segunda-feira, 19 de junho de 2017

Sobre saudade


Quando a saudade chegar
medonha, iniludível,
algo há que se alegrar
no coração tão sensível:
momentos a recordar,
um sorriso bem possível;
o seu olhar contemplar,
como se fosse tangível;
toda espera suportar
o tempo que for possível
para poder abraçar
outro eu indivisível.

Luisa Garbazza

19 de junho de 2017

quinta-feira, 15 de junho de 2017

Dia de Corpus Christi.


Dia de Corpus Christi. O dia amanheceu frio. Um vento fininho passava pela terra. Quando me levantei, a lua ainda tinha um pouco do seu brilho. Foi o tempo de me arrumar e rumar para a Praça da Matriz. Muito trabalho me aguardava: a confecção dos tapetes para a passagem da procissão de Jesus Eucarístico.
O Flávio e o Marquinho já lá estavam. Chegaram cedo – às 6h – para interditar o trânsito antes que chegassem os fiéis para a missa das 7h. Muita gente foi chegando para ajudar. Uns, com vassouras na mão, foram limpando a rua. Alguns, mais prendados, foram fazendo os riscos no chão. Outros foram fazendo a arte de cobrir os desenhos dando-lhes forma.
Como os artistas eram poucos, também me arrisquei na tarefa de ir dando vida àqueles desenhos. Foi gratificante ver meus desenhos sendo preenchidos e exibidos com singular beleza`, assim como os demais. O início não foi fácil: o vento resolveu mostrar sua força e passava arrastando a serragem e levantando nuvens de cal. Mas depois resolveu se distanciar e deixou-nos trabalhar em paz.
Nossa festa é temática. Este ano, os altares e os tapetes abordaram a Campanha da Fraternidade, "Fraternidade: biomas brasileiros e defesa da vida" e o lema "Cultivar e guardar a criação; O Ano Mariano, em comemoração aos 300 anos do encontro da Imagem de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, nas águas do rio Paraíba do Sul; e o Servo de Deus Padre Júlio Maria de Lombaerde, fundador da Congregação dos Missionários de Nossa Senhora do Santíssimo Sacramento. Estamos rezando e pedindo por sua beatificação. 
Ficamos lá até mais de 13h. Foi o tempo de ir a casa, almoçar, tomar um banho e voltar para a celebração, às 15h. A igreja cheia mostrava a fé do povo de Deus. O coro de vozes que soou rezando a profissão de fé foi sublime. O mesmo com a oração do Pai Nosso. Tantas vozes chamando a Deus de Pai em uníssono. Algo para gravar na alma.
A procissão piedosa seguia com Jesus Eucarístico abençoando nossas ruas e, através de nossas orações, abençoando a cidade inteira. Nossos sacerdotes, Padre Márcio, Padre Antônio e Padre Rogério, esmeravam-se na tarefa de conduzir Jesus Eucarístico e dirigir nossas orações. Em cada altar, uma palavra sobre o tema ali retratado e os louvores ao Santíssimo Sacramento.
Chego a casa já quase dezenove horas. O corpo doído, mas a alma leve. A cabeça dolorida, mas o coração feliz. Ficar de 7h da manhã às 13h10, no sol, confeccionando esses tapetes, e de catorze as dezoito em oração e organização, por dinheiro algum eu faria, mas por Jesus faço com alegria na alma e gratuidade.

Obrigada, Jesus!
Luisa Garbazza
15 de junho de 2017 - Dia de Corpus Christi.
















domingo, 11 de junho de 2017

Doce junho

Parece que o tempo passa cada vez mais rápido. Os meses saem em debandada e, de repente, é junho outra vez. Junho é um mês muito especial: carregado de datas para se comemorar. Ainda nem mudamos o calendário e já estamos em pleno aniversário da cidade. Bom Despacho, centenária, é saudada em seus 105 anos. A cidade toda se movimenta para as comemorações: alegria e envolvimento no colorido das ruas e praças; o burburinho do povo que assiste ao desfile; a voz do locutor que anuncia quem vem lá; o espetáculo apresentado por nossas escolas. Para nós, católicos, uma prece a Deus para que tenhamos uma cidade pacífica, sem tanta violência, com bons governantes e leis mais justas.
O calendário avança e vamos celebrando as festas religiosas colocadas pela Igreja. Em 2017, já no dia quatro, a força do Espírito Santo de Deus vem novamente sobre nós, com renovada força, em um novo Pentecostes. Dia onze, festa no coração quando vivemos o maior mistério da nossa fé e celebramos a Santíssima Trindade. Dia quinze, renovados pelo Espírito que nos une, formamos uma grande família e vamos para as ruas e praças da cidade enfeitar os caminhos por onde Jesus Eucarístico vai passar: é a festa de Corpus Christi, é o Corpo de Cristo abençoando nossa cidade, nossas ruas, nossa gente. A presença de Jesus é sentida na procissão piedosa, na concentração do povo e no silêncio que fazemos para senti-Lo em nosso coração. Dia vinte e três, celebramos o Sagrado Coração de Jesus, rico em misericórdia. Uma festa abraçada com carinho pelos membros do Apostolado da Oração. E, no dia vinte e quatro, celebramos a ternura, a singeleza, a candura, a docilidade, a amabilidade do Imaculado Coração de Maria, nossa intercessora no céu, aquela que nos leva a Jesus.
Além disso, durante todo o mês, vários santos enfeitam a página do calendário católico, mas a tradição popular escolheu três desses santos para homenagear de forma especial. São os chamados “santos juninos”: Santo Antônio, São João e São Pedro.
Santo Antônio vem primeiro, logo no dia treze. É muito festejado em todas as paróquias, com missas, bênçãos e distribuição do “pãozinho de Santo Antônio”. Depois vem São João, o evangelista, aquele que nos deixou lições de humildade, simplicidade e fé. No final do mês, dia vinte e nove, vem São Pedro, com as chaves na mão, convidando-nos a caminhar rumo ao céu. Juntamente com São Pedro, comemoramos São Paulo e o Dia do Papa, pois acreditamos ter sido São Pedro o primeiro Papa da nossa Igreja.
Além de todas essas comemorações, o que mais marca o mês de junho ainda é a tradição das fogueiras. É a significativa reunião de famílias e amigos: o aconchego do lar; a reza do terço em honra ao santo; o canto e a bandeira, toda enfeitada, içada na ponta do bambu; a prosa boa em torno da fogueira; a partilha do pão, do biscoito, do chá, do leite quente, do quentão. São coisas simples – portas abertas, acolhida, mãos estendidas, sorriso no rosto – atitudes naturais, que tornam esses momentos tão especiais.
Quando a fogueira crepita elevando suas labaredas, é como se também louvasse a Deus. E os que ali estão, numa devoção sentida e uma alegria verdadeira, gritam com entusiasmo, de acordo com a ocasião: Viva Santo Antônio! Viva São João! Viva São Pedro!


Luisa Garbazza



Publicação do Informativo Igreja Viva
Paróquia N. Sra. do Rosário
Junho de 2017

sábado, 10 de junho de 2017

Igreja em movimento

A igreja católica divide, ao longo do ano, de forma sistemática e significativa, as festas religiosas que vêm alimentar nossa fé. É uma caminhada bem irregular: às vezes, precisamos dar passos largos, outras vezes vamos mais devagar. São os momentos das festas religiosas e os períodos do tempo comum. No primeiro semestre do ano, para quem participa mais de perto, a caminhada é contínua, uma festa se sobrepondo a outra. Nem dá tempo para respirar. Vivemos o tempo do Natal, daí a pouco vem a Quaresma, que culmina com a Semana Santa, depois o tempo da Páscoa, Pentecostes, Corpus Christi... Sem falar das festas específicas de cada diocese, cada paróquia.
Na Paróquia Nossa Senhora do Bom Despacho, as festas que vieram somar aos tempos litúrgicos, no mês de maio, foi a devoção a Nossa Senhora. Primeiro tivemos a visita da imagem peregrina de Nossa Senhora Aparecida – dia primeiro – depois, dia 13,  celebramos Nossa Senhora de Fátima e Nossa Senhora do Santíssimo Sacramento. E, no finalzinho do mês, a festa foi em honra à nossa padroeira, Nossa Senhora do Bom Despacho. Com o tema – Maria, sinal de esperança para o povo de Deus peregrino –, homenageamos aquela que intercede por nós desde os primórdios de nossa história.
Durante o tríduo em honra à padroeira, rezamos pela catequese, por nossos jovens, pelas pastorais e movimentos, por nossas comunidades, pela paróquia, por nossos sacerdotes, por Bom Despacho e pelo Brasil. Somos parte de uma mesma nação, por isso precisamos estar em sintonia, rezar uns pelos outros, fazer o possível para ter uma convivência agradável, deixando reinar o amor e a alegria de sermos filhos e filhas de Deus. E não só durante o tríduo, essa é uma atitude que devemos levar para a vida toda: ver no outro a presença de Jesus e, assim, ver o bem em cada pessoa que cruzar nosso caminho.
Nessa caminhada da Igreja, é gratificante sentir a disponibilidade das pessoas para as ações realizadas nos bastidores. Quem apenas assiste às celebrações, às vezes, nem se dá conta da trabalheira que dá. É muita gente envolvida, dias, semanas, até meses antes, para organizar as festas religiosas. Na festa da padroeira, muitos deram a sua colaboração: catequese, Pastoral Familiar, Pastoral da Criança, Terço dos homens, Equipe de Liturgia, as comunidades e nossos sacerdotes – Padre Márcio, Padre Antônio e Padre Rogério. Todos com um só propósito: engrandecer o nome de Deus através da devoção a Maria Santíssima.
Agora, preparando para celebrar Corpus Christi, vamos, mais uma vez, nos unir para preparar os caminhos por onde Jesus vai passar. O trabalho prévio – recolher e preparar o material que será usado para confeccionar os tapetes no entorno da praça – já começou há muito tempo. Todas as comunidades são convidadas para tomar parte dessa festa, ajudando a montar os tapetes e participando da celebração. Os trabalhos começam às seis horas da manhã – quando chegamos à praça para isolar a área necessária para os trabalhos – segue por toda a manhã e vai até às doze, treze horas. O cansaço às vezes toma conta, mas é muito gratificante, pois a causa é nobre.

Por todos esses momentos que movem a Igreja, nós damos graças a Deus. É recompensador ver tantos irmãos nossos em Cristo se doando pela causa do reino, pelo amor a Deus, pela evangelização. Tomara aumente, a cada dia, o número dos que se unem e se colocam a serviço para que, como Igreja, aproximemo-nos cada vez mais do ideal cristão deixado por Jesus: o ideal da igualdade, do amor, da solidariedade, da justiça e da união. E quando estivermos a serviço da Igreja, que esses ideais sejam nossa bandeira, pois, conforme o próprio Jesus nos disse, se estivermos reunidos em seu nome, Ele estará no meio de nós.
Luisa Garbazza
Jornal Paróquia N. Sra. do Bom Despacho
Junho de 2017

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Festa da Padroeira – 2017

31 de maio – Dia de Nossa Senhora do Bom Despacho

Comentário inicial
Querido povo de Deus, irmãos e irmãs em Cristo Jesus, mais um ano estamos nos reunindo para celebrar “Maria, sinal de esperança para o povo de Deus, peregrino”. Hoje a celebramos como nossa padroeira, Nossa Senhora do Bom Despacho.
Neste dia dedicado a Maria, queremos nos unir em oração e pedir a ela por todas as comunidades da Paróquia Nossa Senhora do Bom Despacho; rezemos também pelas paróquias Nossa Senhora do Rosário, São José Operário, São Vicente de Paulo e Capelania Militar; rezemos ainda por nosso bispo Dom Aristeu e por todos os sacerdotes em missão nas paróquias da cidade.
Do alto do altar, Maria lança seu olhar pela porta principal da igreja e alcança toda a cidade. Estamos todos sob a proteção daquela que deu seu sim a Deus para ser a mãe de Jesus e também para ser a mãe de todos nós. É esse olhar de mãe que ela nos dirige: um olhar piedoso, amoroso, um olhar de quem não concorda com as mazelas que assola o coração de tantos filhos. Um olhar de quem sente nossa aflição e quer nos consolar. Um olhar que nos dá força para caminhar e cumprir nossa missão. 
Agradecidos, façamos desta celebração um momento de oração e de festa no coração. Vamos receber, com carinho e alegria, Nossa Senhora do Bom Despacho.



Ação de graças

Momento de ação de graças. Momento de agradecer a Deus por tudo que Ele nos concedeu, durante esses dias, e continua nos concedendo.

Dirijamos, mais uma vez, nosso olhar a Nossa Senhora do Bom Despacho. Uma olhar de profunda gratidão por sua permanência no meio de nós, por ser nossa intercessora e por todos os benefícios concedidos, através dela, por seu filho Jesus.
Momento de agradecer a todos os que doaram um pouco de si para a realização dessa festa. Obrigada a cada comunidade, a vocês das Equipes de Canto, do som, da Equipe de Liturgia, do Ministério da Sagrada Comunhão; obrigada a vocês das Pastorais e movimentos, do Terço dos homens; obrigada ao grupo “As Margaridas”, a você de outra paróquia que veio saudar a padroeira da cidade; obrigada aos nossos sacerdotes: Padre Antônio, Padre Rogério, Padre Márcio, Padre Jayme, Padre Tonhão; obrigada a cada um de vocês que compareceram para rezar e louvar Maria Santíssima.
Obrigada, Dom Aristeu, pelo carinho de sua presença e por sua maneira tão simples de nos revelar Jesus e Maria. Nós o acolhemos sempre de coração aberto para ouvir suas palavras de pastor ao rebanho que Deus lhe concedeu.
E obrigada, meu Deus, por ter permitido essas coisas a nós, que somos tão pequeninos. Amém.


Luisa Garbazza
Textos lidos na Missa em honra à nossa padroeira, 
Nossa Senhora do Bom Despacho.
31 de maio de 2017

terça-feira, 23 de maio de 2017

A sexta-feira na devoção popular

O povo simples de Bom Despacho, cidade nascida sob o olhar protetor de Nossa Senhora, vem mostrando, desde o início, a sua fé em Deus – uno e trino. Essa fé, que cresceu e se espalhou, é vivenciada com demonstrações variadas, como a Santa Missa, a reza do terço e as tradicionais novenas. No entanto a manifestação que sempre se destaca no cotidiano do bom-despachense é a devoção à sexta-feira.
Primeiramente, destaco a devoção ao Sagrado Coração de Jesus, renovada a cada primeira sexta-feira do mês. Lembro-me dos relatos de minha mãe, que morava na zona rural e vinha todo mês para fazer a novena das nove sextas feiras. Ela contava que vinha gente de todos os lugares. Às vezes, como mostra seu próprio exemplo, a caminhada era longa: léguas de distância. Mas, impulsionada pela fé, trilhava os caminhos com a alma leve, sem se importar com o cansaço nas pernas, provocado pelo peso do corpo. Depois de casada, quantas vezes fez esse trajeto carregando filho pequeno, sacolas e uma mala de roupas na cabeça. Oferecia a Deus o sacrifício e rumava para a cidade. O objetivo era sempre o mesmo: adorar Jesus no Santíssimo Sacramento e receber a Sagrada Comunhão. Guardou essa devoção pela vida inteira, enquanto teve forças para caminhar. E muitos são os que seguiram e ainda seguem esse ato religioso, mesmo passando por sacrifícios, principalmente os membros do Apostolado da Oração.
Os católicos bom-despachenses da minha geração, participamos, por muitos anos, dessa celebração, geralmente realizada pelo Padre Jayme, na época das confissões comunitárias. Às dezoito horas, começava a adoração ao Santíssimo Sacramento. A igreja ficava pequena para receber tantos fiéis, que iam se aglomerando e se acomodando em todos os espaços disponíveis. Às dezoito horas e trinta minutos, fechavam-se as portas e iniciava-se a celebração comunitária da penitência. Colocava-se uma gravação com uma belíssima reflexão sobre os dez mandamentos. Depois o Padre Jayme, com palavras sábias, firmes e significativas, levava-nos a meditar sobre a nossa própria vida. O coração exultava e a alma ficava leve quando recebíamos a absolvição. Com o passar do tempo, a divisão de paróquias e o corte das confissões comunitárias, a celebração tomou uma proporção menor. Não em importância, mas em número de fiéis.
Outra demonstração de fé, ainda mais forte, que acontece às sextas-feiras, e nem o tempo, nem a divisão de paróquias conseguiram enfraquecer, é a noite da Sexta-feira Santa, popularmente chamada de Sexta-feira da Paixão. O que acontece nesse dia é mágico, ou, melhor dizendo, divino. Às dezoito horas, ao começar a Via-sacra, a igreja já está cheia. Quando terminamos a Via-sacra e saímos da igreja, deparamos com a praça, em frente à porta principal, onde se encontra o Cristo crucificado, repleta de fiéis. E não param de chegar. Vindo de todos os lados, vão se ajuntando no entorno da praça, pois o largo em frente ao templo não comporta a grande multidão que ali se forma. As palavras do padre e o canto da Verônica são ouvidos com atenção e respeito. O silêncio daqueles momentos, a despeito do mar de pessoas presentes, também é divino. A saída da procissão é morosa; os passos, minúsculos. Ninguém tem pressa: a causa é nobre. O caminho é percorrido com tranquilidade, iluminado pelas velas e embalado por músicas e orações.
         Quem acompanha a movimentação até o final, presencia um fenômeno explicado apenas à luz da fé: quando a imagem do Senhor morto é depositada em frente ao altar, bem no centro da igreja, começa o cortejo para beijá-lo, tocar na coroa de espinhos e recolher um pouco dos ramos bentos colocados no esquife. É um caminhar lento, demorado e silencioso. Leva-se muito tempo até transpor todo o corredor da Matriz. Mas ninguém sai da fila, impacienta-se ou demonstra cansaço. Vale a pena o sacrifício para se aproximar de Jesus. Lá da frente, próximo ao altar, fico observando, feliz e admirada, aquele cordão humano que parecia não ter fim. E agradeço a Deus pela oportunidade de presenciar tamanha manifestação de fé.

Luisa Garbazza 
Publicação do mês de maio
Jornal Paróquia N. Sra. do Bom Despacho

sábado, 20 de maio de 2017

Instantes

Às vezes, apesar da agitação em que vivemos, a vida nos impõe, em algumas circunstâncias, pequenas pausas, instantes de vida que se concretizam no ócio – inevitável e criativo.
Em um momento assim, vivido no Terminal Rodoviário de Belo Horizonte, senti-me esvaziando a mente para deixá-la absorver o que acontecia à minha volta. Enquanto aguardava meu embarque, a vida seguia em suas diferenças, em seus inexplicáveis contrastes:
a pressa de quem não quer perder o ônibus;
a morosidade dos que ainda têm tempo de sobra e, de braços cruzados, caminham de um lado para outro, despercebidos;
as mãos dadas dos casais enamorados, para os quais não há limites de tempo ou espaço;
o casal de velhinhos, tão simpáticos, que, surpreendentemente, se despedem, bem à minha frente, com um beijo na boca e um abraço;
a criança que alça voo, correndo, sentindo-se livre, mas que se desespera ao se dar conta de que estava só;
a demonstração de saudade da adolescente que corre e se atira nos braços do namorado;
o casal de surdo-mudo que se desentende e tenta ajustar as contas: gesticulam, nervosos, demonstrando impaciência, como se os sinais fossem insuficientes para traduzir o que queriam dizer um ao outro;
a diversidade de pessoas e de roupas, adereços, bolsas e  malas, muitas malas, que ajudam a compor o cenário humano que movimenta o lugar;
os vigilantes, guardas, serviço de limpeza, zelando pela organização e segurança dos transeuntes;
e as vozes, muitas vozes: das pessoas entre si, nos guichês das empresas de ônibus, as irritantes e intermináveis conversas aos celulares e a incansável voz do serviço de som anunciando os próximos embarques e outras falas de interesse público.
A vida impõe suas condições; nossas escolhas nos fazem enfrentá-las. Seguimos em frente. Para cada dia, sua dose de trabalho, alegria, tristeza, agito... e espera.
Assim, com a mente emprestada, observando a vida que fluía à minha volta, nem senti o tempo passar. Minha pausa terminara. Outros lugares me esperam agora.

Luisa Garbazza

Manhã de 6 de maio de 2017
Enquanto esperava meu filho Matheus para seguirmos até o aeroporto, rumo a São Paulo