O dia em que não saí
de casa
Madrugada. Abri os olhos assustada ao ouvir o celular do Roberto. Sonolenta, senti seus lábios tocando os meus: “Bom dia, meu amor! Feliz Aniversário de Casamento!”. Despertada abruptamente de um agitado sonho, demorei a perceber a realidade. Roberto embarcaria às sete da manhã: reuniões inadiáveis em São Paulo por dois dias. Como era nosso aniversário de casamento, eu embarcaria à tarde, já que não poderia me ausentar da empresa pela manhã. O dia ainda estava escuro quando ele se despediu e saiu, trancando portas e portões. Voltei a dormir facilmente.
Ao acordar, a luz fraca do sol, que se convidara a entrar por entre as cortinas, anunciava o dia que havia chegado. Despertei-me completamente ao sentir a água morna deslizando por meu corpo, preparando-me para o novo dia. Escolhi roupas e sapatos confortáveis, para suportar a longa jornada. Na valise, apenas o básico e um vestido novo para a noite especial. Fui à cozinha e preparei um café bem forte. Rosquinhas de nata e uma banana completaram meu desjejum. Voltei ao quarto e, em poucos minutos, pus-me pronta para sair.
Alerta por causa do horário,
percebo que minha bolsa não estava no lugar. Nem minhas chaves. Procuro pela
casa. Não as encontro. Nunca tive muita disciplina com meus pertences: perco,
estrago, esqueço nos lugares mais improváveis. Olhei em cada canto da sala,
passei para a cozinha, voltei ao quarto.
Nada. O coração disparou. Andei mais uma vez por toda a casa. Não
estavam em nenhum lugar. Desespero. O tempo estava se esgotando.
Sentei-me na pontinha do
sofá e, com a cabeça entre as mãos, comecei a visualizar a trajetória da
véspera. Subitamente lembrei-me de que havia deixado a bolsa no escritório.
Roberto havia me convidado para um drinque antes de voltarmos para casa. Feliz
com a expectativa de uma noite mais animada – o que quase nunca acontecia – saí
rápida e displicentemente. Deixei tudo para trás. Na volta, passamos por outro
caminho e, numa atitude impensada, considerei desnecessário retornar apenas
para buscar minha bolsa. Afinal, estaria de volta pela manhã.
Comecei, sem sucesso, outra
maratona à procura do celular. O endereço era certo: dentro da bolsa.
Desesperei-me. O notebook também ficara para trás. Não havia linha telefônica
em casa. Parada, ao lado da janela, deixei-me ficar por alguns minutos. Mente
vazia. Nenhuma solução aparente. Um riso nervoso brotou de meus lábios:
trancada, dentro de minha própria casa, incomunicável. Situação ridícula. Precisava agir, tomar uma atitude com
urgência. Saltei a janela, olhei a minha volta. Continuei sem perspectivas. Os
muros altos impediam qualquer comunicação com o resto do mundo.
Aproximei-me do portão, bati
várias vezes e chamei: “Há alguém aí?... Socorro!... Preciso de um chaveiro!...
Oi!...” Nenhum sinal. A alameda ficava em um bairro de pouquíssimo movimento; as
residências, circundadas por elevados paredões. Ninguém ouviria. Minha causa estava
perdida. Sentindo-me inútil, consegui pular a janela de volta. Não vinha nada à
mente que pudesse ser feito.
De volta ao quarto, meus
olhos se cruzaram com o mostrador do relógio de cabeceira. O tempo me
surpreende. Já são dez horas! Mas... espere! Faltam duas horas para o avião
decolar. Meia hora até o aeroporto. Pelo menos para a viagem ainda tenho
chances. Saí depressa pela casa, tropeçando aqui e ali, pulei desastradamente a
janela, quase arrancando a unha do pé, e voltei ao portão: “Oi! Preciso de
ajuda. Alguém está me ouvindo? Por favor!”
Falava, gritava, batia no
portão e não obtinha respostas. Nem o barulho do motor de algum carro vinha
quebrar o silêncio. Estava completamente só. Ilhada em minha residência. Voltei
ao portão mais duas vezes. Desisti após alguns minutos. Já não dava mais tempo
de embarcar. Meu dia estava perdido.
Entrei outra vez em casa e
preparei-me para viver o dia mais original de minha vida: estava sozinha no
mundo. Sem mais o que fazer, aproveitei para relaxar, desligar-me da correria a
que estava habituada. No final da tarde, driblando a solidão, abri o álbum do nosso
casamento, revi as fotos, relembrei a felicidade, quase ingênua, que sentíamos
naquela época, embevecidos de amor. Valorizamos essa data ao máximo,
comemorando-a sempre juntos. É como se revivêssemos os anos dourados de nossa
relação. Este ano seria mais especial, no entanto o destino nos pregou uma
grande peça. Fechei o álbum e coloquei-o estrategicamente em cima da mesa da
sala, convencida de que aquela seria a única comemoração de minhas “Bodas de
Cristal”.
Luisa Garbazza
Conto publicado na antologia
"Prêmio Vip de Literatura 2019".
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