Dia das
Mães, sempre um mistério! Uns sorriem, outros choram; uns celebram, outros vivem
de lembranças; uns se reúnem, outros se isolam. É preciso respeitar as particularidades
de cada pessoa. Justamente por causa das diferenças e particularidades da história
de cada um.
Para mim,
há muito, Dia das Mães é um dia de lembranças. Minha amada mãezinha partiu para
o céu na noite do dia 16 de junho de 2014. Deixou marcas na vida de muita
gente. Então as lembranças vêm, aos poucos, na mente acordada ou em sonhos,
para permitir a permanência de sua presença em minha vida.
Ontem, antevéspera do Dia
das Mães. Uma terna lembrança veio povoar meus pensamentos, provocar risos e
direcionar minhas ações. No final da tarde, fui cortar um pedaço de rapadura
pra comer. Ao primeiro toque com a faca, lembrei-me de minha mãe e de como ela
nos entretinha mesmo na simplicidade, como o ato de cortar uma rapadura. Sentávamos
todos próximos à mesa e ela, com suavidade, ia raspando a rapadura, de leve,
seguidas vezes. As raspas, bem fininhas, quase transparentes, iam se acumulando
na vasilha. Então ela deixava a faca de lado, ajuntava as raspas e amassava-as
com a ponta dos dedos, formando um pequeno cone que ela chamava de “capitão”. –
Lembro-me bem desse nome, apesar de não me lembrar se ele tinha algum
significado. – A filharada acompanhava o processo com curiosidade e ansiosos
para vê-lo chegar ao fim. Depois de o “capitão” estar bem formado, bem lisinho,
ela segurava-o nas mãos, com extrema delicadeza, e entregava-o a um dos filhos.
E recomeçava o processo, oferecendo “capitão” aos filhos um a um. Alegria para
quem já havia ganhado; ansiedade aumentada nos outros, que olhavam os
movimentos daquelas mãos de mãe, pensando, com água na boca, qual seria o
próximo a receber aquele “presente” tão desejado.
Então,
sentindo a alegria da criança que fui, desejosa por meu “capitão”, comecei a
raspar a rapadura. Em cada raspa, uma lembrança: a silhueta delicada de minha
mãe; sua facilidade em reunir os filhos com algum subterfúgio, por mais simples
que fosse; o vaivém de suas mãos, tão ágeis e suaves; aqueles pares de olhos,
todos apertados em volta da mãe; o gosto da rapadura recebida com tanto amor...
Terminei
de raspar a rapadura e pus-me a montar o meu “capitão”, com suavidade e
ternura. Levantei-o, depois de pronto, e levei-o à boca, com lágrimas nos
olhos. O gosto foi inexplicável. O sabor daquelas raspas, misturado com o sabor
de uma época distante, foi tão suave ao paladar, como a mais fina das iguarias.
O amor estava ali, embutido no calor desse momento, no movimento das mãos, na
montagem do “capitão” e no sabor do alimento. E, na alegria que transbordava,
repeti a ação várias vezes, até ver saciada a fome da saudade que ocupara meu
coração.
Minha
mãe, sempre e sempre em minha vida, feliz Dia das Mães!
E feliz
dia para todas as mães.
Luisa Garbazza
Dia das Mães, maio
de 2026

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