Todo ano, junho
mostra a que veio apresentando-se, para muitos, como “o mês dos santos
juninos”, “mês das quadrilhas”, “mês das fogueiras”, “mês das festas
juninas”... Para outros, junho tem ar de
saudade e torna-se carregado de recordações. Volta-se à tona uma nostalgia boa
dos tempos de outrora em que tudo era vivido com mais cautela, mais significado
e respeito a Deus.
Apesar do frio quase
insuportável que fazia, esse mês era um dos mais esperados do ano,
principalmente pelas crianças. As datas em que se comemoravam os santos – Santo
Antônio, São João e São Pedro – eram aguardadas com entusiasmo renovado. Cada
uma delas era celebrada com bastante alegria, normalmente, em casas diferentes
pela vizinhança. Minha mãe sempre era convocada para ajudar nos preparativos e
“puxar” a reza do terço. Dona Maria sempre estava disponível para colaborar,
seja qual fosse a tarefa. Doação total. Não media esforços pelo bem do próximo
e pela glória de Deus. Em sua própria casa, ela gostava de festejar São Pedro.
O dia vinte e nove de
junho (São Pedro) sempre amanhecia em festa. A participação nos dias treze
(Santo Antônio) e vinte e quatro (São João) servia para aumentar a expectativa
para esse dia. Logo pela manhã, a meninada, como formiguinhas, esmerava-se na
tarefa de limpar bem o terreiro – enorme – que serviria de salão, para receber
os convidados. Os mais velhos – ou mais fortes – saíam pelos campos recolhendo
paus para serem usados na montagem da fogueira. Tudo, naquele dia, era feito em
função do acontecimento da noite.
Uma das tarefas que
Dona Maria fazia com primor especial era a confecção da bandeira para ser içada
após a oração. Não tinha pressa. Comprava papéis coloridos, dias antes,
preparava um quadrado de madeira fina, cobria com um tecido branco e colava ali
a estampa do santo. Depois ia confeccionar os enfeites. Recortava
cuidadosamente as tiras de papel colorido e, com toda sua criatividade,
adornava a bandeira formando delicadas flores e mosaicos multicores. Então,
cortava outras tiras, dobrava-as bem dobradinhas para dar um efeito diferente
quando desmanchasse as dobras. Pendurava-as na base da bandeira deixando-as
soltas e livres. Verdadeiro trabalho de artista. Ficava tão linda que muitas
famílias traziam suas bandeiras para ela ornamentar, o que ela fazia com
alegria, gosto e presteza.
Quando escurecia e a
noite se adiantava, começava a chegar os vizinhos. Acendia-se a fogueira para
iluminar a noite escura e aquecer o lugar. Os vizinhos iam se chegando,
procuravam um lugarzinho para se acomodar e aguardavam o momento da “reza”.
Nesse momento, também, era a Dona Maria que se colocava a serviço. O
terço era rezado de uma maneira bem cuidadosa, piedosamente. Ela tinha o dom de
motivar as pessoas para aquele momento sagrado mostrando o valor do
recolhimento e do respeito pelas coisas de Deus. Não se via ninguém
movimentando, não se ouvia barulho, conversas nem gracejos. Todos se
concentravam em louvar a Virgem Maria e pedir a intercessão de São Pedro.
Terminando a oração,
vinha um momento muito aguardado: hora de levantar a bandeira, que já se
encontrava fixada na ponta de um bambu bem alto, cuidadosamente escolhido para
aquele lugar de honras. Ao som do “Bendito, louvado seja” a bandeira subia
majestosa. As tiras coloridas, impelidas pelo vento, começavam seu bailado
multicor, contribuindo para a culminância daquela homenagem. Seguia-se, então,
um “Viva São Pedro” e uma salva de palmas, intensificando aquele gesto de
louvor.
Depois de cumprido o
compromisso com Deus, acontecia uma agradável confraternização. Alguma coisa
para comer e beber, as conversas em volta da fogueira, as brincadeiras de roda,
os casos – muitas vezes assustadores – contados pelos mais velhos.
Momentos depois, a
noite já alta, a lenha crepitando timidamente na fogueira quase apagada, as
pessoas iam se despedindo e todos se recolhiam. A bandeira ficava ali, impondo
sua presença a todos que passavam. No coração permanecia uma lembrança
agradável e a esperança de que o próximo ano chegasse bem depressa e tudo fosse
vivido novamente, com os mesmos detalhes, com o mesmo entusiasmo e com a mesma
fé.
Luisa Garbazza
Publicado no Jornal "Paróquia"
Paróquia N. S. do Bom Despacho
Paróquia N. S. do Bom Despacho
em junho de 2013
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