domingo, 5 de março de 2023

A alegria da partilha

 


A tarde mostra ares de urgência. Na culminância do dia, as sombras chegam mais cedo, provocadas pelas nuvens densas e escuras que profetizam a tempestade iminente. Sem pressa, subo as escadarias da Matriz e busco refúgio – para o corpo e para a alma –, certa da presença de Jesus Eucarístico, que nos faz companhia por detrás do véu do sacrário, onde nossos olhos, humanos e pecadores, não podem penetrar.

Absorta, deixo meus pensamentos livres, passando por onde quiserem. Acompanho, com o olhar, a chegada de alguns irmãos que ali também buscam refúgio. É uma quinta-feira, dia eucarístico. O relógio anuncia que não tarda o início da adoração ao Santíssimo Sacramento. A alma se prepara: Vem, Senhor Jesus! Acalma meu espírito, relaxa meus nervos. Assim, em silêncio, com a alma em paz, acompanho o sacerdote ao nos apresentar Jesus Eucarístico, que se mostra no ostensório. Ali permanece à espera de nossa atenção, de nossas orações, do nosso olhar.

O coração se desmancha de amores. Apesar do véu, em meus olhos pecadores, que me impede de enxergá-lo, sei que Jesus se encontra ali, de braços e coração abertos, pronto para me ouvir. Começo minha oração lembrando o quão sedenta sou da presença eucarística. A fome de Deus preenche meu ser. A palavra fome desperta em mim a necessidade de rezar por todas as pessoas famintas, quer de alma – fome de Deus –, quer de corpo – fome de comida.

Na correria da vida, muitas vezes nos esquecemos de olhar em volta e perceber as necessidades dos que nos rodeiam. Outras vezes nos esquecemos de olhar com mais minúcias para nossas próprias necessidades. Deixamo-nos levar pela rotina e, quando percebemos, sentimo-nos desnutridos, com fome da vida espiritual, que nos pede momentos de oração e de escuta da Palavra de Deus. Na presença de Jesus Eucarístico, tomamos consciência de que somos os ramos presos à árvore, que é o próprio Jesus. Sem a seiva que vem de suas raízes, não conseguimos sobreviver.

Pão para quem tem fome

A palavra fome, também remete meus pensamentos ao tema da Campanha da Fraternidade 2023, “Fraternidade e fome” e ao lema, “Dai-lhes vós mesmos de comer”. Diante de tantos irmãos nossos que não possuem o alimento necessário para viver com dignidade, a Igreja insiste na temática da fome. “Dar de comer a quem tem fome” é uma obra de misericórdia e, como tal, deveria merecer a observância de todos os que se dizem cristãos. Em vez disso, há tanta mesa sem pão, tantas famílias passando necessidade, tantos irmãos desempregados, sem condições de prover o lar.

É isso que a Igreja nos pede nesta Quaresma: para sermos fraternos e solidários,  solícitos para com os que passam fome de pão, de justiça, fome de Deus. Cabe a nós refletirmos sobre o nosso papel nessa história. Peçamos a Deus coragem para identificar nossas próprias carências, para buscar sempre o alimento que vai nos fortalecer e, assim, estarmos preparados para levar ao outro o alimento para o corpo, mas também o alimento espiritual.

Na caminhada, preparemo-nos para a ação, em comunhão com a Igreja, em todo o Brasil, e peçamos ao Espírito Santo que inspire em nós “o sonho de um mundo novo, de diálogo, justiça, igualdade e paz”. Que Ele nos ajude a “promover uma sociedade mais solidária, sem fome, pobreza, violência e guerra” e nos livre “do pecado da indiferença com a vida”. Peçamos também a Maria, a Mãe da Eucaristia, que “interceda por nós para acolhermos Jesus Cristo em cada pessoa, sobretudo nas abandonadas, esquecidas e famintas”. Amém.

A melodia e o som do sino trazem-me de volta à realidade: “Tão sublime sacramento, adoremos neste altar”. É o momento propício para dar graças e louvores ao Santíssimo Sacramento e confiar em seu amor. A vontade é de Deus; a missão agora é nossa. Faça-se.

luisagarbazza@hotmail.com

Do Jornal Paróquia N. Sra. do Bom Despacho

Março de 2023

terça-feira, 7 de fevereiro de 2023

O dom da espera

 


Queridos amigos, ao iniciar o mês de fevereiro, abertos a tantas expectativas, vivemos ainda o chamado “tempo chuvoso”. Como faz bem para a alma contemplar a natureza, tão verde, tão agradecida pela chuva. Nessa contemplação, podemos perceber, em cada porção de verde, a presença do Criador. Há ali muito o que aprender.

A natureza me inspira e me ensina. Gosto de apreciá-la, mas também de me envolver com ela, colocar as mãos na terra, prepará-la para o plantio. Quanto prazer sinto ao aprontar um novo vaso, plantar uma mudinha e acompanhar seu desenvolvimento. Lembro-me de quando ganhei uma pequena muda de flor-da-lua (ou flor-da-noite, flor-de-seda, dama-da-noite). Levei-a para casa com todo carinho e fiz o plantio com cuidado. Em pouco tempo, apareceu o primeiro broto. Depois as primeiras folhas, mais brotos, mais folhas... cresceu muito. Ficava ansiosa pelas flores, que só conhecia por foto. Em cada brotinho que apontava, procurava vestígios de flor. Nada. Demorou um bom tempo para eu ter a oportunidade de ver aparecer os primeiros botões e acompanhá-los até se tornarem flores. Valera a pena tamanha espera! As flores vieram com um encanto único, de encher os olhos e a alma.

Viver a arte da espera

Nesse contato com a natureza, adquirimos, ou desenvolvemos, a arte da espera. Hoje sei, por exemplo, que minha flor-da-lua floresce mais ou menos de dezembro a janeiro. Então tenho dez meses para cuidar e esperar pelas flores. De nada me adianta ficar ansiosa ou pensar em desistir. A natureza sabe exatamente o tempo do descanso, do broto, da flor. É isso que ela nos ensina: na vida há, também, o tempo certo para cada coisa.

Estamos vivendo justamente essa experiência em nossa paróquia. Aproveitamos, por seis anos, o tempo de convivência com o padre Márcio, com o qual muito aprendemos. Passamos pelo tempo da despedida. Agora estamos nesse tempo de descanso, tal e qual a terra, vivendo, com ansiedade, o tempo de espera pelo padre Renato.

Há sempre uma grande expectativa em tudo o que é novo, em toda mudança. A semente fora lançada há algum tempo, ainda em 2022. Mas, como aprendemos com a natureza, confiemos em Deus e esperemos o tempo certo para ver essa semente crescer no meio de nós. E respeitemos o tempo que for necessário para contemplarmos as primeiras flores trazidas a nós pelo padre Renato.

Aproveitemos este tempo de espera para alguns momentos de oração, tanto pelo novo pároco, quanto pelos Missionários de Nossa Senhora do Santíssimo Sacramento e pela Igreja: Papa Francisco, bispos e presbíteros e todo o povo de Deus. Afinal estamos vivendo o 3º Ano Vocacional: “Vocação: Graça e missão”. Somos todos convidados ao despertar de todas as vocações. Precisamos nos unir em oração para acolhermos o chamado de Deus em nossa vida, seja para qual vocação for: sacerdotal, religiosa, vocação matrimonial ou leiga, inclusive vocação profissional. O que importa é seguir uma vocação por amor, de boa vontade e coração ardente. Dessa forma, alegres, esperançosos e confiantes, permitamos que nossos pés se ponham a caminho, em saída missionária, para construirmos um mundo mais humano, mais justo, mais fraterno.

Aprendemos que todo tempo de espera, quando bem vivido, vai resultar em belas flores ou em farta colheita. É imprescindível, no entanto, saber esperar e confiar no Criador. Com esse pensamento, abramos o nosso coração para a graça de Deus e acolhamos, com prazer, sua vontade no meio de nós.  Assim poderemos dizer, com alegria, quando chegar o momento certo:

– Seja bem-vindo entre nós, padre Renato!

Luisa Garbazza

Texto publicado no jornal "Paróquia N. Sra. do Bom Despacho".

Fevereiro de 2023

sexta-feira, 13 de janeiro de 2023

Morre um sacerdote


 

A notícia veio, inesperada.

Num de repente tão repentino,

rompeu as barreiras do espaço,

bateu direto nos ouvidos.

Correu o corpo, penetrou na mente,

passou pelo rosto, provocou arrepios, tensão, dor.

Causou certo torpor, inibiu as atitudes.

– Faleceu o Pe. Marcelo Adriano.

Encontraram-no sem vida.

Como foi? Ninguém sabe.

A polícia investiga.

...

O que todos sabem é que seu corpo está ali, inerte, sem vida, sem luz.

Que cena triste!

Seus olhos, que por tantas vezes fitaram, tão de perto, Jesus Eucarístico, agora cerraram para sempre.

Sua boca, instrumento de evangelização, que, por tantos anos, proclamou as maravilhas de Deus, aconselhou, perdoou os pecados, simplesmente foi silenciada.

Já não ouvem mais nada aqueles ouvidos tão acostumados a escutar o outro, ouvir segredos, desabafos, confissões...

Suas mãos, ungidas com o óleo sagrado, mãos sagradas, pelas quais vimos o pão e o vinho oferecidos no altar, mãos que elevaram, diante dos nossos olhos, o Corpo Eucarístico de Jesus, encontram-se ali, estáticas, frias, sem vida.

Os pés jazem, sem sangue, imóveis. Já não caminham, já não conduzem seu rebanho nem acompanham o Reinado, como sempre gostava.

A voz já não sai. Privaram-lhe os movimentos.

A vida lhe foi tirada.

Mas a alma, esta vive, para todo o sempre. De certo já se encontra junto do Pai. “Hoje mesmo estará comigo no paraíso.”

Ali, ao lado de Jesus e Maria, encontrará aconchego.

...

Gratidão, Pe. Marcelo!

Gratidão por todos os dias desses quinze anos que se dedicou à Igreja de Cristo.

Sua partida, tão repentina, causou comoção.

Meu coração está tão apertado!

Eu, que pouco o conhecia.

Imagino a dor dos familiares e amigos próximos.

Recolho-me em oração pelo descanso de sua alma, pelo conforto dos corações enlutados.

E sigo, confiando na misericórdia de Deus.

 

Luisa Garbazza

13 de janeiro de 2023

Em um momento de comoção pela morte do Pe. Marcelo Adriano.