Em
se tratando de fé e convicção religiosa, não existe completude. Estamos em
constante aprendizado, buscando nos aproximar de Deus. As orações que fazemos,
as celebrações das quais participamos, as penitências, o envolvimento nas
comunidades e na liturgia, tudo isso pode nos levar a certa maturidade
religiosa, mas, mesmo assim, estaremos longe da perfeição. E não cabe a nós
julgar ao outro nem a nós mesmos como melhores ou piores diante de Deus.
A
caminhada de fé é árdua e requer muito amor, sacrifício, doação e perseverança.
É a luta de uma vida inteira. Precisa ser alimentada dia a dia. Nessa luta, é
necessário ficarmos atentos e não nos entregarmos ao egoísmo colocando-nos em
posição superior. Só de pensarmos assim, já estaremos em condições de
inferioridade diante Deus, pois o ensinamento que recebemos de seu filho Jesus
é que “De fato, há últimos que serão
primeiros e primeiros que serão últimos"- (Lc 13,30). Todos somos
iguais perante Deus e uma oferta bem simples será mais valorizada se for feita
de coração.
Cada
pessoa tem condições de oferecer algo de si pelo reino de Deus: uma oferta em
dinheiro, um trabalho ou um gesto de fraternidade. O importante é colocar as
dádivas recebidas a serviço do outro, cada um com um dom distinto: um canta
bem, o outro prepara belos altares; este tem o dom da palavra, aquele escreve
com mais expressão; um tem habilidade para leitura, outro para murais; há os
que se esmeram na arte da limpeza e organização dos ambientes; outros têm o dom
de ir “trabalhar pelo mundo afora”. Tudo em sintonia, cada um a seu tempo. No
momento em que alguém disponibiliza o próprio dom, pode-se até se sentir
lisonjeado pelo resultado por ter sido positivo e aplaudido. Entretanto, não
cabe a ninguém se sentir orgulhoso por isso, pois, no momento seguinte, será
visto, novamente, apenas como filho de Deus, igual a todos os que ali estão: aos
que fizeram qualquer outro serviço ou aos que nada fizeram. É preciso sabedoria
para agir com humildade e com simplicidade fazendo tudo pela glória de Deus e
nunca para engrandecimento próprio.
Por
outro lado, podemos, em dado momento, sentirmo-nos mais próximos de Deus por
termos uma religião, por participarmos ativamente da “vida” da Igreja ou por entendermos
que vivemos da forma correta. Aqui também nos enganamos. O que se é, de
verdade, sem máscaras ou fingimentos, só Deus sabe. Muitas vezes fazemos um
julgamento precipitado de outra pessoa, rotulamos, discriminamos e não a
aceitamos. Porém, não nos cabe esse direito. Pode ser que, apesar de suas
dúvidas e incertezas, ela esteja mais próxima de Deus do que imaginamos. Como
nos profere tão bem o Padre Zezinho nesta canção: “Eu sei que da verdade eu não sou dono, Eu sei que não sei tudo sobre
Deus. Às vezes, quem duvida e faz perguntas, É muito mais honesto do que eu”.
Em
nossa peregrinação terrena, podemos ter a convicção de que somos todos filhos
de Deus e estamos neste mundo para nos amarmos uns aos outros. Porém, todos os
dias, nos deparamos com situações que podem nos afastar desse propósito. Às
vezes não somos fortes o suficiente para resistir a todas as tentações. É
quando precisamos ainda mais do irmão que está ao nosso lado, para que ele
possa nos resgatar, nos orientar e nos reconduzir a Jesus: caminho, verdade e
vida. Ele mesmo disse que “Haverá mais
alegria no Céu por um só pecador que se converte, do que por noventa e nove
justos que não precisam de conversão.” (Lc 15,7). O Pai estará sempre de braços
abertos para receber de volta o pecador arrependido. Aos que estão vivendo de
acordo com o Evangelho, é preciso força de vontade e muita fé para não se
desviar e, assim, merecer ser digno das promessas de Cristo que prometeu a
salvação a todos os que perseverarem até o fim.
Portanto,
mais que sermos fiéis aos mandamentos e levarmos uma vida digna, é importante acolher
o irmão que está ao nosso lado com atitudes cristãs: peregrinar juntos com os
que estão no mesmo ritmo; ter paciência com os que caminham mais devagar;
recuar um pouco e servir de amparo aos que pararam na estrada; voltar e
reconduzir os que saíram do caminho. Tudo isso com serenidade, humildade e a
sabedoria de quem se reconhece como “servo de Deus”; com a confiança de que
seremos recebidos pelo Pai; com a certeza de que não nos salvaremos sozinhos.
Somos todos, sem exceção, filhos amados de Deus.
Luisa Garbazza
Texto publicado originalmente no
Jornal PARÓQUIA
da Paróquia Nossa Senhora do Bom Despacho
Julho de 2013
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