho (São Pedro) sempre amanhecia em festa. A participação nos dias treze (Santo Antônio) e vinte e quatro (São João) servia para aumentar a expectativa para esse dia. Logo pela manhã, a meninada, como formiguinhas, esmerava-se na tarefa de limpar bem o terreiro – enorme – que serviria de salão, para receber os convidados. Os mais velhos – ou mais fortes – saíam pelos campos recolhendo paus para serem usados na montagem da fogueira. Tudo, naquele dia, era feito em função do acontecimento da noite.
Uma das tarefas que Dona Maria fazia com primor especial era a confecção da bandeira para ser içada após a oração. Não tinha pressa. Comprava papéis coloridos, dias antes, preparava um quadrado de madeira fina, cobria com um tecido branco e colava ali a estampa do santo. Depois ia confeccionar os enfeites. Recortava cuidadosamente as tiras de papel colorido e, com toda sua criatividade, adornava a bandeira formando delicadas flores e mosaicos multicores. Então, cortava outras tiras, dobrava-as bem dobradinhas para dar um efeito diferente quando desmanchasse as dobras. Pendurava-as na base da bandeira deixando-as soltas e livres. Verdadeiro trabalho de artista. Ficava tão linda que muitas famílias traziam suas bandeiras para ela ornamentar, o que ela fazia com alegria, gosto e presteza.
Quando escurecia e a noite se adiantava, começava a chegar os vizinhos. Acendia-se a fogueira para iluminar a noite escura e aquecer o lugar. Os vizinhos iam se chegando, procuravam um lugarzinho para se acomodar e aguardavam o momento da “reza”. Nesse momento, também, era a Dona Maria que se colocava a serviço. O terço era rezado de uma maneira bem cuidadosa, piedosamente. Ela tinha o dom de motivar as pessoas para aquele momento sagrado mostrando o valor do recolhimento e do respeito pelas coisas de Deus. Não se via ninguém movimentando, não se ouvia barulho, conversas nem gracejos. Todos se concentravam em louvar a Virgem Maria e pedir a intercessão de São Pedro.
Terminando a oração, vinha um momento muito aguardado: hora de levantar a bandeira, que já se encontrava fixada na ponta de um bambu bem alto, cuidadosamente escolhido para aquele lugar de honras. Ao som do “Bendito, louvado seja” a bandeira subia majestosa. As tiras coloridas, impelidas pelo vento, começavam seu bailado multicor, contribuindo para a culminância daquela homenagem. Seguia-se, então, um “Viva São Pedro” e uma salva de palmas, intensificando aquele gesto de louvor.
Depois de cumprido o compromisso com Deus, acontecia uma agradável confraternização. Alguma coisa para comer e beber, as conversas em volta da fogueira, as brincadeiras de roda, os casos – muitas vezes assustadores – contados pelos mais velhos.
Momentos depois, a noite já alta, a lenha crepitando timidamente na fogueira quase apagada, as pessoas iam se despedindo e todos se recolhiam. A bandeira ficava ali, impondo sua presença a todos que passavam. No coração permanecia uma lembrança agradável e a esperança de que o próximo ano chegasse bem depressa e tudo fosse vivido novamente, com os mesmos detalhes, com o mesmo entusiasmo e com a mesma fé.
                             Luisa Garbazza    

Publicado no Jornal "Paróquia" 
Paróquia N. S. do Bom Despacho
 em junho de 2013

           

terça-feira, 9 de abril de 2013

E agora, jovem?

         Com as famosas, e sempre atuais, “águas de março”, fechamos mais um mês. E com ele fechamos também a Campanha da Fraternidade 2013, que colocou na voz do jovem uma célebre frase bíblica: “Eis-me aqui, envia-me!” Durante todo esse tempo, muito se falou a respeito da juventude, dos seus anseios, do seu papel na sociedade e na Igreja. Muitos jovens participaram dessa campanha, embalados pela proximidade da Jornada Mundial da Juventude. Os adultos também se empenharam realizando encontros, reuniões em família, vias-sacras e outros. Tudo isso em busca de uma harmoniosa participação do jovem e do resgate aos valores fundamentais para uma apropriada vivência cristã.
          E agora?
         Agora é o momento de partir para a realidade. Esse período, vivido durante a quaresma, serviu para uma tomada de consciência a respeito dessa necessidade urgente de motivar a juventude para uma vida mais consistente, principalmente no âmbito espiritual.
        Agora é com você, jovem. Jesus fez o chamado. Você está pronto para ser enviado? Está disposto a colocar-se a serviço do outro pelo reino de Deus? Já se preparou para viver segundo os valores cristãos?
       Muito pode ser feito! Não precisa muita coisa. Se cada um fizer a sua parte, no seu cantinho, na sua família, no seu trabalho, na sua escola, na sua comunidade, a abrangência será imensa. É aí, no dia a dia, que as mudanças precisam acontecer. Lembrando as palavras de nosso querido beato João Paulo II: “Precisamos de Santos que estejam no mundo; e saibam saborear as coisas puras e boas do mundo, mas que não sejam mundanos”.
          Nessa procura por uma participação mais ativa na Igreja e na sociedade, seria bom que o jovem conhecesse a verdadeira alegria. Não uma alegria mundana, momentânea e artificial que sempre termina em vazio existencial e sensação de tédio e mau humor, mas uma alegria verdadeira, espontânea, que brota da alma e contagia os que estão por perto. Um contentamento que encontramos em nós mesmos e não em coisas, acontecimentos, agitações: “O mundo não me satisfaz, o que eu quero é a paz, o que eu quero é viver”.
           Precisamos muito da alegria própria dos jovens, mas só quando o jovem – e os adultos também – descobrirem que a felicidade é um dom de Deus e está em cada instante da vida é que estarão preparados para florescer e propagar os frutos de amor e fraternidade por onde forem. Como bem nos diz o Papa Francisco:A nossa não é uma alegria que nasce do fato de possuirmos muitas coisas, mas de termos encontrado uma Pessoa: Jesus, que está em meio a nós”.
        Assim, queridos jovens, neste momento em que estão sendo enviados por Deus, não tenham medo de ouvir seu apelo e responder ao seu chamado. Tenham fé e coragem para assumir a verdadeira identidade cristã e espalhar alegria e entusiasmo pelos lugares por onde passarem. Coloquem os dons que receberam a serviço do próximo. Ousem seguir Jesus e seus ensinamentos. Preencham os momentos vagos da vida de vocês com atitudes que os edificam como pessoas, como filhos de Deus e não se entreguem à superficialidade deixando lugar para o vácuo que quase sempre é preenchido pelo tédio e o desamor.
            E agora? Qual será sua resposta?
        Jesus chama cada um. O mundo precisa de vocês. Hoje. Agora. Todos os dias. Em todos os lugares. Não se deixem intimidar. Caminhem confiantes lembrando as palavras do Padre Zezinho, que hoje se tornam palavras de todos nós: “Eu grito ao meu mundo descrente que eu quero ser gente, que eu creio na cruz. Eu creio na força do jovem que segue o caminho de Cristo Jesus”.
Luisa Garbazza

Publicado no "Informativo Igreja Viva"
Paróquia Nossa Senhora do Rosário
Abril de 2013

domingo, 7 de abril de 2013

A marca da humildade


Nós, católicos, estamos vivendo a euforia ocasionada pelas mudanças na Igreja. A escolha de um novo Papa é sempre motivo de muita apreensão e, ao mesmo tempo, de muita esperança. A nação católica, representada por milhares de fiéis presentes na Praça de São Pedro, demonstrou uma simpatia espontânea pelo Papa recém-eleito desde o primeiro momento – seu sorriso, seus gestos de humildade, suas palavras simples e o nome escolhido: Francisco. Esse é um nome repetido muitas vezes, na história da Igreja, nominando santos importantes que a enriqueceram ao longo dos séculos. Curiosamente, encontrei oito santos com essa denominação.
O mais conhecido – que motivou o cardeal argentino, Jorge Mario Bergoglio, na escolha do nome – é tido como uma “luz que brilhou no mundo”: São Francisco de Assis, que nasceu em 1182, em Assis, na Itália, tido como a maior figura do cristianismo. Jovem orgulhoso e vaidoso, acostumado com riquezas e glórias militares, teve sua vida transformada após sentir a presença de Jesus chamando-o para reconstruir sua Igreja. Após a conversão, abandonou a fortuna e escolheu como opção a miséria absoluta, a paz, os pobres, os doentes e a Igreja. Colocou Cristo em primeiro lugar e sentia-se como mais uma obra de Deus, tratando toda criação divina como irmão: irmão sol, irmã lua, irmão lobo... Esse jovem, apaixonado por Jesus, teve – e ainda tem – muitos seguidores, e deixou-nos um legado de belíssimas canções e orações tão puras que nos fazem sentir em perfeita comunhão com Deus.
Logo após, veio São Francisco de Paula, nascido em 1416, região da Calábria – Itália, que recebeu esse nome por causa da devoção dos pais pelo seu antecessor. Como o mestre de Assis, São Francisco de Paula viveu um desprezo absoluto pelos valores transitórios da vida e pautou sua existência no socorro ao próximo, em sua especial vocação missionária e na capacidade extraordinária de resgatar os mais puros e preciosos valores contidos no evangelho. Viveu, humildemente, como eremita e dedicou-se por inteiro à oração, penitência e caridade.
Seguindo a história da Igreja, em 1506, no Castelo de Xavier, na Espanha, nasce São Francisco Xavier. Muito rico e estudioso, foi doutor e professor. Era um jovem altivo e ambicioso. Em sua busca por pompas e glórias conheceu Inácio de Loyola, também santo, que sempre lhe dizia: "Francisco, que adianta o homem ganhar o mundo inteiro se perder a sua alma?" Com esse pensamento, foi cedendo ao amor de Jesus, converteu-se, fundou a Companhia de Jesus e percorreu grandes distâncias dedicando-se à evangelização dos povos. Nos lugares por onde passou, empenhado no caminho da santidade, dedicava todo tempo livre visitando prisões, tratando dos doentes e dos leprosos. É invocado como Patrono Universal das Missões.
Na primeira metade do século XVI, ainda temos dois santos. O primeiro, São Francisco de Borja, nasceu em 1510, em Gandia, na Espanha. Depois de viver na corte do Imperador Carlos V, ter se casado e tido oito filhos, ficou viúvo e renunciou-se aos títulos de nobreza. Entrou para a Companhia de Jesus, fez voto de pobreza, caridade e obediência e foi viver como pregador itinerante, dedicando-se à oração, à eucaristia e à Virgem Maria. O outro, São Francisco Solano era espanhol e nasceu em 1549. Teve sua formação em colégio Jesuíta e prestou muitos serviços à Ordem Franciscana. Depois foi enviado à América Latina para realizar seu sonho missionário e ali se consumiu no trabalho de evangelização. Antes de morrer repetiu as palavras: “Deus seja bendito.”
São Francisco de Sales e São Francisco Régis marcaram a segunda metade do século XVI. Em 1567, no Reino de Saboia, nasceu São Francisco de Sales. Desde cedo, seu desejo era de viver a castidade e buscar a vontade de Deus. Como sacerdote, buscou a santidade para si e para os outros. Semeou a unidade e a sã doutrina cristã animando os fracos e alimentando os fortes. Destacou-se pela vida de caridade, gentileza, alegria, humildade, e verdadeira entrega à vontade de Deus. São Francisco Régis veio ao mundo em 1597 em uma aldeia francesa. Como padre da Companhia de Jesus, priorizou a assistência aos doentes, a evangelização e os confessionários. Com espírito de caridade dedicou-se principalmente às crianças abandonadas e aos jovens.
Por último, já no século XIX e canonizado pelo Papa Bento XVI em 2009, temos São Francisco Coll Guitart, que nasceu na comunidade de Catalunha, Espanha, em 1812. Foi o fundador das Irmãs Dominicanas da Anunciação, com a finalidade de divulgar e reavivar a Palavra de Deus nos povoados de Catalunha. Tinha paixão pela evangelização de maneira itinerante para ajudar as pessoas a um encontro mais profundo com Deus. Sua entrega a Deus era tão grande que tocava o coração das pessoas, pois transmitia aos outros o que ele próprio vivia.
Todos esses homens, que se anularam para engrandecer o nome de Jesus e cuidar dos pobres e excluídos, tiveram em comum a marca da humildade. A Igreja os apresenta como exemplos a serem seguidos. São santos porque conseguiram sentir a dor do outro e compadecer-se dele. Abraçaram os ideais de Jesus e os colocaram em prática, doando a própria vida.
Agora, em pleno século XXI, acolhemos o Papa Francisco. Seus primeiros dias foram vividos de maneira simples, com a mesma humildade e o aparente desejo de santidade de tantos Franciscos ao longo dos séculos. Apresentou-se como servo de Deus, sem ostentação nem privilégios. Seu discurso nos mostra, a exemplo de seus antecessores, as suas principais preferências: os pobres, a caridade, e a urgência pela evangelização e pela paz. O mundo todo acredita que viveremos tempos de mudanças. É como se a palavra de Deus estivesse sendo dita mais uma vez: “Francisco, vai restaurar minha igreja, que está em ruínas”. E nossa voz ecoa agradecendo e pedindo as bênçãos e a proteção de Deus para esse homem em quem depositamos todas as nossas esperanças.
Luisa Garbazza
Publicado no jornal "Paróquia" - Paróquia Nossa Senhora do Bom Despacho
Abril de 2013

quinta-feira, 28 de março de 2013

Beleza na simplicidade


Nessas linhas retas que Deus traça em nossa vida, desviando-nos das curvas que insistimos em percorrer, deparamos com momentos inigualáveis que nos colocam frente a frente com as maravilhas de sua criação maior: o ser humano.
 Quinta-feira Santa, tudo combinado com meu esposo para participarmos da celebração na Igreja Matriz de Nossa Senhora do Bom Despacho. Já no final da tarde, recebi um telefonema da Adriana, agente da Pastoral da Comunicação da paróquia. Pediu-me, se possível, para eu participar da cerimônia do Lava-pés, que seria celebrada pelo Padre Rogério, Sdn, na Comunidade Nossa Senhora de Fátima, e fotografasse, para divulgação na internet. Pensei mil coisas ao mesmo tempo, mas não tive coragem de negar. Coloquei-me à disposição. Foi bem corrido, pois essa Igreja fica bem mais longe e nosso tempo estava restrito. Mas conseguimos chegar um pouco antes para interagir com o padre e os coordenadores da comunidade.
Ainda não tivera a oportunidade de participar da Santa Missa naquela Igreja. Foi uma experiência enaltecedora. Tudo ali primava pela simplicidade, sem deixar de ser impecável na essência. Em tudo, dava para sentir a presença divina: a acolhida fraterna que tivemos; a organização; a preparação do ambiente; a participação da assembleia; o carisma do sacerdote. Voltou-me à memória as palavras que ouvi certa vez do Padre Geraldo Mayrink: “Quanto mais simples a celebração, mais Deus aparece.” A certeza é  de que o Pai do céu estava ali conosco.
Durante a celebração, observando tudo e fotografando, um pequeno quadro se destacou perante meus olhos: no primeiro banco, três crianças – um menino e duas meninas – aparentando ter entre quatro e sete anos, participavam da Missa. Não estavam apenas ali na “Casa de Deus”. Rezavam, cantavam, acompanhavam cada movimento do padre de uma maneira tão concentrada que me comoveu. Durante toda a celebração, estavam atentos. Nos momentos de adoração, os joelhinhos dobrados eram sinal indicativo de uma sementinha de fé em pleno processo de germinação. Os olhinhos brilhavam sem se desgrudar do altar. Nada de conversas, nada de andanças pela Igreja, nada de implicância entre eles. A impressão que eu sentia é que eles sabiam exatamente o que estavam fazendo ali. Surpresa maior no momento da comunhão quando um daqueles anjos – uma menina linda de longos cabelos cacheados – começou a cantar acompanhando muito bem a letra e a melodia. Momento de pura ternura. Coração cresceu no peito e agradeceu a Deus pela oportunidade de senti-Lo naquelas pequenas obras de Suas mãos.
 Saí daquele local com uma sensação de pura paz e, no íntimo, um coração enorme, cheio de amor. Nos olhinhos atentos daquelas crianças e na pureza dos olhares fixos nas coisas sagradas, a esperança de um mundo melhor, mais fraterno, mais humano. A perspectiva de um amanhã sem tanto ódio e violência. A confiança de que teremos cada vez mais crianças criadas com amor, educadas na fé – premissas de uma juventude sadia, amada e com muito amor no coração. A fé nas palavras de Jesus: “Eis que estarei convosco todos os dias”. No reflexo daqueles pequeninos, a idealização de um sonho de paz e justiça.
Luisa Garbazza
Quinta-feira Santa - 28 de março de 2013.

quarta-feira, 13 de março de 2013

"Habemus Papam!"


Não poderia haver manifestação melhor para consagrar o Ano da Fé do que o mar de fiéis presente na Praça de São Pedro, em Roma, no momento do conclave que escolheu o novo sucessor de Pedro. O mundo inteiro estava ali! – Fato percebido pela diversidade de rostos focalizados pelas câmeras e pela pluralidade de bandeiras sendo agitadas para concretizar a ansiedade contida. A espiritualidade foi marcada pelas inúmeras mãos que exibiam terços em sinal de oração constante.
A multidão que ali se reunia não se envergonhava de exteriorizar o sentimento de ansiedade em um momento tão singular para a Igreja Católica. Para quem, como eu, assistia a tudo pela tela da televisão, a impressão era de que não caberia mais ninguém naquela praça, tamanha a proximidade das pessoas. Todos os olhares se dirigiam constantemente para a chaminé que anunciaria o resultado do conclave.
Depois que a fumaça pintou de branco o céu de Roma, já enegrecido pelas sombras da noite, a emoção foi incontrolável. Todo sentimento contido foi agora externado em forma de imensa euforia manifestada pelos gritos, pelos sorrisos de muitos e pelo silêncio de alguns. A partir desse momento, a expectativa foi tão grande que fez parecer infinito o tempo de espera para conhecer o escolhido, vê-lo aparecer na janela, conhecer o nome por ele escolhido e ouvir suas primeiras palavras. E o grito era um só: “Viva o Papa!”
Durante a espera, era visível a alegria daquele povo, que, como os cristãos do mundo inteiro, aguardava a primeira aparição do novo Vigário de Cristo.  Todos os olhares estavam direcionados para aquela janela histórica tanto dos que estavam presentes como dos que acompanhavam a focalização das câmeras. O coração, cheio de alegria, se mostrava inquieto e mais e mais ansioso.
O instante em que as luzes foram acesas foi brindado com gritos em uníssono e mais uma vez, a plenos pulmões: “Viva o Papa!” Mais um pouco, presenciamos a janela sendo aberta lentamente, a aproximação do cardeal francês Jean Louis Tauran e os dizeres tão esperados: “Habemus Papam!” O Papa escolhido foi o cardeal argentino Jorge Mario Bergoglio – que passa a ser – Papa Francisco.
Em seguida, com a aproximação do eleito, a emoção tomou conta. Por alguns segundos foi impossível pronunciar qualquer palavra, pois a multidão emocionada soltou a voz em saudação ao Santo Padre: gritavam, cantavam, acenavam, agitavam as bandeiras, sorriam... Alguns permitiram que toda a agonia da espera fosse dissolvida pelas lágrimas que lhe lavaram a alma. Depois foi o momento de vê-lo corresponder ao sorriso de milhares de pessoas que o aguardaram por tanto tempo; ouvir suas simples, porém significativas palavras e a elas se curvar em sinal de humildade.
Logo após, o Papa Francisco se retirou. A calmaria foi tomando conta da multidão que, aos poucos, foi se afastando. Agora, o momento é de agradecer a Deus pelo novo chefe da Igreja. Pedir que ele seja abençoado e inspirado pelo Espírito Santo para conduzir com sabedoria essa grande barca rumo às águas mais profundas. Assim poderemos sonhar com um mundo em que haja cada vez mais amor, fraternidade, união e muita paz. Essa paz tão sonhada por São Francisco de Assis, o qual, com certeza, estará nos abençoando mais ainda.
Luisa Garbazza
13 de março de 2013

sábado, 2 de março de 2013

A caminho da paz


Bom despacho, como várias cidades de seu porte, cresce a cada dia. Chegou a universidade – tão sonhada por todos –, aumentou o número de habitantes, de veículos, de comércios. Presenciamos a expansão geográfica que acontece rapidamente e não conseguimos acompanhar de perto. Às vezes não sabemos mais que rua é essa ou onde fica aquele bairro.  E nem tudo acontece de forma positiva.
Pagamos um alto preço pelo progresso, que veio acompanhado da violência. O ônus mais alto e negativo desse processo de crescimento são as drogas, disseminadas por toda parte. As consequências são cruéis, dolorosas, penosas. Estamos sempre nos solidarizando com as famílias marcadas por alguma tragédia provocada por essa inimiga implacável.
Por outro lado, entre tantos atos de agressão ao direito do semelhante, convivemos com outra ameaça ao sossego de nossas famílias: o desaparecimento de pessoas. De vez em quando, ouvimos o nome de alguém que saiu de casa e ninguém mais teve notícias. Uns permanecem na incógnita, outros são encontrados mortos, brutalmente assassinados, comovendo a cidade inteira.
Inspirado pela tristeza e pela revolta ao presenciar atos de crueldade tamanha, um grupo idealizou e mobilizou a população para uma chamada de consciência a todos os bom-despachenses: A primeira caminhada pela paz.  
Sábado, dois de março de dois mil e treze. Às nove horas da manhã iniciou a aglomeração em frente à Igreja Matriz de Nossa Senhora do Bom Despacho no centro da cidade. Começou timidamente por causa da chuva fina que teimava em participar daquele grito silencioso por dias melhores. Aos poucos foram aumentando o número dos que não queriam cruzar os braços diante de atos tão indignos do ser humano. Faixas e balões brancos representavam a paz que também estava presente no branco das camisas da maioria. A emoção foi maior quando foram chegando os familiares do Flávio Luciano, jovem e querido cidadão, vítima recente da atrocidade de pessoas desumanas, indiferentes ao sofrimento do próximo.
Às dez horas, após uma oração e breve apresentação dos objetivos da caminhada, saímos pelas ruas, sem alarde, sem pressa, apenas sugerindo o valor de cada um de nós, filhos de Deus, e o direito que temos de viver com dignidade. No meio do percurso, a chuva reforçou a ideia de que devemos nos limpar de todo ódio, de todo desejo de vingança e sermos mais mansos, mais humildes e lutar pela justiça e pela serenidade.
No final da caminhada, a emoção tomou conta de todos. No momento em que rezamos juntos, de mãos dadas e fizemos um minuto de silêncio, o significado desse gesto ficou mais evidente e muitos não conseguiram segurar as lágrimas. A salva de palmas quando os balões brancos subiram aos céus levando nossas preces selou o desejo de cada coração ali presente: Que a paz e a justiça se estendam sobre nossa amada Bom Despacho.  
Tomara que esse gesto possa dar muitos frutos. Tomara possamos presenciar, aos poucos, uma tomada de consciência de toda a cidade – poderes públicos, profissionais da educação, pais, mães, filhos – em especial os jovens – policiais, religiosos, formando uma só corrente do bem. E quando pararmos para repetir esse momento, que haja a participação da maioria e o motivo não seja tão calamitoso.
Luisa Garbazza
Dois de março de 2013.
Essa crônica é dedicada ao meu ex-aluno Flávio Assis Luciano e  à sua família.
  

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Lembranças adormecidas


Numa dessas surpresas que nos reservam as caminhadas pela cidade, deparei-me esta tarde com uma cena contrastante com a era tecnológica e futurista em que vivemos. Dois homens estavam retirando um monte de terra – restos de construção que estavam próximo ao passeio – e jogando dentro de um carroção. Para os mais modernos, carroção é uma carroça grande e reforçada, puxada por uma junta de bois. Tão acostumada com a modernidade, há tempos não via um. Não resisti. Voltei a casa e busquei minha câmera para registrar tal fato.
Essa visão transportou-me ao meu tempo de criança e trouxe-me lembranças adormecidas, mas nunca esquecidas. – Ocasião em que morávamos em um sítio no entorno da cidade. Lembranças de meu saudoso pai, que trabalhou, por um bom tempo, com um carroção idêntico. Ali carregava areia, lenha, milho, qualquer coisa que lhe ordenasse o patrão.
Registrado em minha memória, encontrei a figura daquele homem forte, semblante fechado, voz firme. Falava sempre com certa autoridade. Não foi acostumado com o agrado das palavras que acariciam a alma. Com aquela voz áspera e ar de contrariedade, talvez provocado pelo ardume do sol que castigava a pele e o olhar, ia conduzindo os bois pelas estradinhas irregulares do lugar e pelas ruas da cidade. Nem sempre havia alguém para ajudá-lo a guiar os bois. Seguia só, gritando com um boi, cutucando o outro, puxando-os para que voltassem para o caminho desejado. Por muitas vezes, ficava o dia todo nesse vaivém, transportando uma carga aqui, outra ali, até que o sol se punha no horizonte. Já não havia luz suficiente para iluminar os caminhos e o cansaço abatia sobre si mesmo e sobre os pobres animais, que aguentavam firmes aquela lida por demais cansativa.
Em sua sabedoria, sempre gostava de escolher os bois antes de prendê-los no cabeçalho do carroção e começar a lida. Tinham que ser bem aparelhados, semelhantes na força e na altura, para conseguir um equilíbrio satisfatório. Do contrario, um puxava mais que o outro, o carroção ficava inclinado e era contrariedade na certa. Lembro-me de ouvi-lo reclamar quando mandavam bois desiguais. Era o dia todo de penúria. Sofria o condutor; padecia os conduzidos.
Recordo-me de uma ocasião em que ele veio até bem pertinho de nossa casa para carregar uma lenha que havia sido cortada nos arredores. De longe pude perceber sua chegada pelo canto do eixo das rodas do carroção. Mais próximo, eram os gritos que anunciavam sua presença. Parou perto da lenha e logo chamou meu irmão para ficar à frente dos bois para que eles não continuassem o caminho. Gritou outro para ajudá-lo com a lenha. Foi gritando também que me pediu um copo d’água. À minha mãe, pediu um café quente para animar o corpo. Todos foram envolvidos naquela atividade. Pouco depois, tarefa terminada, seguiu seu caminho e por um bom tempo ainda ouvíamos aqueles sons para nós tão familiares.
Faz muito tempo que ele se foi. Sua imagem, que sempre me acompanha, voltou mais forte, hoje, quando presenciei aqueles dois cidadãos jogando a terra no carroção, conforme ele fazia. Igualmente forte veio a saudade daquele homem que não cheguei a conhecer em toda a sua essência, mas que ainda ocupa um lugar de destaque em minhas memórias.  Continuei o dia em companhia das lembranças daquele homem rústico que, em sua simplicidade, deixou uma marca bem grande em meu coração: meu pai. 
Luisa Garbazza
28 de fevereiro de 2013.





domingo, 3 de fevereiro de 2013

Força jovem


Foto: ACOLHIDA RÉPLICA DA CRUZ PEREGRINA PARÓQUIA ROSÁRIO

“O Pai enviou teu filho eterno para salvar o mundo e escolheu homens e mulheres para que, por ele, com ele e nele proclamassem a boa-nova a todas as nações.” Oração – JMJ.
 
Impulsionados pela preparação da Jornada Mundial da Juventude as duas jovens, Josiane Oliveira e Alana Alana Teodoro, (Juventude Construindo), fizeram a escolha de discípulas missionárias da evangelização, o objetivo maior é levar a fé, a esperança e a caridade a todos os povos, como cita Mateus em seu evangelho, “Ide e fazei discípulo entre todas as nações”.         

E como forma de despedir, e ao mesmo tempo iniciar esta missão, esse final de semana foi celebrada uma santa missa na Matriz do Rosário – Bom Despacho. Acolhemos também a Réplica da Cruz Peregrina da JMJ. 

Foi um momento de alegria e muita fé, muitos jovens presentes ficaram emocionados.
              
                   Agendada para julho de 2013, a Jornada Mundial da Juventude está sendo esperada por milhões de jovens. O apelo que se faz à juventude através do lema da jornada – "Ide e fazei discípulos entre todas as nações", tem sido levado a sério por muitos cristãos. Prova disso é a grande movimentação, no Brasil todo, para levar a Cruz Peregrina ao máximo de paróquias possível; e, as réplicas da Cruz, a todas as paróquias.
                A Paróquia Nossa Senhora do Rosário viveu esse momento com muito entusiasmo. Foi emocionante participar da chegada da réplica da Cruz Peregrina e sentir a força jovem na Igreja de Cristo. A alegria e os aplausos dirigidos à Cruz confirmaram a presença dos que seguem o caminho traçado pelo mestre Jesus. Jovens que se dedicam às coisas sagradas; dão exemplo de solidariedade, amor e caridade; vivem a fraternidade; não se cansam de louvar a Deus como Senhor da vida.
 Dentre todos esses jovens engajados na vida cristã, Deus apontou duas e escolheu-as para uma missão especial. Pediu a elas que avançassem para “águas mais profundas”. Duas meninas que possuem o coração cheio de amor, tanto, que já não estão comportando dentro do peito. Precisa de espaço para transbordar, espalhar esse amor em outros mares, para outras pessoas que, carentes de afetos, anseiam por uma palavra de incentivo, uma presença amiga, um sorriso, uma oração. Duas meninas que, pela pureza de coração, disseram sim ao apelo de Deus.
Em uma mesma celebração, tivemos dois momentos de agradecimento.  Demos graças a Deus pela juventude que está se preparando para a Jornada Mundial da Juventude. Graças também pelas jovens, Alana e Josiane, que confirmam seu sim a Deus e se entregam em suas mãos de Pai. Duas jovens de muita força e determinação. O sorriso constante de ambas, durante a celebração, revela a certeza dessa decisão, a fé e a gratuidade com que abraçaram uma causa tão nobre. As lágrimas, ao final, expressam a emoção contida, o agradecimento ao apoio recebido, a dor inevitável da despedida. Os abraços calorosos confirmam o carinho da comunidade e a amizade traduzindo o pensamento comum: “Vão com Deus”.
Em um ano tão importante para a juventude, reforçado pelo “Ano da Fé”, é reconfortante saber que temos tantos jovens nesse caminho. Jovens que carregam no peito uma cruz de madeira ou de metal, mas que vão muito além do material: levam Cristo de verdade no coração, participam dos sacramentos se encontrando com o Cristo vivo através da comunhão e vão pelo mundo dando testemunho de vida e pertença ao Criador.
É por esses jovens que elevamos a Deus nossas preces.  Que o Pai celeste lhes conceda a graça da perseverança para poderem seguir sempre nessa direção; aumente-lhes a fé para enxergarem o caminho reto e fazerem as escolhas certas; conceda-lhes o dom de serem sal e luz para outros jovens que ainda não fizerem opção por seguirem os caminhos preparados por Jesus. E, sobretudo, peçamos a Deus que abençoe esses jovens – todos – e não os deixe desanimar diante das adversidades da vida, pois, nunca estarão sozinhos, como Jesus mesmo disse: “Eis que estou convosco todos os dias, até o fim dos tempos”.
Luisa Garbazza

Publicada originalmente no Informativo IGREJA VIVA - Paróquia Nossa Senhora do Rosário - fevereiro / 2013