A
Diocese de Luz vive um tempo especial. Decretado por Dom Félix, estamos no Ano
da Graça, que se estende até o primeiro domingo do advento. Tempo de parada
para reflexão; tempo para louvar a Deus; para fortalecer as lideranças e os
movimentos existentes na paróquia; para lembrar a caminhada do povo e buscar, nas
gavetas do conhecimento, feitos e pessoas que contribuíram para a formação
social e religiosa dos fiéis.
Relembrando
fatos marcantes, vêm-me à memória os tempos idos de minha infância.
Fascinava-me – e ainda fascina – as coisas sagradas: a sutileza das
celebrações, dos ritos, a pureza do Menino Jesus, o próprio templo, e,
principalmente, a cerimônia para receber a Primeira Comunhão. Sempre me
emociono. Ouvi várias vezes minha mãe falar sobre a euforia dos meus irmãos
mais velhos, em especial, minhas duas irmãs, preparando-se para esse dia, que
era celebrado mais ou menos aos sete anos.
Quando
chegou o dia tão esperado, a alegria reinou em nossa casa. Através das palavras
de minha mãe, eu imaginava os cuidados que teve ao arrumar as meninas, que
ganharam toda a roupa. Uma ganhou da madrinha; a outra, do querido e saudoso
Padre João Hellfs. Os
vestidos, branquinhos, e os véus, igualmente brancos, intensificavam a magia do
momento, a inocência e o brilho do olhar ao receber a hóstia consagrada das
mãos do Padre João. Eu idealizava cada cena, guardava-as em meu coração e
sentia ainda mais intenso o sonho de viver, o mais breve possível, aquele ritual,
preparando-me para receber Jesus.
Havia,
naquela época, a Missa das Crianças, na Igreja Matriz. Domingo, bem de
manhãzinha, meus irmãos e eu saíamos juntos para a igreja. Depois da
celebração, num momento muito aguardado, o jovem celebrante, Padre Robson Teixeira
Campos, sdn, chamava, à frente, as crianças que frequentavam o catecismo. Com a
calma e a alegria que ainda lhe são peculiares, ia mostrando os objetos
litúrgicos. A criança que soubesse o nome do objeto recebia-o nas mãos e
adquiria o direito de guardá-lo na sacristia. Se ninguém soubesse, padre Robson
ensinava. Então fazia o mesmo com suas vestes litúrgicas. Uma a uma, ia
retirando-as e arguindo os pequenos. Havia sempre uma mão levantada almejando o
privilégio de segurar uma peça daquelas e carregá-la. Era nítido o olhar de
satisfação dos que conseguiam. Ao final, o padre tinha sempre mais alguns
ensinamentos e uma palavra amiga para a criançada.
Sentada
timidamente no banco, pois a idade era pouca para frequentar o catecismo,
ficava ansiosa por aprender todos aqueles nomes. Não via a hora de chegar a
minha vez. Até sonhava que havia acertado o nome e levava a batina ou a estola
do padre, o cálice ou a âmbula e guardava na sacristia – um lugar desconhecido
que despertava minha curiosidade.
Lamentavelmente,
não realizei completamente meu sonho. Quando chegou a minha vez de frequentar o
catecismo, houve várias mudanças na paróquia. Mudou-se a idade para se receber
a primeira comunhão – passou de 7 para 10 anos. Teria de aguardar um tempo
maior que o esperado. Padre Robson foi transferido para outra cidade. Não tinha
mais a catequese depois da missa. O catecismo passou a ser ministrado na escola
pela própria professora. O véu foi dispensado. Além de todas essas mudanças, deixando-me
entristecida, aboliram igualmente o vestido branco. Fui para a igreja, no
grande dia, vestindo o uniforme escolar, como todas as crianças.
A
alegria de receber Jesus na hóstia consagrada – das mãos do padre Jayme Lopes
Cançado, sdn – foi imensurável. Talvez o mais importante e feliz de toda minha
infância. Mas confesso que fiquei um pouco frustrada, pois o desejo de segurar
os paramentos e os objetos litúrgicos não foi realizado. Também, o vestido e o
véu brancos, sinais de pureza e inocência, ficaram apenas no sonho alimentado
por tanto tempo.
Luisa Garbazza
Publicação do Jornal "Paróquia Nossa Senhora do Bom Despacho"
junho de 2014
Um belo texto de Luisa Garbazza, memória de infância em Bom Despacho no tempo encantado da Primeira Comunhão. Já estamos esperando um novo livro!
ResponderExcluirObrigada, Jacinto Guerra.
ResponderExcluirSabe que é uma boa dica!
Lembranças da infância, uma época tão diferente!