A natureza – obra divina – é perfeita e sempre
se antecipa com seus sinais. Quando o negrume do céu começa a se recolher e nos
deixa visualizar a cor do céu, é sinal de que outro dia vem chegando. O céu se
deixa pintar da cor de laranja com rajas azuis. Esse manto colorido aos poucos
vai se abrindo para deixar passar o astro rei, que desponta no horizonte. Aos primeiros
raios, começa a festa de brilho e cor. Há mais alegria e poesia, pois todos sabemos:
a luz que chega é benéfica. Ela vem aquecer a terra e clarear nossa jornada. O homem,
os animais, as plantas, todo ser vivente sabe que a sobrevivência está
garantida. A vitamina D pode ser facilmente absorvida, as plantas crescem de
maneira mais saudável, os ambientes ficam mais arejados, sentimos mais disposição
para o trabalho... Enfim, é o momento do sol nascente; é a vida que se renova.
Assim também em nossa caminhada como igreja. Passamos
pelo negrume da Quaresma – tempo de meditação, de reflexão, de sacrifício. Tempo
de acompanhar Jesus em seus quarenta dias no deserto: seu recolhimento, seu sofrimento,
suas dores, suas lágrimas. Tempo de caminhar com Jesus a sua Via-crúcis: sua
paixão, morte e ressurreição. Tempo de penitência, de tomada de consciência de
que precisamos mergulhar em nós mesmos para descobrir o que está escondido
pelas sombras da noite e perceber o que está atrapalhando a entrada da luz em nossa
vida. Tempo de espera, de fé e da certeza de que Deus não abandonou seu filho e
jamais nos abandonará. Certeza de que, assim como o sol, Jesus vai ressurgir e
nos presentear com a luz da esperança, da fé, da vida nova que vem dele e só
ele pode nos dar.
Justamente esse período de euforia, aquecidos
pelo fogo novo e pela luz da ressurreição de Jesus, é que estamos vivenciando
agora. Precisamos nos deixar aquecer por essa luz. Deixar que ela adentre em
nossa pele, impregne nossos sentidos, penetre em nossas entranhas e faça de nós
criaturas novas, seres transformados, como o vaso que toma forma nas mãos talentosas
do oleiro. Mergulhados em água cristalina e pura, de corpo e alma limpa, podemos
confiar na vida que se coloca diante de nós.
Essa vida nova em Cristo é primordial para
nossa saúde, tanto física quanto espiritual, pois, se a alma está em paz, tudo
fica mais claro e, consequentemente, mais saudável. Não significa que a vida vai
ficar mais fácil, e as dificuldades deixarão de existir. Significa que, se
estamos em sintonia com Deus, caminhando de mãos dadas com seu filho Jesus – luz
da vida –, somos capazes de perceber os obstáculos e temos forças para
transpô-los. Na luz, a jornada, com certeza, torna-se mais leve.
Neste ano, estamos todos vivendo um período
obscuro, cheio de obstáculos e incertezas provocadas pela pandemia que marca o
início desta terceira década do século XXI. Estamos todos sujeitos a ser
contaminados por esse vírus que não sabemos onde está, de onde vem e que chega sem
avisar. Momento mais que oportuno para nos colocarmos inteiramente sob a luz
divina, que resplandece com o Cristo ressuscitado, e de confiarmos inteiramente
que seremos guiados por ela. Assim como Jesus se sacrificou e se entregou até à
morte para fazer a vontade do Pai e para nos salvar, façamos nossa parte de sacrifícios
para o bem da humanidade. Uma atitude sensata nossa, alguns dias de reclusão, medidas
de higiene e distanciamento social, tudo isso pode ajudar a preservar nossa
vida e a de muitos irmãos e irmãs nossos, filhos e filhas de Deus.
Então, com a confiança no Cristo vivo, com a consciência
de que a vida é para todos e de que somos responsáveis por ela, poderemos caminhar
para a fraternidade. Precisamos ter esperança de que haverá sempre um sol
nascente a nossa disposição. Basta que permitamos sua entrada para encher de
brilho nosso dia, nosso corpo, nossa alma. Abramos nossa porta. Deixemos a luz
do céu entrar.
Publicação do Jornal Paróquia N. Sra. do Bom
Despacho
Abril 2021
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