sábado, 9 de maio de 2026

Lembranças de Mãe

 


Dia das Mães, sempre um mistério! Uns sorriem, outros choram; uns celebram, outros vivem de lembranças; uns se reúnem, outros se isolam. É preciso respeitar as particularidades de cada pessoa. Justamente por causa das diferenças e particularidades da história de cada um.

Para mim, há muito, Dia das Mães é um dia de lembranças. Minha amada mãezinha partiu para o céu na noite do dia 16 de junho de 2014. Deixou marcas na vida de muita gente. Então as lembranças vêm, aos poucos, na mente acordada ou em sonhos, para permitir a permanência de sua presença em minha vida.

Ontem, antevéspera do Dia das Mães. Uma terna lembrança veio povoar meus pensamentos, provocar risos e direcionar minhas ações. No final da tarde, fui cortar um pedaço de rapadura pra comer. Ao primeiro toque com a faca, lembrei-me de minha mãe e de como ela nos entretinha mesmo na simplicidade, como o ato de cortar uma rapadura. Sentávamos todos próximos à mesa e ela, com suavidade, ia raspando a rapadura, de leve, seguidas vezes. As raspas, bem fininhas, quase transparentes, iam se acumulando na vasilha. Então ela deixava a faca de lado, ajuntava as raspas e amassava-as com a ponta dos dedos, formando um pequeno cone que ela chamava de “capitão”. – Lembro-me bem desse nome, apesar de não me lembrar se ele tinha algum significado. – A filharada acompanhava o processo com curiosidade e ansiosos para vê-lo chegar ao fim. Depois de o “capitão” estar bem formado, bem lisinho, ela segurava-o nas mãos, com extrema delicadeza, e entregava-o a um dos filhos. E recomeçava o processo, oferecendo “capitão” aos filhos um a um. Alegria para quem já havia ganhado; ansiedade aumentada nos outros, que olhavam os movimentos daquelas mãos de mãe, pensando, com água na boca, qual seria o próximo a receber aquele “presente” tão desejado.

Então, sentindo a alegria da criança que fui, desejosa por meu “capitão”, comecei a raspar a rapadura. Em cada raspa, uma lembrança: a silhueta delicada de minha mãe; sua facilidade em reunir os filhos com algum subterfúgio, por mais simples que fosse; o vaivém de suas mãos, tão ágeis e suaves; aqueles pares de olhos, todos apertados em volta da mãe; o gosto da rapadura recebida com tanto amor...

Terminei de raspar a rapadura e pus-me a montar o meu “capitão”, com suavidade e ternura. Levantei-o, depois de pronto, e levei-o à boca, com lágrimas nos olhos. O gosto foi inexplicável. O sabor daquelas raspas, misturado com o sabor de uma época distante, foi tão suave ao paladar, como a mais fina das iguarias. O amor estava ali, embutido no calor desse momento, no movimento das mãos, na montagem do “capitão” e no sabor do alimento. E, na alegria que transbordava, repeti a ação várias vezes, até ver saciada a fome da saudade que ocupara meu coração.

Minha mãe, sempre e sempre em minha vida, feliz Dia das Mães!

E feliz dia para todas as mães.

Luisa Garbazza

Dia das Mães, maio de 2026


sábado, 2 de maio de 2026

Braços de mãe

 


O Senhor nosso Deus, Criador de todas as coisas, criou o homem à sua imagem e semelhança. Criou também a mulher e a ela deu o dom da maternidade. Em toda a história da humanidade, percebemos o papel da mulher e o carinho de Deus para com as que não podiam engravidar. Vários são os exemplos das mulheres que conceberam já com a idade avançada, como o caso de Sara, mãe de Isaac: “Sara concebeu e, apesar de sua velhice, deu à luz um filho a Abraão, no tempo fixado por Deus.” Gen. 21,2; e Isabel, mãe de João Batista: “Mas o anjo disse-lhe: ‘Não temas, Zacarias, porque foi ouvida a tua oração: Isabel, tua mulher, vai dar-te um filho, e tu o chamarás João’.” Lc 1,13. A maternidade mais sublime, no entanto, foi, sem dúvida, a de Maria, pois deu a luz ao próprio filho de Deus, que se fez homem para a nossa salvação.

Não se comparando à maternidade de Maria, todas as mães são sublimes, e seu amor incomparável. Mãe ama, espera, acolhe, cuida, ensina, educa... e deixa ir. Quando a mulher percebe que está gerando uma nova vida, é imensurável o amor gerado em seu coração. Mas, ao dar a luz, é incomparável a beleza e a servidão encontradas nos braços de uma mãe.

Braços de mãe é ninho, que acolhe, com amor e carinho, o filho recém-nascido. Aquele ser, tão pequenino, cabe inteirinho dentro de seus braços. É ali que se acostuma com a vida aqui fora, aprende a sorrir, a se alimentar, a lançar nos olhos da mãe o olhar mais sincero e inocente que no mundo pode haver. É ali que o filho chora quando algo o incomoda, pois a mãe é capaz de entendê-lo.

Braços de mãe é estendido para segurar pequenas mãozinhas que começam a explorar o mundo, a dar os primeiros passos. Depois, soltam-nas, para que o filho possa seguir seu caminho. Mas continuam sempre abertos para acolhê-lo após as quedas, as frustrações da vida, os desânimos, a dor de amor, a saudade, quando estão distantes.

Braços de mãe é colo, é divã, lugar de repouso, de descanso, de pausa. Nos braços da mãe, podem-se dizer todas as coisas, pode questionar, pedir conselho, contar os sonhos e planos. A qualquer hora, seja dia, seja noite, eles estarão sempre lá, prontos para envolver, consolar, agasalhar, proteger. Mãe é mãe todo o tempo, por toda a vida e além da vida.

Todos os dias, sentimos a presença da mãe. E como é doce essa presença! Quando elas vão embora dessa vida, a dor é demais sentida. Fica a saudade de tudo, mas são dos braços que mais sentimos falta. Fica um vazio, e o mundo parece ser grande demais. Mas não é verdade que, às vezes, nos momentos de maior saudade, notamos nosso coração arder pelo caminho da vida e sentimos dois braços a nos lembrar de que não estamos sozinhos?

Luisa Garbazza

Maio 2026