Aproxima-se
o dia dos pais. Pego-me pensando em meu velho pai. Vasculhando a memória,
certifico-me de que nunca escrevi nada sobre ele. Já se passaram vinte e cinco
anos de sua partida para a eternidade, mas nunca caiu no esquecimento. Continua
presente nas lembranças do tempo compartilhado. Apesar de ser um homem tosco,
não acostumado com os afetos, estava sempre presente, nos dias de sol e nos
momentos tormentosos de nuvens negras, que, infelizmente, foram bastantes.
Analisando
o vídeo que perpassa em minhas reminiscências, percebo que muita coisa ficou
indefinida em nossa convivência. Muitas lacunas deixadas por uma partida tão
inesperada. Nostalgicamente, entristeço ao me lembrar de que poucas vezes o
abracei – talvez somente nos dias dos pais e aniversários. No entanto, o
coração ainda fica apertado e dorido nos momentos em que dele me recordo.
Vejo que são
tantas lembranças!... As sombrias, prefiro deixar no passado. Há as que me
deixam pensativas; outras me enchem de afeto.
Meu
pai – homem alto, moreno, feições graves, jeito bravo – deixava transparecer
certa tristeza no olhar. Nunca tive coragem de aproximar-me e perguntar se ele
era feliz. O tempo passou, ele se foi, e eu fiquei com essa sensação de
incompletude que muitas vezes me entristece. Ainda bem que o coração guardou os
momentos de ternura para preencher os dias de saudades.
Quando
criança, a única brincadeira dele que tenho gravada em mim: sentava-me em seus
joelhos, levantava e batia os pés no chão repetindo uma frase: “Cavalinho três, três. Cavalinho três, três.”
Nunca entendi o sentido daquelas palavras, mas me divertia muito.
Volto
no tempo, e lá está ele, no final da tarde, com seu violão, brindando-nos com
lindas melodias. Às vezes sozinho, outras vezes acompanhado por minha mãe e,
ainda, pelos filhos. – “Casando fugido” de Tião Carreiro e Pardinho, era a sua
preferida, cantava sempre.
No
meu aniversário de quinze anos, sonhos embutidos, ou nenhum, pelas condições em
que vivíamos, a única manifestação concreta foi de meu pai. A noite já ia
adiantada quando ele chegou a casa. Aproximou-se de mim, deu-me os parabéns e
entregou-me um embrulhinho com papel de armazém. Ainda agora as lágrimas voltam
e o coração se enche de ternura. Bela surpresa! Envolto naquele papel
amarrotado e sem cor, uma pequena caixa de pó de arroz: Cashmere bouquet. A
emoção foi intensa e inexplicável. Talvez, a maior que ele me proporcionou pelo
significado daquela data. Obrigada, meu pai!
Foram
vinte e sete anos em sua companhia. As lembranças ficam tão distantes e, ao
mesmo tempo, tão presentes! A demonstração de alegria em minha formatura; seu
interesse em ensinar-me tocar violão – que nunca se concretizou; suas
constantes variações de humor e suas ausências; o lugar que ele se sentava na
Igreja; e outras.
Por
mais que passe o tempo, a presença desse homem continua nítida em minha vida.
Ao senhor, meu pai, minha homenagem neste dia dos pais. Minha gratidão por ter
participado do projeto de Deus concedendo-me o dom da vida; por ter-me
acompanhado, à sua maneira, por todos esses anos e por ainda povoar meus
pensamentos e minhas emoções.
Sei
que hoje está junto de Deus. Mesmo assim, entre lágrimas, deixo registrado o
meu amor, o meu afeto e um abraço bem apertado.
Feliz
dia dos pais!
Luisa Garbazza
10 de agosto de 2013
Para o meu pai - Vicente Pereira Garbazza.
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