quinta-feira, 2 de julho de 2026

Caminho de santidade

 


Já ouvi várias vezes, de nossos pregadores, que todos nós nascemos para sermos santos. Mas o que é realmente ser “santo”, muitas vezes me pergunto. A resposta sempre vem da observação ou do conhecimento da vida de pessoas que trilharam um caminho de santidade. Uma dessas pessoas indescritivelmente admiráveis é, sem dúvida, o missionário Júlio Maria De Lombaerde, fundador da Congregação dos Missionários de Nossa Senhora do Santíssimo Sacramento.

Nascida em uma paróquia sacramentina, pouco conhecia do Pe. Júlio Maria. Em 2010, no entanto, quando meu filho ingressou no seminário, ganhei, do saudoso Pe. Demerval Alves Botelho,sdn, o livro, que ele mesmo traduzira, “Diário Missionário do Pe. Júlio Maria”. A obra, escrita pelo próprio Pe. Júlio, narra a caminhada de um garoto que queria entregar a vida a Deus já aqui na terra. Em cada página do livro, uma passagem que me fazia encantar com a história de fé, coragem, determinação e santidade daquele jovem. Em pouco tempo, já me considerava uma devota do Pe. Júlio Maria. Comecei a rezar pedindo sua intercessão, por meio da qual recebi grandes graças. Hoje, 16 anos depois, continuo a nutrir a devoção por esse homem santo e a divulgar, de forma mais concreta, seu carisma. Não só divulgar, como também vivê-lo, da melhor forma possível, como Missionária Leiga Sacramentina.

Por tudo isso é que a notícia desta manhã teve um impacto imensurável em meu coração. Fiquei deveras feliz e emocionada. Assim estava escrito, no site do Vaticano:

“Durante a audiência concedida na manhã desta quinta-feira (18/06), ao prefeito do Dicastério para as Causas dos Santos, cardeal Marcello Semeraro, o Sumo Pontífice autorizou o mesmo Dicastério a promulgar o Decreto referente às virtudes heroicas do Servo de Deus Júlio Maria De Lombaerde (nascido Júlio Emilio Alberto), sacerdote professo da Congregação dos Missionários da Sagrada Família e fundador da Congregação das Filhas do Imaculado Coração de Maria, da Congregação dos Missionários de Nossa Senhora do Santíssimo Sacramento e da Congregação das Irmãs de Nossa Senhora do Santíssimo Sacramento, nascido em Waregem (Bélgica) em 7 de janeiro de 1878 e falecido próximo ao atual município de Alto Jequitibá (MG - Brasil) em 24 de dezembro de 1944, aos 66 anos.”

Por meio desse decreto, Pe. Júlio Maria, missionário no Brasil, torna-se “venerável”. Mais um significativo passo nessa caminhada de reconhecimento de sua santidade. Pela grande devoção que tenho por ele em seu coração, meu desejo, assim como o de tantos irmãos de fé, é vê-lo ser proclamado santo, venerado e amado por toda a Igreja.

Venerável Pe. Júlio Maria De Lombaerde, intercedei por nós.

Luisa Garbazza

Junho 2026

sexta-feira, 5 de junho de 2026

Coração Eucarístico de Jesus

 


Findamos o mês de maio, todo ele dedicado a Maria, mulher eucarística que merece nossa veneração e todas as homenagens. Junho chega para celebrar o Sagrado Coração de Jesus. Um Coração manso, humilde, um Coração Eucarístico. E para coroar o simbolismo deste mês, celebramos ainda a Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Jesus. Jesus Eucarístico é adorado e levado pelas ruas de nossa cidade para estender as suas bênçãos a todos os filhos e filhas de Deus.

Em se tratando de Jesus Eucarístico, gostaria de aproveitar para refletir sobre a comunhão eucarística, momento de suma beleza e importância e que, às vezes, é vivido tão mecanicamente. Quando estamos preparados para a comunhão e temos a oportunidade de vivê-la em sua magnitude, o corpo todo responde de maneira sublime. As respostas da preparação para a comunhão, a caminhada até à frente, o olhar que pousa docemente na pequena hóstia branca – presença viva e substancial de Jesus – que passa pelas mãos ungidas do sacerdote e pousa, com suavidade, em nossa mão, o “amém” rezado com convicção, tudo isso contribui para a sublimidade desse momento ímpar em nossa caminhada de fé.

Ao segurar a comunhão, estamos segurando o próprio Cristo. Os olhos acompanham o movimento da mão ao levar Cristo até a boca. Aí então a alma se expande, se alegra, se engrandece. O Corpo de Cristo se funde ao nosso. É uma sensação de completude, de êxtase a nos inundar por completo. Por alguns instantes, somos “sacrários de Cristo”, assim como Maria também o foi. E podemos ter a certeza de que Maria também está presente. Justamente nessa hora, podemos repetir suas palavras: “Minha alma engrandece o Senhor, e meu espírito se alegra em Deus meu salvador”. E continuamos ainda em intensa sintonia com Jesus. Às vezes o arrebatamento é tão profundo que apenas a voz do sacerdote, no oremos final, nos traz de volta ao momento presente.

Portanto, em especial nesse mês de junho, ao celebrarmos a Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Jesus, aproveitemos a oportunidade para fazer uma comunhão bem feita e nos deixar ser arrebatados por Jesus Eucarístico. Então, ao caminhar com Ele, pelas ruas de nossa cidade, tenhamos consciência de sua presença real e invoquemos, como nos ensinou o servo de Deus Júlio Maria De Lombaerde: Nossa Senhora do Coração Eucarístico de Jesus, rogai por nós.

Luisa Garbazza

Junho 2026


sábado, 9 de maio de 2026

Lembranças de Mãe

 


Dia das Mães, sempre um mistério! Uns sorriem, outros choram; uns celebram, outros vivem de lembranças; uns se reúnem, outros se isolam. É preciso respeitar as particularidades de cada pessoa. Justamente por causa das diferenças e particularidades da história de cada um.

Para mim, há muito, Dia das Mães é um dia de lembranças. Minha amada mãezinha partiu para o céu na noite do dia 16 de junho de 2014. Deixou marcas na vida de muita gente. Então as lembranças vêm, aos poucos, na mente acordada ou em sonhos, para permitir a permanência de sua presença em minha vida.

Ontem, antevéspera do Dia das Mães. Uma terna lembrança veio povoar meus pensamentos, provocar risos e direcionar minhas ações. No final da tarde, fui cortar um pedaço de rapadura pra comer. Ao primeiro toque com a faca, lembrei-me de minha mãe e de como ela nos entretinha mesmo na simplicidade, como o ato de cortar uma rapadura. Sentávamos todos próximos à mesa e ela, com suavidade, ia raspando a rapadura, de leve, seguidas vezes. As raspas, bem fininhas, quase transparentes, iam se acumulando na vasilha. Então ela deixava a faca de lado, ajuntava as raspas e amassava-as com a ponta dos dedos, formando um pequeno cone que ela chamava de “capitão”. – Lembro-me bem desse nome, apesar de não me lembrar se ele tinha algum significado. – A filharada acompanhava o processo com curiosidade e ansiosos para vê-lo chegar ao fim. Depois de o “capitão” estar bem formado, bem lisinho, ela segurava-o nas mãos, com extrema delicadeza, e entregava-o a um dos filhos. E recomeçava o processo, oferecendo “capitão” aos filhos um a um. Alegria para quem já havia ganhado; ansiedade aumentada nos outros, que olhavam os movimentos daquelas mãos de mãe, pensando, com água na boca, qual seria o próximo a receber aquele “presente” tão desejado.

Então, sentindo a alegria da criança que fui, desejosa por meu “capitão”, comecei a raspar a rapadura. Em cada raspa, uma lembrança: a silhueta delicada de minha mãe; sua facilidade em reunir os filhos com algum subterfúgio, por mais simples que fosse; o vaivém de suas mãos, tão ágeis e suaves; aqueles pares de olhos, todos apertados em volta da mãe; o gosto da rapadura recebida com tanto amor...

Terminei de raspar a rapadura e pus-me a montar o meu “capitão”, com suavidade e ternura. Levantei-o, depois de pronto, e levei-o à boca, com lágrimas nos olhos. O gosto foi inexplicável. O sabor daquelas raspas, misturado com o sabor de uma época distante, foi tão suave ao paladar, como a mais fina das iguarias. O amor estava ali, embutido no calor desse momento, no movimento das mãos, na montagem do “capitão” e no sabor do alimento. E, na alegria que transbordava, repeti a ação várias vezes, até ver saciada a fome da saudade que ocupara meu coração.

Minha mãe, sempre e sempre em minha vida, feliz Dia das Mães!

E feliz dia para todas as mães.

Luisa Garbazza

Dia das Mães, maio de 2026


sábado, 2 de maio de 2026

Braços de mãe

 


O Senhor nosso Deus, Criador de todas as coisas, criou o homem à sua imagem e semelhança. Criou também a mulher e a ela deu o dom da maternidade. Em toda a história da humanidade, percebemos o papel da mulher e o carinho de Deus para com as que não podiam engravidar. Vários são os exemplos das mulheres que conceberam já com a idade avançada, como o caso de Sara, mãe de Isaac: “Sara concebeu e, apesar de sua velhice, deu à luz um filho a Abraão, no tempo fixado por Deus.” Gen. 21,2; e Isabel, mãe de João Batista: “Mas o anjo disse-lhe: ‘Não temas, Zacarias, porque foi ouvida a tua oração: Isabel, tua mulher, vai dar-te um filho, e tu o chamarás João’.” Lc 1,13. A maternidade mais sublime, no entanto, foi, sem dúvida, a de Maria, pois deu a luz ao próprio filho de Deus, que se fez homem para a nossa salvação.

Não se comparando à maternidade de Maria, todas as mães são sublimes, e seu amor incomparável. Mãe ama, espera, acolhe, cuida, ensina, educa... e deixa ir. Quando a mulher percebe que está gerando uma nova vida, é imensurável o amor gerado em seu coração. Mas, ao dar a luz, é incomparável a beleza e a servidão encontradas nos braços de uma mãe.

Braços de mãe é ninho, que acolhe, com amor e carinho, o filho recém-nascido. Aquele ser, tão pequenino, cabe inteirinho dentro de seus braços. É ali que se acostuma com a vida aqui fora, aprende a sorrir, a se alimentar, a lançar nos olhos da mãe o olhar mais sincero e inocente que no mundo pode haver. É ali que o filho chora quando algo o incomoda, pois a mãe é capaz de entendê-lo.

Braços de mãe é estendido para segurar pequenas mãozinhas que começam a explorar o mundo, a dar os primeiros passos. Depois, soltam-nas, para que o filho possa seguir seu caminho. Mas continuam sempre abertos para acolhê-lo após as quedas, as frustrações da vida, os desânimos, a dor de amor, a saudade, quando estão distantes.

Braços de mãe é colo, é divã, lugar de repouso, de descanso, de pausa. Nos braços da mãe, podem-se dizer todas as coisas, pode questionar, pedir conselho, contar os sonhos e planos. A qualquer hora, seja dia, seja noite, eles estarão sempre lá, prontos para envolver, consolar, agasalhar, proteger. Mãe é mãe todo o tempo, por toda a vida e além da vida.

Todos os dias, sentimos a presença da mãe. E como é doce essa presença! Quando elas vão embora dessa vida, a dor é demais sentida. Fica a saudade de tudo, mas são dos braços que mais sentimos falta. Fica um vazio, e o mundo parece ser grande demais. Mas não é verdade que, às vezes, nos momentos de maior saudade, notamos nosso coração arder pelo caminho da vida e sentimos dois braços a nos lembrar de que não estamos sozinhos?

Luisa Garbazza

Maio 2026




domingo, 5 de abril de 2026

Ressurreição

 


Ressurreição: ato de ressurgir, ressuscitar, pôr-se de pé, voltar à vida. Para a mente humana, a despeito de todos os avanços da ciência, o ato de ressuscitar é algo impossível. Para Deus, no entanto, tudo é possível, inclusive a volta à vida. E nós, católicos, acreditamos plenamente na ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo e a revivemos, ano após ano, coroando as celebrações da Semana Santa.

A ressurreição de Cristo é algo confirmado, como nos diz o Pe. Júlio Maria De Lombaerde em seu texto de Via-Sacra: “E esse Jesus, cuja morte foi tão cuidadosamente verificada, ressuscitou vivo, foi visto, não só durante algumas horas, mas durante 40 dias. É outro fato histórico irrecusável. Tal ressurreição foi provada por um conjunto de fatos que não deixam dúvidas. Apareceu em circunstâncias muito diversas. (...) Ora, impossível que tanta gente, que todos esses testemunhos tenham sido iludidos, e que muitos tenham dado a vida em confirmação do que viram. Seria admitir uma verdadeira ilusão mundial. Jesus Cristo morreu, pois, e ressuscitou verdadeiramente.”

Esse acontecimento, que marcou a história da humanidade daquela época, venceu a barreira do tempo e continua sendo o ápice da nossa fé. Ao celebrar a ressurreição de Cristo, ganhamos novo ânimo para seguir a vida e renovamos a certeza de que nossa crença não é vã. É ela que norteia nossa caminhada de filhos e filhas de Deus.

Como filhos de Deus, precisamos não apenas celebrar a ressurreição de Cristo, mas também deixar que a Páscoa aconteça em nossa vida. Precisamos ressuscitar com Cristo. Ninguém é tão perfeito que não tenha nada a ser renovado, a ser deixado para trás. Todos nós temos algo a melhorar para sentir essa vida nova acontecendo. E isso só é possível por meio da fé, da pertença a Deus, da certeza de que Cristo vive no meio de nós.

Ressuscitar com Cristo é deixar que Ele aja. É entregar o coração, o corpo, a alma, as vontades, os projetos, tudo que temos e somos, para que Ele nos dê a direção. É aceitar que somos limitados e incapazes de caminhar sozinhos. Por isso é importante esse processo de renovação. Na vida, os tropeços são inevitáveis, mas sabemos que Cristo está sempre lá, de mãos estendidas, para nos levantar, nos acolher, nos oferecer uma vida nova e nos conduzir os passos.

Cristo vive! Feliz Páscoa!

                                                                                  Luisa Garbazza

                                                                                                        Abril 2026

 


sábado, 7 de fevereiro de 2026

A cortina do tempo

 


A cortina do tempo está sempre em movimento. Abre-se de um lado, fecha-se de outro. Move-se levemente com a brisa fresca; esvoaça-se nas tempestades. Às vezes pega-nos desprevenidos. Nós, da Paróquia Nossa Senhora do Bom Despacho, estamos passando por um desses momentos de fechar e abrir de cortinas. O tempo, que se fechou para o Pe. Renato, abre agora suas cortinas para deixar entrar o Pe. Luiz Paulo Fagundes, SDN.

Ordenado aos 27 de julho de 1998, em Santana do Manhuaçu/MG, onde nasceu, Pe. Luiz Paulo exerceu seu ministério em várias paróquias da congregação – impulsionado pelas palavras do seu ponto de partida: “Tu és meu Servo, eu te escolhi. O Senhor Deus me envia, com o seu Espírito”. (Is 41,9; 48,16) –, sempre com sua alegria e com seu canto que cativa e evangeliza. Sua simpatia nos contagia, e seu amor por Maria, a quem pede “Ei, Maria, não se esqueça de mim”, é a marca de sua simplicidade e de seu carisma como missionário sacramentino.

Pe. Luiz Paulo chega com seu jeito alegre, de braços abertos, para cumprir sua vocação em resposta ao chamado de Deus e da Congregação dos Missionários de Nossa Senhora do Santíssimo Sacramento. Traz até nós sua alegria e nos propõe a arte de “ser aprendiz do amor de Deus”. Como um “missionário que veio de longe” – sua última missão foi no Ceará – ele sabe a quem seguir e nos ensina que “Jesus é nosso farol”.

Por tudo isso, Padre Luiz Paulo, sacerdote que se declara: “Sou feliz”, nós o acolhemos com carinho. Nossa paróquia o recebe com a certeza de que temos muito a aprender com o senhor. O aprendizado sempre vem aos poucos. Então, de “gota em gota”, vamos nos beneficiar de sua sabedoria, de seu entusiasmo, de sua alegria e, por que não, de sua música.

Seja bem-vindo, Padre Luiz Paulo! O tempo agora é todo do senhor. Ensina-nos a também sermos felizes no seguimento de Jesus.

Por outro lado, ao falar de partidas e chegadas, é preciso entender que o senhor do tempo é alguém de muita generosidade. Quando a cortina do tempo se fecha, por um ou outro motivo, ela sempre deixa frestas, por onde passar as lembranças dos que amamos, e conserva uma porta aberta para os que desejarem retornar.

Luisa Garbazza

Jornal "Paróquia Nossa Senhora do Bom Despacho"

Fevereiro 2026 


sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

“Permanecei no meu amor.”

 

Esse é o chamado de Jesus para todos nós: que permaneçamos no seu amor. Esse chamado foi feito mais de perto, com maior insistência, ao jovem Felipe Cunha há alguns anos. E ele o aceitou. Trilhando por caminhos diversos, segundo a vontade do Senhor, eis chegada a hora da entrega total, de corpo e alma, ao Senhor da messe. Nós, da Paróquia Nossa Senhora do Bom Despacho, fomos testemunhas de toda essa trajetória e do desfecho, para o qual nos preparamos e do qual nos orgulhamos.

No dia 12 de dezembro, dia de Nossa Senhora de Guadalupe, o jovem Felipe Cunha se aproximou do altar do Senhor, acompanhado de seus pais, para a Celebração Eucarística, na qual seria ordenado sacerdote para a glória de Deus. Dom Antônio Carlos Félix, bispo de Luz na época em que o Felipe foi coroinha, presidiu a cerimônia, carregada de fé, de espiritualidade e simbolismo. Momento ímpar da celebração, a ladainha, quando o diácono Frater Felipe Cunha se prostrou no chão, diante do altar, fazendo sua entrega total como missionário do Senhor, reafirmando sua vocação e o desejo de “ser sacerdote eternamente, segundo a ordem do rei Melquisedec” (Sl 109,4).

O sim do então diácono Frater Felipe, a imposição das mãos de Dom Felix, a unção com o óleo sagrado foram sinais visíveis da graça de Deus, por meio da qual foi ordenado o neo-sacerdote Pe. Felipe Cunha Azevedo, SDN. Demonstrando alegria, o Pe. Felipe se emocionou ao receber o abraço de Dom Félix, de cada sacerdote presente e ao abençoar e abraçar seus pais. As lágrimas escorriam-lhe pelo rosto, denunciando a emoção e o júbilo sentidos naquele momento de graças e bênçãos.

As palavras do Pe. Felipe, ao final da celebração, foram de gratidão. Sem pressa, com a voz calma, serena, ele proferiu palavras que reviveram sua história e profetizaram seu futuro como sacerdote. A todos os presentes e aos que o acompanharam em sua trajetória vocacional Pe. Felipe expressou seus sinceros agradecimentos.

Nós, da Paróquia Nossa Senhora do Bom Despacho, também queremos expressar nosso agradecimento ao Pe. Felipe, pelo sim que proferiu diante de Deus, pela entrega confiante, pelos propósitos de trabalho, humildade, amor e sacrifício. Agradecimento ao Pe. Renato Dutra Borges, SDN, nosso pároco, que ajudou na condução dos preparativos para a ordenação. Agradecimento a todos os sacerdotes presentes, na pessoa do Pe. José Raimundo da Costa, SDN, superior geral da Congregação dos Missionários de Nossa Senhora do Santíssimo Sacramento. Agradecimento a cada irmão de caminhada, que prestou sua ajuda, qualquer que seja, para o bom êxito dessa ordenação presbiteral.

Rezemos pelo Pe. Felipe, para que permaneça no amor de Deus e tenha um ministério fecundo e feliz. Rezemos ao Senhor que envie operários para a sua messe.

Em tudo demos graças a Deus. (1Tes 5,18)

                                              Luisa Garbazza

Jornal da Paróquia

Janeiro 2026


sábado, 27 de dezembro de 2025

Mensagem ao Pe. Renato


 
Prezados sacerdotes! Caros amigos! Bom dia!

Pe. Renato, como diz o poeta, “não aprendi dizer adeus”. Então essas são palavras de gratidão.  São palavras minhas, mas conheço muita gente que as endossa e que gostaria de dizê-las ao senhor. Então...

Pe. Renato, há pouco tempo, o senhor veio para o nosso convívio. Silencioso, mas confiante. No seu silêncio, foi ganhando a confiança do rebanho que Deus colocou em seu caminho. O senhor nos fez entender que não é preciso muitas palavras, mas a palavra certa, na hora certa, do jeito certo e para a pessoa certa. E com as palavras certas o senhor nos ensinou tanto... tanto...

Há um dito popular que diz: “O óbvio precisa ser dito”. Com sua experiência e sua sabedoria, o senhor nos transmitiu o óbvio, dito uma, duas, três vezes... Quem teve ouvido para ouvir ouviu e aprendeu muita coisa.

O senhor nos ensinou a viver a Eucaristia, a participar da celebração eucarística com outra postura, a ressignificar os momentos da liturgia, a comungar com mais propriedade, a entender a dimensão e o alcance da misericórdia de Deus.

E o tempo foi tão curto! Antes do capítulo, ansiedade. Após o capítulo, respiramos aliviados. Alguns dias depois, a notícia de sua inesperada transferência, que nos afetou profundamente. Não estávamos preparados. Ainda havia tanto a aprender! A primeira impressão é de que o senhor foi arrancado de nós. Antes do tempo. Mas isso colocamos nas mãos do Senhor Deus. Ficamos com a gratidão.

Gratidão, Pe. Renato, pelos ensinamentos que nos transmitiu. Gratidão por sua serenidade, sua calma, mesmo que aparente, de lidar com nossas falhas, de esclarecer nossas dúvidas, tantas..., de nos ajudar a caminhar.

Gratidão a Deus por ter nos permitido conviver com o senhor por esses quase três anos.

Gratidão por sua amizade. E pela confiança.

Hoje o senhor parte para outras paragens. O rebanho agora é outro. Como o senhor nos ensinou tantas e tantas vezes, é preciso coragem. Mas a graça de Deus completa nossas carências, como também nos ensinou com a certeza de que “Deus não nos deu um espírito de timidez, mas de fortaleza, de amor e de sabedoria”.

Portanto, Pe. Renato, coragem em sua nova missão. Com confiança ilimitada em Deus, voe! Voe com a leveza do passarinho, sem se importar com as asperezas do caminho. E tenha consciência de que seus ensinamentos, que também vieram com leveza, deixaram marcas profundas como as pegadas do elefante.

Muito obrigada. Gratidão sincera.

Luisa Garbazza

Mensagem ao Pe. Renato pelo final de seu ciclo como pároco na Paróquia Nossa Senhora do Bom Despacho

27 de dezembro de 2025




segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

Esperançar sempre

 


Estamos chegando ao final do ano santo “Peregrinos de Esperança”. Feliz proposta do Papa Francisco, que nos exortou a lançar um olhar diferente para as coisas já criadas e buscar esperança de vida nova mesmo onde a secura já houver tomado conta. Lançar um olhar de fé, de amor e compaixão, aos moldes do olhar de Nosso Senhor Jesus Cristo. Jesus fazia brotar esperança para os cegos, os coxos e oprimidos, os que estavam jogados na lama da sociedade, os que já haviam perdido a fé. Foram a esses que o Papa Francisco lançou seu olhar esperançoso. Em nome desses, convocou-nos a todos, sem distinção, para peregrinar rumo ao altar do Senhor, buscar as bênçãos de Deus, receber as indulgências e rumar por outro caminho, cheio de esperança e fé, ao encontro de Deus e dos irmãos.

Neste dezembro, preparando-nos para a despedida do ano santo, vamos nos aproximando também do Natal. Como é bom contemplar, com os olhos da fé, a luz que nos guia ao presépio. Deitado na manjedoura, vamos encontrar Jesus, nossa maior esperança. Ele vem para nos lembrar de nossa condição de filhos amados de Deus, que nos enviou seu filho para nos ensinar as maravilhas de seu reino. Ali está Ele: pobre, humilde e divino. Prostrados diante do presépio, sentimos que podemos renascer. Sentimos que a luz do presépio brilha também em nosso coração e que podemos fazê-la brilhar por onde formos; compartilhá-la com os que encontrarmos nos caminhos da vida.

Os caminhos da vida, às vezes são cheios de trevas, por isso a importância de não abrirmos mão da Luz verdadeira, a Luz de Cristo, que nos envia para sermos “Sal da terra e luz do mundo” (Mt 5,13-14). Nesse intuito, possamos aproveitar o que nos resta do ano santo para nos deixar iluminar por essa luz, que salva, liberta, restaura, prepara, dá força e direção para a caminhada. Assim, com a esperança renovada, podemos acolher, em amor e verdade, o Menino Jesus, que, da humilde manjedoura, nos lança um olhar de paz e nos faz acreditar que é preciso esperançar sempre.

Luisa Garbazza

Dezembro 2025


sexta-feira, 14 de novembro de 2025

"Pedi e recebereis"

 


As palavras de Jesus ecoam nos ouvidos atentos dos filhos e filhas de Deus. Algumas com mais força, como “Pedi e recebereis, buscai e achareis, batei e vos será aberto”. Essa máxima do Filho de Deus nos lembra de nossa condição de filhos e nos dá liberdade de recorrer a Ele em nossas necessidades. Lembra-nos ainda das necessidades de nossos irmãos e irmãs em Cristo Jesus e da nossa obrigação de ajudá-los, subentendida em outra máxima, a do “Amai-vos uns aos outros”.

Muitas vezes deixamos adormecidos em nós mesmos a certeza de que, como filhos de Deus, somos responsáveis uns pelos outros; pelo bem estar físico, emocional e espiritual do nosso próximo. Nesse sentido, muito me incomodou a frase com que o Pe. Renato encerrou seu comentário diário, publicado nas redes sociais, do dia 9 de outubro deste ano: “Que neste dia você possa pedir a graça de perdoar, de servir, de escutar e transformar o que recebeu em serviço”. Entendi o quão necessário é trazer essas palavras para o nosso dia a dia de cristãos.

“Pedi e recebereis”, disse-nos o Mestre. “Amai-vos uns aos outros”, ensinou-nos esse mesmo Mestre. Analisando essas duas falas de Jesus, fica fácil assimilar as palavras do Pe. Renato. Tudo isso é graça de Deus. Deus é o Senhor da vida e o dispensário dos dons que possuímos. Nós somos corresponsáveis por nosso próximo, por isso a necessidade de estarmos sempre prontos para perdoar, para servir, para escutar. É preciso deixar de lado o egoísmo e a tentação de fazer nossos pedidos somente em benefício de nós próprios. Se pensarmos bem, temos a necessidade de tão pouco! E Deus nos deu dons em abundância.  Resta-nos pedir a graça de colocar todos os dons que recebemos a serviço do outro. E agradecer.

Há tanto a agradecer! Mês de novembro é tempo de ação de graças. Agradecemos pelo dom da vida dos que já partiram e pelos que se tornaram santos aos olhos da santa mãe Igreja. Agradecemos pelo final do ano litúrgico, pela esperança que semeamos ao longo do ano e por tudo que pudemos fazer de bom. É tempo de dar graças a Deus por todos os dons que recebemos, mesmo que não os tenhamos colocados em benefício dos necessitados. Isso fique como propósito para o próximo ano, quem sabe?

“Pedi e recebereis.” Peçamos então ao bom Deus a graça de escutar sua Palavra com a intenção de transformá-la em ação; a graça de perdoar e servir, de perceber em nós os dons recebidos e abrir a mão e o coração para doá-los. Nessa direção, sem perder a esperança, Deus nos conceda a presença constante de Maria, que, neste mês, vem justamente com o título de Nossa Senhora das Graças.

Luisa Garbazza

Novembro 2025

Publicação do jornal “Paróquia N. Sra. do Bom Despacho

sábado, 11 de outubro de 2025

Peregrinar

 


Mês de outubro é mês de intensa espiritualidade para nós, cristãos católicos. Entre tantos santos celebrados neste mês, unimo-nos, como nação, para celebrar a festa da padroeira do Brasil, Nossa Senhora Aparecida. E como outubro é o mês missionário, alegramo-nos com a festa de santa Teresinha, padroeira das missões. Em suma, outubro é tempo de peregrinar, sair de nosso comodismo e assumir uma missão.

Peregrinar é o que o Pe. Antônio faz todo ano com os devotos de Nossa Senhora Aparecida. Mas é também o que faz em setembro, a Manhumirim, com os devotos do Servo de Deus Júlio Maria De Lombaerde, por ocasião do Jubileu do Senhor Bom Jesus de Manhumirim.

Em 2025, saímos em peregrinação dia 11 e retornamos dia 14. Foram dias de intensa espiritualidade, sem perder a leveza e a alegria fraterna. Nessa peregrinação, tivemos a oportunidade de beber de várias fontes que muito nos enriqueceram: ouvimos o Pe. José Raimundo da Costa, sdn (Pe. Mundinho), falando da congregação e do Capítulo Geral, que se aproxima; o Pe. Marcos Antônio Belizário, sdn, que nos levou a aprofundar nosso conhecimento sobre o Pe. Júlio Maria; o Pe. Heleno Raimundo da Silva, sdn, que nos transportou no tempo para conhecer o Memorial Padre Júlio Maria; o Pe. Matheus Garbazza, sdn, que nos relatou os acontecimentos dos últimos dias de vida do Pe. Júlio Maria, bem como a bela reforma feita na Igreja Santo Antônio, demarcada pelo fundador, pouco antes de seu falecimento; do Pe. Antônio Otaviano, sempre nos orientando, nos alegrando, nos conduzindo. Também tivemos a presença descontraída do Pe. José Estevam de Paiva, sdn.

A festa do Senhor Bom Jesus, foi um ponto alto em nossa peregrinação, principalmente a celebração da noite. A participação de tantos romeiros, a celebração cuidadosamente preparada, a emoção inevitável no momento da entrada do Senhor Bom Jesus, a voz de Deus por meio da Palavra, proclamada e dita, tudo converge para o aprofundamento de nossa fé. Quem participa dessa peregrinação, presente de corpo e alma, retorna mais consciente de seu dever como cristão e sente-se pronto para a missão. Outubro nos chama. Caminhemos com fé e esperança, pois, como refletimos nos mês da Bíblia, “a esperança não decepciona” (Rm 5,5).

Luisa Garbazza

Outubro 2025
Publicação do Jornal Paróquia Nossa Senhora do Bom Despacho


terça-feira, 16 de setembro de 2025

 


Setembro chega, despertando em mim muitas sensações e sentimentos especiais. Não só por ser o mês em que Deus me concedeu o dom da vida, mas também pelo ar de esperança que ele nos traz. É a primavera que chega e nos mostra que tudo pode se renovar. As plantas ganham nova roupagem, o verde ganha vida e a natureza nos brinda com o colorido das flores. Nós também precisamos nos sentir renovados, tanto emocional quanto espiritualmente, para seguirmos com mais firmeza e convicção de nossos atos.

Para nos impulsionar à renovação de nossa vida espiritual, a Igreja sempre nos oferece motivos e conteúdos que nos levam a refletir e buscar novos pontos de partida. Já é setembro, e muitas pessoas ainda não se deram conta de que estamos em um ano jubilar, que nos motiva a viver, de forma mais intensa, a esperança em Deus. O “Jubileu da esperança” nos dá a oportunidade de rever nosso modo de agir, buscar o perdão de Deus e, se necessário, traçar novos caminhos. E ainda conseguir indulgências para as ações que não foram favoráveis ao querer divino.

Assim chega setembro, com a Igreja oferecendo-nos mais uma ocasião para avivar nossa fé e melhorar nossa vivência cristã: as reflexões sobre o mês da Bíblia, que nos propõe a leitura da “Carta de São Paulo aos Romanos”. Propício para o ano jubilar, o tema “A esperança não decepciona” (Rm 5,5) nos ajuda a entender que somos um povo guiado e amado por Deus, nosso Pai, sempre disposto a nos orientar e a nos ajudar a trilhar os caminhos por Ele traçados. Ou nos ajudar a voltar para tais caminhos, se acaso deles nos desviarmos.

Ao refletirmos sobre a “Carta de São Paulo aos Romanos”, percebemos o quanto precisamos valorizar o modo cristão de agir e de pensar, tanto como pessoa como na comunidade ou fora dela. Sabemos que, se permanecermos firmes na fé, “nada poderá nos separar do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor!” (Rm 8,39). Assim, revestido pela força e pela alegria da primavera, podemos aproveitar bem o final do ano jubilar com a certeza de que “a esperança não nos decepciona, porque Deus derramou seu amor em nossos corações, por meio do Espírito Santo que ele nos concedeu” (Rm 5,5).

Luisa Garbazza 

Setembro de 2025

Publicação original “Jornal Paróquia N. Sra. do Bom Despacho”.


sexta-feira, 22 de agosto de 2025

Esperança na família

 


           Estamos no ano jubilar. Somos peregrinos de esperança a caminho do céu. Nossa esperança maior é Cristo, sem dúvida alguma. A esperança primeira, aqui na terra, no entanto, é a família. É nela, e por meio dela, que podemos formar cristãos conscientes e comprometidos com o projeto de Deus, para o ser humano e para toda a criação.

A criação de Deus é algo sagrado. A família, também criação divina, é algo muito sagrado. Deus criou o homem e a mulher para a base familiar. E quis que seu filho nascesse no seio de uma família. Maria deu à luz a própria Luz, Jesus, o filho de Deus encarnado. José o acolheu como filho. Juntos cumpriram a sublime, mas difícil missão de criar, educar e amar o divino menino.

Tal qual Maria e José, o homem e a mulher, com a graça de Deus, recebem os filhos no ambiente familiar, onde a vida faz mais sentido. Com os filhos, vem a missão maior: criar, educar, amar e, acima de tudo, evangelizar. Quem ama cuida, alimenta, dá carinho. Quem ama ensina os valores da vida cristã e da fé católica, que inclui a presença constante de Jesus, Maria e José a indicar os caminhos.

O caminho proposto pela Igreja, neste ano jubilar, é o caminho da esperança. A família, tão necessitada de força e coragem para resistir aos ataques mundanos, precisa nutrir em si a expectativa por um mundo melhor, mais humanizado. Precisa ter confiança em tempos de mais amor, união, carinho entre as pessoas, certeza da graça santificante de Deus Pai.

A graça de Deus nos impulsiona a ter esperança, acreditar que podemos ser sementes do bem, nutrir em nós essa graça e frutificar. Saber que, por meio do amor a Deus, somos capazes de esperançar nossa família e as famílias com as quais convivemos. Um lar onde se vive a unidade, a exemplo do lar sagrado, em Nazaré, é modelo e pode dar testemunho de que é possível viver bem, com amorosidade, respeito e temor de Deus. E assim contagiar outros lares.

Deixemo-nos contagiar pelo exemplo da Família de Nazaré. Sejamos promotores de esperança no seio de nossos lares. Pela graça de Deus, sejamos multiplicadores, levando esse sentimento aonde for preciso. E, acima de tudo, acreditemos que a maior esperança está na família, com a qual caminhamos como peregrinos rumo ao céu.

Luisa Garbazza

Agosto de 2025


domingo, 10 de agosto de 2025

Amor de pai

 

                        Luisa Garbazza

 

Na figura do pai,

o reflexo do amor espelhado no rosto do filho;

no olhar do pai,

a expressão da mais sublime afeição;

no sorriso do pai,

a demonstração da alegria pura, que brota da alma;

na mão do pai,

a certeza da presença, do equilíbrio, do amparo;

nos passos do pai,

a segurança para as pegadas do filho;

no abraço do pai,

o encontro de almas, a segurança, o aconchego;

na companhia do pai,

outra vida que divide os mesmos caminhos,

que aprende, que se afirma como ser,

depois busca seu próprio caminho.

 

Na ausência do pai,

a saudade, as lembranças, as marcas deixadas,

a força do amor que permanece.

 

A você, pai, força que move a família, presença que marca, que conduz, que ensina, que impulsiona: o nosso reconhecimento.

Nossa gratidão por sua missão tão sublime de transmitir a vida e de enriquecê-la com seus ensinamentos.

A você, nosso abraço de feliz “Dia dos Pais”.

Parabéns!


Homenagem aos pais ao final da Celebração Eucarística das 9h na Igreja Matriz de Nossa Senhora do Bom Despacho.

Luisa Garbazza


sábado, 26 de julho de 2025

De trilha em trilha

 


Morávamos em um sítio bem espremido entre fazendas e uma indústria de siderurgia. Família de prole numerosa: pai, mãe e 10 filhos. Uma escadinha de crianças, conforme se diz aqui por estes lados do país. A criançada se divertia na área do sítio e nos arredores. Era uma verdadeira aventura a cada dia.

As saídas do sítio eram todas por meio de trilhas, a maioria ladeada por árvores frondosas: trilha para ir à cidade, trilha para ir às casas dos vizinhos, trilha para ir à mina buscar água para beber, trilha para ir à escola... Quando saíamos todos, ou vários, formava-se uma fila e caminhávamos acompanhando o ritmo do cabeça. Pela falta de energia elétrica, raramente saíamos após o entardecer. Esse momento era reservado para reuniões familiares, muitas vezes em volta de uma fogueira. Cada noite um momento diferente. Ora brincadeiras de corre-corre, ora de roda, ora de esconde-esconde... Ou então, a hora das histórias. Nossa mãe possuía o dom de contar histórias: reais ou imaginárias, reproduzidas ou inventadas. Os olhos da meninada brilhavam com as narrativas. E se arregalavam com as façanhas da mula sem cabeça e do enigmático saci-pererê. A mula sem cabeça era vista com respeito e com medo; o saci-pererê, com curiosidade.

O efeito desses dois seres do nosso folclore na vida da criançada era enorme. Nas noites escuras, sem luar, quando ficávamos na cidade até mais tarde, a volta era penosa. Nas trilhas que nos conduziam a casa, o medo reinava. Medo do que poderíamos encontrar pelo caminho. – E se aparecesse a mula sem cabeça botando fogo pelas ventas? – Nesse estado de tensão, ninguém queria ser o primeiro da fila, muito menos o último. A volta tornava-se longa demais. Na pressa de sairmos do negrume da noite, às vezes até tropeçávamos uns nos outros, quando o da frente dificultava os passos. A chegada era sempre motivo de grande alívio.

No dia a dia, na lida da vida, ocorria de sairmos à tardezinha, para fazer visitas ou pedir emprestado algum gênero de primeira necessidade nos vizinhos – sempre distante – ou para buscar água na mina. Algumas vezes, era necessário alguém sair sozinho. As sombras da tarde, que iam se espalhando, cobrindo tudo muito rápido para a chegada da noite, causava calafrios e traziam à tona o medo dos seres mitológicos. Aí o inevitável acontecia...

Certa noite, a irmã mais velha, que havia saído para pedir açúcar emprestado, chegou a casa sem fôlego, sem conseguir falar, branca como cera. E por algum tempo, assim permaneceu. Quando conseguiu balbuciar alguma coisa, aguçou nossa curiosidade. Aos poucos começamos a entender o que havia se passado.  “Avistei uma mulher estranha... ela esticava e encolhia. Olhava para um lado e a mulher estava lá, pequena igual anã. Aos poucos, ela ia se espichando e ficava mais alta que as árvores. Depois aparecia do outro lado, bem à frente, e ficava encolhendo e espichando. E assim durante todo meu caminho. Quase morri de medo!” Daí em diante, a mulher “que espicha e encolhe” foi alvo do medo da criançada. Quem saía ao entardecer já ia com os olhos arregalados, temendo encontrá-la pelo caminho.

Na semana seguinte, quando a tal mulher já começara a cair no esquecimento, o caso se repetiu, em outras proporções. Chegaram dois irmãos, que saíram à noitinha para buscar água. Estavam muito assustados! Nas vasilhas, apenas um pouco de líquido. A mãe indagou: “Onde está a água? O que aconteceu?” Com a respiração ainda ofegante, um deles respondeu: “Pegamos a água, mamãe. Mas, quando a gente voltava, vimos uma mulher vestida de branco em cima de uma árvore. Ela abria e fechava os braços, chamando a gente. Corremos de medo, tropeçamos e deixamos a água cair.” Vários pares de olhos se arregalaram ao mesmo tempo.

A vida no sítio seguiu plena, com suas histórias, seus passeios noturnos, seus medos. A mulher de branco, esta não caiu no esquecimento muito fácil não. Apareceu novamente, também para outras crianças, por um longo tempo.

Luisa Garbazza

2025

 

Um pouco das minhas lembranças de infância.

(A foto, tirada recentemente, é de uma das trilhas por onde andávamos.)