sexta-feira, 5 de maio de 2023

O som do silêncio

 


Tão agitado anda o mundo, que, às vezes, não conseguimos ouvir e absorver o que realmente importa. São tantas as vozes que chegam até nós, tantos ruídos, tantas fontes a nos oferecer algo para escutar! A mente humana, que não para, vê-se nesse burburinho constante e, muitas vezes, se perde, numa sensação de vazio.

Esse sentimento pode muito bem ser fruto dessa era digital, que nos escraviza. Estamos expostos a barulhos aleatórios, a nossos próprios barulhos e àqueles que trazemos para perto de nós, alguns até dentro do ouvido, através dos celulares. Difícil é tomar consciência de que essa prática não é saudável e buscar alternativas para diminuí-la. Difícil é não nos deixarmos dominar completamente pelas telinhas e tirar um tempo para ouvir a voz dos que estão perto de nós e a nossa própria voz. Difícil é perceber o quão necessitados estamos de momentos de silêncio, de quietude, de reflexão, tão necessários à saúde do corpo, da mente, do espírito.

 Voz interior

Um tempo de maior conexão com o sagrado, portanto de silêncio interior, nós, católicos, vivemos durante a Semana Santa. Relembrando-a, trago à mente a celebração da Sexta-feira Santa: momento litúrgico, com a belíssima cerimônia do “Beijo na Cruz”. Quantas pessoas haviam na igreja naquele dia! O espaço sagrado se fez pequeno para abrigar tantos fiéis. Todos estávamos ali, sedentos de Deus, chorando a morte de Jesus e adorando a Cruz sagrada.

Ouvimos, atenciosos, as leituras bíblicas e a homilia proferida pelo padre Renato. Ao terminar sua fala, padre Renato pediu a todos que fizéssemos um instante de silêncio para deixar que aquelas palavras chegassem ao nosso coração. Houve então um grande silêncio. Pesado até. Nada se ouvia! Nem mesmo o falfalhar do folheto impresso. No instante seguinte, a barreira do silêncio foi quebrada pelo choro de uma criança pequena, que se espalhou por toda a igreja...

Mais um pouco, e o padre continuou a celebração. Minha mente, no entanto, continuou ouvindo aquele choro e pensando em nossas próprias misérias. São tantas as dificuldades que precisamos vencer. O choro daquela criança veio traduzir o choro de muitos de nós. São todos irmãos e irmãs nossos, sedentos de Deus, buscando o conforto para suas dores. No coração de cada um, a certeza de que Deus vem aliviar a nossa angústia e enxugar as nossas lágrimas. Ali, vivendo a Semana Santa, revivendo o sofrimento de Jesus, que se entregou por nós, entregamos a Ele o nosso próprio sofrimento.

Fazer silêncio, ouvir a voz de Deus, ouvir nossa voz interior, tudo isso tem um valor imprescindível para nosso crescimento espiritual. Essa prática pode trazer à tona alguns sentimentos esquecidos, guardados nas gavetas do inconsciente, mas tão necessários para compreendermos melhor nossa missão de filhos e filhas de Deus. Tomara tomemos consciência da necessidade de espalhar o valor do silêncio, dos momentos de quietude para vivermos de forma mais equilibrada, sabendo respeitar nossos próprios limites e o limite do outro. Tantos erros sociais talvez pudessem ser evitados se as pessoas parassem um pouco para pensar, ponderar, olhar para si mesmo, ouvir sua voz interior, que soa diferente em momentos de agitação e em momentos de reflexão.

Na Sexta-feira Santa, o som do silêncio ecoou em meus ouvidos. O choro da criança despertaram meus sentimentos mais profundos. As lágrimas vieram regar o coração recolhido em preces, que saíam da alma na certeza de encontrar destino certo: o coração de Jesus.

Luisa Garbazza

Jornal “Paróquia N. Sra. do Bom Despacho”

luisagarbazza@hotmail.com

 


quarta-feira, 12 de abril de 2023

Vida Nova

 

Chegamos ao fim da Semana Santa. Mais uma vez, revivemos todas essas cenas da paixão, morte e ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo. Na caminhada do povo cristão, Deus sempre se fez presente. E continua no meio de nós, agora, através de seu filho Jesus. É a Ele que rendemos graças. É por Ele que passamos por todos esses momentos, caminhando com Ele os quarenta dias da Quaresma e acompanhando, mesmo com sacrifício, todas as celebrações e caminhadas da Semana Santa. É uma semana cansativa para o corpo, mas dignificante para a alma. Percorrer todos esses caminhos faz-nos perceber, pelo menos um pouco, o sofrimento enfrentado por Jesus até o calvário. Mas não podemos mensurar o tormento que atravessou, nem a dor vivida por Ele, ao ser pregado na cruz, e seu padecimento até a morte.

Esses são momentos de intensa espiritualidade em que, nós cristãos, demonstramos nossa fé. Como é bom passar por tudo isso. Como é bom sentir a presença de tantos fiéis e acompanhar a participação de cada um. Na sua individualidade, cada um manifesta sua fé de maneira distinta. São gestos e atitudes de demonstração de amor a Deus e, de alguma forma, pertença à Igreja. São irmãos e irmãs nossos, buscando o sagrado, com sede de Deus. Dá gosto de ver. Como diria dona Maria, minha santa mãe: É maravilhoso!

Gestos de fé

Em meio a tanta gente, somos anônimos, mas, um olhar mais apurado, um coração mais sensível, é capaz de perceber um pouco da expressão de cada um. Gosto de observar as pessoas durante as celebrações e as procissões.

Há riqueza nos momentos de oração, principalmente espontânea, em que as pessoas se identificam com alguma fala, alguma prece, e depois vem agradecer.  Agradecimentos, no exercício de Via-Sacra. São muitos fiéis em oração, oferecendo a Deus seu cansaço, doando sua voz para as meditações em cada estação. Sou grata ainda quando alguém, mesmo não tendo leitura fluente, tem a oportunidade de ajudar nas leituras. Sinto um carinho tão grande por quem me procura para agradecer e dizer que tinha muita vontade de ler, mas nunca tivera a oportunidade. Aquela reflexão, mesmo entrecortada, deve ter chegado mais nitidamente aos ouvidos de Deus do que as de quem lê com facilidade.

Nas procissões, somos tomados pela melodia piedosa dos cantos que traduzem o momento: a dor de Maria, os passos de Jesus, o encontro entre Mãe e Filho, a dolorosa “Procissão do Enterro”. Na aglomeração, presenciamos as mais variadas manifestações de fé: o canto, a oração, a luz das velas, os pés descalços, o silêncio. A cadência dos passos traduz o desejo único: a demonstração da fé.

Percebo ainda a concretude de nossa fé, na contemplação das imagens, na escuta dos sermões, nas procissões e após as procissões. Depois de longa caminhada, ainda resta forças para enfrentar uma longa fila, aproximar-se da imagem e ali, com o olhar fixo, deixar suas últimas considerações a Deus através de Jesus e Maria. O que é coroado pela oferta, deixada aos pés do santo, em forma de agradecimento.

A alegria vivida no Sábado Santo e no Domingo da Ressurreição vem laurear, com êxito, mais uma festa. O cansaço é certeiro, mas o júbilo da alma compensa qualquer dor, qualquer desânimo. É tempo de ação de graças. E tempo de encher os olhos para desejar vida nova ao irmão e à irmã com os quais cruzamos. Tempo de agradecer a Deus por todos os momentos vividos, por todos os irmãos que pudemos acolher e ajudar a matar a sede de Deus. De sorrir por dentro, cheio de contentamento, e dizer: Obrigada, senhor, por todos esses momentos que nos prepararam para bem viver a Páscoa, na Liturgia e na vida.

Luisagarbazza@hotmail.com

Do Jornal Paróquia N. Sra. do Bom Despacho

Abril de 2023

 


domingo, 5 de março de 2023

A alegria da partilha

 


A tarde mostra ares de urgência. Na culminância do dia, as sombras chegam mais cedo, provocadas pelas nuvens densas e escuras que profetizam a tempestade iminente. Sem pressa, subo as escadarias da Matriz e busco refúgio – para o corpo e para a alma –, certa da presença de Jesus Eucarístico, que nos faz companhia por detrás do véu do sacrário, onde nossos olhos, humanos e pecadores, não podem penetrar.

Absorta, deixo meus pensamentos livres, passando por onde quiserem. Acompanho, com o olhar, a chegada de alguns irmãos que ali também buscam refúgio. É uma quinta-feira, dia eucarístico. O relógio anuncia que não tarda o início da adoração ao Santíssimo Sacramento. A alma se prepara: Vem, Senhor Jesus! Acalma meu espírito, relaxa meus nervos. Assim, em silêncio, com a alma em paz, acompanho o sacerdote ao nos apresentar Jesus Eucarístico, que se mostra no ostensório. Ali permanece à espera de nossa atenção, de nossas orações, do nosso olhar.

O coração se desmancha de amores. Apesar do véu, em meus olhos pecadores, que me impede de enxergá-lo, sei que Jesus se encontra ali, de braços e coração abertos, pronto para me ouvir. Começo minha oração lembrando o quão sedenta sou da presença eucarística. A fome de Deus preenche meu ser. A palavra fome desperta em mim a necessidade de rezar por todas as pessoas famintas, quer de alma – fome de Deus –, quer de corpo – fome de comida.

Na correria da vida, muitas vezes nos esquecemos de olhar em volta e perceber as necessidades dos que nos rodeiam. Outras vezes nos esquecemos de olhar com mais minúcias para nossas próprias necessidades. Deixamo-nos levar pela rotina e, quando percebemos, sentimo-nos desnutridos, com fome da vida espiritual, que nos pede momentos de oração e de escuta da Palavra de Deus. Na presença de Jesus Eucarístico, tomamos consciência de que somos os ramos presos à árvore, que é o próprio Jesus. Sem a seiva que vem de suas raízes, não conseguimos sobreviver.

Pão para quem tem fome

A palavra fome, também remete meus pensamentos ao tema da Campanha da Fraternidade 2023, “Fraternidade e fome” e ao lema, “Dai-lhes vós mesmos de comer”. Diante de tantos irmãos nossos que não possuem o alimento necessário para viver com dignidade, a Igreja insiste na temática da fome. “Dar de comer a quem tem fome” é uma obra de misericórdia e, como tal, deveria merecer a observância de todos os que se dizem cristãos. Em vez disso, há tanta mesa sem pão, tantas famílias passando necessidade, tantos irmãos desempregados, sem condições de prover o lar.

É isso que a Igreja nos pede nesta Quaresma: para sermos fraternos e solidários,  solícitos para com os que passam fome de pão, de justiça, fome de Deus. Cabe a nós refletirmos sobre o nosso papel nessa história. Peçamos a Deus coragem para identificar nossas próprias carências, para buscar sempre o alimento que vai nos fortalecer e, assim, estarmos preparados para levar ao outro o alimento para o corpo, mas também o alimento espiritual.

Na caminhada, preparemo-nos para a ação, em comunhão com a Igreja, em todo o Brasil, e peçamos ao Espírito Santo que inspire em nós “o sonho de um mundo novo, de diálogo, justiça, igualdade e paz”. Que Ele nos ajude a “promover uma sociedade mais solidária, sem fome, pobreza, violência e guerra” e nos livre “do pecado da indiferença com a vida”. Peçamos também a Maria, a Mãe da Eucaristia, que “interceda por nós para acolhermos Jesus Cristo em cada pessoa, sobretudo nas abandonadas, esquecidas e famintas”. Amém.

A melodia e o som do sino trazem-me de volta à realidade: “Tão sublime sacramento, adoremos neste altar”. É o momento propício para dar graças e louvores ao Santíssimo Sacramento e confiar em seu amor. A vontade é de Deus; a missão agora é nossa. Faça-se.

luisagarbazza@hotmail.com

Do Jornal Paróquia N. Sra. do Bom Despacho

Março de 2023

terça-feira, 7 de fevereiro de 2023

O dom da espera

 


Queridos amigos, ao iniciar o mês de fevereiro, abertos a tantas expectativas, vivemos ainda o chamado “tempo chuvoso”. Como faz bem para a alma contemplar a natureza, tão verde, tão agradecida pela chuva. Nessa contemplação, podemos perceber, em cada porção de verde, a presença do Criador. Há ali muito o que aprender.

A natureza me inspira e me ensina. Gosto de apreciá-la, mas também de me envolver com ela, colocar as mãos na terra, prepará-la para o plantio. Quanto prazer sinto ao aprontar um novo vaso, plantar uma mudinha e acompanhar seu desenvolvimento. Lembro-me de quando ganhei uma pequena muda de flor-da-lua (ou flor-da-noite, flor-de-seda, dama-da-noite). Levei-a para casa com todo carinho e fiz o plantio com cuidado. Em pouco tempo, apareceu o primeiro broto. Depois as primeiras folhas, mais brotos, mais folhas... cresceu muito. Ficava ansiosa pelas flores, que só conhecia por foto. Em cada brotinho que apontava, procurava vestígios de flor. Nada. Demorou um bom tempo para eu ter a oportunidade de ver aparecer os primeiros botões e acompanhá-los até se tornarem flores. Valera a pena tamanha espera! As flores vieram com um encanto único, de encher os olhos e a alma.

Viver a arte da espera

Nesse contato com a natureza, adquirimos, ou desenvolvemos, a arte da espera. Hoje sei, por exemplo, que minha flor-da-lua floresce mais ou menos de dezembro a janeiro. Então tenho dez meses para cuidar e esperar pelas flores. De nada me adianta ficar ansiosa ou pensar em desistir. A natureza sabe exatamente o tempo do descanso, do broto, da flor. É isso que ela nos ensina: na vida há, também, o tempo certo para cada coisa.

Estamos vivendo justamente essa experiência em nossa paróquia. Aproveitamos, por seis anos, o tempo de convivência com o padre Márcio, com o qual muito aprendemos. Passamos pelo tempo da despedida. Agora estamos nesse tempo de descanso, tal e qual a terra, vivendo, com ansiedade, o tempo de espera pelo padre Renato.

Há sempre uma grande expectativa em tudo o que é novo, em toda mudança. A semente fora lançada há algum tempo, ainda em 2022. Mas, como aprendemos com a natureza, confiemos em Deus e esperemos o tempo certo para ver essa semente crescer no meio de nós. E respeitemos o tempo que for necessário para contemplarmos as primeiras flores trazidas a nós pelo padre Renato.

Aproveitemos este tempo de espera para alguns momentos de oração, tanto pelo novo pároco, quanto pelos Missionários de Nossa Senhora do Santíssimo Sacramento e pela Igreja: Papa Francisco, bispos e presbíteros e todo o povo de Deus. Afinal estamos vivendo o 3º Ano Vocacional: “Vocação: Graça e missão”. Somos todos convidados ao despertar de todas as vocações. Precisamos nos unir em oração para acolhermos o chamado de Deus em nossa vida, seja para qual vocação for: sacerdotal, religiosa, vocação matrimonial ou leiga, inclusive vocação profissional. O que importa é seguir uma vocação por amor, de boa vontade e coração ardente. Dessa forma, alegres, esperançosos e confiantes, permitamos que nossos pés se ponham a caminho, em saída missionária, para construirmos um mundo mais humano, mais justo, mais fraterno.

Aprendemos que todo tempo de espera, quando bem vivido, vai resultar em belas flores ou em farta colheita. É imprescindível, no entanto, saber esperar e confiar no Criador. Com esse pensamento, abramos o nosso coração para a graça de Deus e acolhamos, com prazer, sua vontade no meio de nós.  Assim poderemos dizer, com alegria, quando chegar o momento certo:

– Seja bem-vindo entre nós, padre Renato!

Luisa Garbazza

Texto publicado no jornal "Paróquia N. Sra. do Bom Despacho".

Fevereiro de 2023