quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Graças a Deus!

“Em tudo dai graças, porque esta é a vontade de Deus em Cristo Jesus para convosco”. (I Tess. 5,18)

Somos filhos amados de Deus, herdeiros do seu reino de amor e estamos constantemente elevando preces a Ele para pedir tantos benefícios que julgamos urgentes para bem vivermos. Nem sempre somos atendidos em nossas súplicas, pois não compreendemos os planos de Deus e, às vezes, nem sabemos o que é melhor para nós. Então precisamos entender que, a despeito de receber ou não a graça suplicada, é necessário dar graças a Deus a cada minuto de nossa vida.
O simples fato de acordar de manhã já é motivo suficiente para agradecimento. Abrir os olhos e perceber que estamos vivos, prontos para iniciar a jornada de um novo dia, é bênção divina. É dever de todos aproveitar o que recebeu de Deus para melhorar o mundo ao seu redor. Acordar e partir para a luta, dentro das possibilidades de cada um.
É graça divina despertar e perceber que a noite está dando seu lugar ao sol, que vem nos iluminar e nos aquecer gratuitamente. Abrir a janela e olhar para o céu, infinitamente azul, a emoldurar a maravilhosa criação de Deus: ora contrasta com o verde das matas, ora com o amarelo de tantos desertos, ora se confunde com o azul do mar. Ou apreciar o céu cinza, anúncio de chuva, boa e necessária, que chega para refrescar a terra, limpar a poeira, fecundar o chão. Admirar as flores que brincam com as cores numa aquarela bem diversificada e os pássaros com seus trinados peculiares e bailados típicos. E, no final do dia, o esplendor do horizonte que acolhe o sol num espetáculo perfeito. Graças a Deus pela natureza que nos abriga e nos dá vida.
Em tudo que fazemos e sentimos temos motivos para agradecer ao Senhor da vida, que nos deu um corpo perfeito: olhos que nos permite enxergar no outro um irmão; mãos que trabalham e devem estar sempre a serviço, disponíveis para auxiliar a quem precisa; boca que nos permite anunciar as maravilhas de Deus; pernas que nos levam a todos os lugares; mente privilegiada, capaz de criar, armazenar e pensar em tantas coisas; coração que nos mantém vivos, nos permite amar a Deus sobre todas as coisas e nos brinda com sentimentos de ternura, afeto, carinho, amor, saudade.
Graças a Deus por nos ter concedido nascer em uma família. A presença do pai, da mãe e dos irmãos, que nos acolhem, nos amam e nos deixam confiantes de que, por mais que tenhamos dificuldades na caminhada, teremos sempre para onde voltar e alguém que irá nos acolher e nos impulsionar a procurar novos caminhos. Uma família para amar e respeitar seguindo Jesus, que nos apresentou a família de Nazaré como exemplo de fé, amor, sabedoria, confiança em Deus.
Durante nossa existência terrena, ainda temos muito que agradecer a Deus Pai: pelo alimento que todos os dias vem compor a nossa mesa e saciar nossa fome; pelo ar que respiramos e nos mantém vivos; pela água que corre cristalina por lugares de beleza ímpar e chega até nós satisfazendo nossa sede; pela noite, quando temos oportunidade de descansar o corpo e nos prepararmos para um novo dia; pela religião que nos permite estar sempre em sintonia com os ensinamentos de Jesus; pelas oportunidades de fazermos o bem e ajudar a quem precisa sem preconceitos ou preferências.
Por tudo isso, Senhor, Deus do universo, nós vos damos graças. Nós vos agradecemos e vos bendizemos por sermos vossos filhos amados. Graças por ter nos concedido o dom da vida e a oportunidade de nos tornarmos santos. Mais ainda, graças a vós, ó Pai, por nos darmos a certeza da vida eterna, quando nos veremos face a face. Assim sendo, Senhor, nós vos pedimos, não permitais que nos afastemos de vós nem por um minuto sequer. Ajudai-nos a estar sempre vigilantes, a fazer o bem e a honrar seu santo nome. E a não esquecer nunca de dizer a cada momento: Graças a Deus!

Luisa Garbazza
Novembro de 2013

28 de novembro de 2013 - "Dia Nacional de Ação de Graças".
(Ou seja: a quarta quinta-feira de novembro.)

domingo, 17 de novembro de 2013

Fugacidade do tempo

Tempo que passa...  e não para
Tempo ausente, insuficiente...

Tempo...
Tão rápido na alegria
Arrastado na melancolia.
Na infância, tão demorado
Na adolescência, dispensado
Na maturidade, criticado
Na velhice, compensado.

Tempo que castiga
Quem espera pelo dia
Da sonhada felicidade.
Tempo que privilegia
Quem a vida desafia
Depois vive de saudade.

Grande amigo tempo
De tanto sentimento
Presente em cada momento.
Inimigo no tormento
Na dor, forte lamento
Na paz, grande alento.

Tempo, atenda-me o pedido
Que faço com insistência:
Mostre-se condoído
Preciso de assistência.
Que eu possa todo dia
Aceitar sua cadência
Entender o ritmo da vida
Viver com fé e decência.
Ser sempre agradecida.

Tempo...
Tem o poder em suas mãos
Não me cause decepção
Pois comanda a vida que perpassa
Tempo, que sempre e sempre passa.
Luisa Garbazza

17 de novembro de 2013

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Um simples detalhe

Um dia como outro qualquer. O tempo chuvoso e escuro das primeiras horas ilumina-se com a chegada do sol e deixa mais colorida a manhã de primavera.
Coração também amanheceu chuvoso. Triste, angustiado, apertado no peito. E assim continuou. Uma sensação estranha, indefinida. Semblante pesado. Nostalgia pura sem saber por quê. Ou de quê.
A tarde já ia adiantada. Como as nuvens da existência ainda não tinham se dissipado, dirigi-me ao jardim – um dos meus lugares preferidos. Sentei-me na grama – muito verde, agradecida pelas chuvas constantes desta estação – e deixei-me ficar. A cabeça estava longe, os pensamentos desconexos, a mente embaralhada.
Pus-me a contemplar as plantas. Cada uma tem sua história: dois coqueiros. Um foi presente de minha mãe; outro, trazido do brejo  por meu pai – Há quanto tempo!; a roseira cor-de-rosa ganhei de uma vizinha, e a rosa preta, de meu esposo; a açucena foi presente – Um vaso lindo que ganhei no dia das mães e transplantei para o jardim. – Assim fui relembrado a procedência de cada uma delas. Agradáveis lembranças.
Meus olhos pararam na grama. Milhares de folhinhas formando um lindo tapete verde. Porém, algo mais me chamou à atenção: bem no meio da grama, também verde, só que em um tom mais claro, uma pequena plantinha havia brotado. Olhando brevemente, ela nem seria notada. No entanto estava lá, firme, nitidamente visível aos olhares mais atentos. Serviu-me como ponto de reflexão.
Pude perceber naquela plantinha um toque divino que se revelou em tão simples detalhe. É realmente nas pequenas coisas que Deus  se manifesta. Ela, que brotou apertadinha por entre as raízes da grama, conseguiu ganhar seu lugar e, apesar de estar só, estava crescendo de maneira bem saudável. Por sua força de vontade, ganhou novos ares e agora fazia parte daquele jardim.
Pensamento alçou voo. Do mesmo modo, também sou criação divina. Tudo que tenho e sou devo a Deus. Por isso, preciso estar de bem com a vida e valorizar cada detalhe do dia a dia. Também faço parte de um imensurável jardim. Não preciso estragá-lo. Posso escolher enfeitá-lo com a ternura que flui do meu coração, deixá-lo leve com minhas palavras de incentivo, iluminá-lo com a luz da minha fé. Posso cuidar de cada detalhe que vai fazer a diferença aos olhos dos que o observam.
Um sorriso brotou lá no fundo. Relutei em me levantar dali. Entretanto, já me sentia aliviada e pronta para retornar à rotina. Agradeci profundamente a Deus por ter me permitido esses momentos e por ter revelado essas coisas a mim, que sou tão pequenina.
Luisa Garbazza
13 de novembro de 2013
18 horas e 20 minutos

terça-feira, 5 de novembro de 2013

“Quero ser mais santo.”

Participar da celebração eucarística é, para nós católicos, motivo de muita alegria com um significado profundo de crença na presença real de Jesus na Sagrada Comunhão. Só o fato de estar ali, na presença do sacerdote e em comunhão com Deus e os irmãos, já faz desse um momento especial, mas há dias em que certos acontecimentos nos brindam com a beleza de sua essência. Foi o que aconteceu comigo em um domingo, na celebração das nove horas na Matriz de Nossa Senhora do Bom Despacho.
Como estava ajudando na celebração, foi fácil perceber a presença de um jovem, desconhecido para mim, que estava auxiliando na equipe de canto. A camisa que ele trajava chamou minha atenção. Um azul claro, muito bonito, com escritas brancas não identificáveis por causa da distância. Quando ele se aproximou um pouco pude identificar o que estava escrito – pelo menos as letras grandes: “Quero ser mais santo”.
Essa frase me motivou profundamente e participei da Missa com entusiasmo renovado. Depois da celebração, fiquei meditando sobre essas palavras, simples, que povoam nosso pensamento e se expandem ganhando espaço e significado abstratos, em um primeiro momento, mas que vão se concretizando durante a caminhada: “Quero se mais santo.” Querer ser mais santo deve ser o objetivo maior de todo cristão. Foi para isso que Jesus nos deixou seus ensinamentos. Porém não seremos santos sozinhos. Somos chamados a viver em comunidade respeitando os preceitos do Evangelho, que nos levam à salvação, e contribuindo para a santificação da Igreja, dos ministros, da família, dos pobres, de todo o povo de Deus.
A Igreja é mais santa quando ouve com docilidade a voz do Espírito Santo; sempre que age com sabedoria dando atenção preferencial aos pobres e oprimidos; coloca-se inteiramente a serviço da humanidade e trata a todos indiscriminadamente; preserva e expande cada dia mais a unidade dos primeiros cristãos. Assim estará se firmando como a “Igreja de Cristo” e sendo fiel à sua missão de renovar o mundo.
Pela sua misericórdia, possa Jesus incitar o desejo de ser mais santo a todos os ministros da Igreja, ordenados e leigos. Sejam mais santos ao escolher os caminhos que irão percorrer; ao encontrar o irmão necessitado de uma palavra amiga, de uma ajuda, de um sorriso, de uma mão estendida; ao se colocarem a serviço, dispostos a acolher os mais necessitados.
O povo de Deus será mais santo quando entender melhor as palavras de Jesus e sentir necessidade de colocá-las em prática. Quando perceber que não adianta querer ser melhor que ninguém, pois perante Deus somos todos iguais. Foi Ele mesmo quem disse: “Deixai vir a mim os pequeninos porque deles é o reino do céu”. Quanto mais simples, humilde, solidário, mais perto de Deus e, consequentemente, mais santo. Para isso, carecemos muito da graça de Deus para que possamos entender sua mensagem de vida plena e espalhar sua verdade por onde formos.
Queremos ser mais santos, Senhor. Por isso vos pedimos: Irradiai sobre nós a vossa luz e dai-nos a graça de difundi-la em todos os lugares por onde passarmos. Dirigi o trabalho de nossas mãos, para que tudo que fizermos seja em prol da dignidade do ser humano.
Nesse caminho para a santidade, ensinai-nos, Senhor, a sermos mais solidários com aqueles que necessitam de misericórdia. Não nos permitais deixar o irmão à margem do caminho, sem forças para continuar a batalha da vida. Muitas vezes somos nós mesmos que precisamos imensamente da sua indulgência. Portanto, Senhor, “não nos deixeis cair em tentação e livrai-nos sempre de todo mal”.
Ajudai-nos, Pai do céu, a agirmos com sabedoria para, seguindo o exemplo de tantos santos e santas, que nos precederam e são celebrados neste mês de novembro, não nos afastarmos do caminho que nos conduz a vós. Dai-nos a graça de amar o irmão da mesma forma como somos amados por Vós; a sermos honestos e a fazermos sempre o bem, mesmo se não formos valorizados. E, acima de tudo, dai-nos a graça de descobrir, a cada dia, o que precisamos fazer ou em que mudar para sermos mais santos e nos preparamos para a grande glória que é vê-lo face a face na eternidade. Amém.

Luisa Garbazza

Publicado originalmente do jornal "PARÓQUIA"
Paróquia Nossa Senhora do Bom Despacho
Novembro de 2013

domingo, 3 de novembro de 2013

Padre Pedro - 68 anos de sacerdócio

Hoje, dia de todos os santos, tive o feliz privilégio de fazer a acolhida para a missa de ação de graças pelos 68 anos de ordenação sacerdotal do Padre Pedro.
Padre Pedro faz parte da história de Bom Despacho e vê-lo, aos 92 anos, presidindo a celebração eucarística é muito emocionante. Na serenidade do seu semblante, deixa transparecer a confiança total em Deus.
Em minha vida, ele também teve uma participação especial. Lembro-me de quando ele foi celebrar a “Primeira comunhão” das crianças preparadas por mim em uma comunidade rural onde eu lecionava. Sem similar. A boa vontade e a prontidão com que aceitou meu convite, sua maneira de agir com tranquilidade e paciência, suas palavras e seu carisma emocionou-nos. Durante muito tempo, ele foi relembrado naquele lugar.
O que mais me impressiona é sua lucidez e a sabedoria com que fala das coisas de Deus e de sua própria história.
Guardarei comigo a singeleza e a alegria com que ele recebeu e retribuiu meus cumprimentos - assim como o de todos os outros - e esse sorriso com que, na gratuidade, ele me presenteou. 
Agradecemos a Deus por nos permitir celebrar, juntamente com o Padre Pedro, seus 68 anos de vida sacerdotal e louvamos por tudo o que Deus tem feito por ele e através dele. Que Jesus e Maria o abençoem e permitam-lhe que, guiado pelo Espírito Santo, prossiga semeando Cristo no coração das pessoas com sua peculiar confiança, firmeza e serenidade.

Mensagem de acolhida
         Nossa Igreja hoje se alegra por um motivo muito particular: em 1945, nesta mesma igreja, nosso muito querido Padre Pedro Lacerda Gontijo celebrava sua primeira missa. Hoje ele aqui retorna para celebrar os 68 anos de sua ordenação sacerdotal.
         Padre Pedro nasceu em Moema aos 13 de outubro de 1921. Foi criado em Bom Despacho até os 13 anos de idade e para cá voltou, como sacerdote, em 1966. Desde então, tem nos presenteado com sua presença edificante, sua sabedoria, disponibilidade, seu sorriso franco e constante. Todos os que com ele conviveram, ou convivem, têm lembranças boas para contar: história de amizade, de aprendizado, de bons conselhos...
         Aproveitemos esta celebração para dar graças por esse homem de Deus, que, depois de todos esses anos, ainda deixa transparecer o entusiasmo, a alegria de viver, a lucidez e uma grande fé em Deus.
Seja bem-vindo entre nós, Padre Pedro.  
Luisa Garbazza
Três de novembro de 2013.

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Nos caminhos de “A Magia das Chaves”

Fui convidada a entrar em um mundo mágico em busca de uma chave especial.  Fiquei bastante apreensiva ao imaginar como é extenso o universo das chaves. Encontrar “A chave” e carregá-la de significado pode ser tarefa penosa para principiantes. Depois de pensar e repensar, a decisão: “Estou disposta a percorrer esse caminho”.
Comecei encontrando “A chave do passado”, uma chave velha e quebrada que povoou meus sonhos, transportou-me de volta ao mundo mágico da infância e ensinou-me a olhar sempre para frente sem me prender às amarras do passado.   Alguns passos à frente, numa história parecida, deparei-me com Albertina Fernandes, que voltava à casa da sua infância, e, com a chave do carro na mão, ficou ali, a olhá-la, vazia, silenciosa, sem o encanto de outrora e a contemplar “O silêncio dos invisíveis”
Recomecei a caminhada com Adriana Teixeira Gomes falando sobre “O poder” que sobe à cabeça de quem tem o controle das chaves, afinal estamos todos dependendo delas. Concordei com ela. Precisamos sim, mesmo que seja para abrir uma ideia, como aconteceu com Alexandre Acampora em sua “Metamorfose”: uma ideia para eliminar os fungos que insistiam em impregnar seus livros. 
Retomei a procura com Alexandre Sandrieu. Uma chave na ignição, um acidente trágico e entre perdas, ganhos, luta pela vida e um amor muito grande, escreveu “A última carta de amor”. A tragédia se repetiu com a “Chave bendita”, que nas mãos de Lucas Figueiredo Silveira testemunhou o fim de uma linda história de amor que teve início nos tempos da meninice e desfecho de vingança. Trágico também foi o motivo de uma partida inesperada que deixou em pedaços Luz Corvo Dias. Uma chave guardada em um envelope dentro de uma caixa, uma carta e um endereço que resultou em “Retalhos de mim”. Ainda trágica a chave esquecida na fechadura, do lado de fora da porta, por Thaís Amado. Pretexto para um encontro feliz, mas que desencadeou uma tragédia passional. Resultado: “Uma chave e Três vidas”.
Observei durante a caminhada que algumas coisas precisam ser muito bem trancadas. Como o coração. Assim como “Sete chaves, no lugar do teu coração” foram abrindo uma a uma as sete portas, colocou Filipa Vera Jardim frente aos dissabores da vida e preparando-a para, enfim, viver. Ou as sete chaves que fechavam o coração de Teresa Almeida impedindo a felicidade que só foi reencontrada quando readquiriu a alegria da gratuidade e, com amor, recuperou a chave do coração em sua “Viragem”. O sete, também considerado “O número perfeito”, representava a casa de Alice Branco, cuja porta está sempre aberta a sete chaves sugerindo a liberdade de quem não se apega a coisas materiais. E as sete chaves de Dalila Moura Baião, cravejadas de lapas e vestígios de algas, cada uma com uma letra que “Entre o vento e o mar” formam a palavra INFINITO e mostram anjos que revolvem a terra e plantam a fraternidade.
Nenhuma dessas era a chave que procurava.  Soube então de uma chave velha que foi rejeitada por uma fechadura brilhante, convencida, soberba, revelada por Alice Mano-Carbonnier em “Era uma vez uma chave”. A fechadura teve um fim trágico: enferrujada, desmanchada e jogada no lixo; a chave, guardada em uma linda caixa. Continuei com “O Dandi imortal” e percebi a estranheza da vida de quem não encontra razão para viver e a loucura provocada por uma pequena chave dourada e descrita por André Lamas Leite. Ao longe, vislumbrei “A chave perdida” que abriria um cofre negro, recheado de dinheiro cobrado dos pobres por um rei perverso que morreu na batalha. Antonio MR Martins conta de um novo e bondoso rei, mas o cofre...
Sozinha nesse caminho, senti pesar a solidão. Encontrei sentimento comum em algumas chaves que descobri pelo caminho: primeiro Cristina Correia nos mostra a chave da arca de “A avozinha Eva”, que era aberta para esquecer a solidão, mas que ensinou a livrar-se dela ajudando as outras pessoas; em seguida o “Vai e Volta” de Beatriz Pacheco Pereira apresenta duas chaves douradas que serviram de pretexto para uma de muitas visitas que amainariam a solidão de alguém que estava longe de casa; a chave misteriosa de Bruno Resende Ramos que provocou a solidão, da qual só se liberta quem, pelos “Caminhos e descaminhos”, encontrar a chave da própria vida; e as perdas de “Mafalda de Loutulim” contadas por Cristina Malhão-Pereira, que sai em busca de si mesmo, encontra alguém e entrega-lhe uma chave que abre, ao mesmo tempo, sua casa e seu coração.
Em “É de repente que as coisas grandes acontecem”, depois de uma viagem forçada, Cristina Silveira de Carvalho revela os caprichos do destino. Encontra alguém que volta à memória quando procura as chaves da casa e encontra junto aquele bilhete: “Call me”. Já a chave de Elvira Cristina Silva pertencia a uma casa que escolheu a moradora e só ela possuía “As mãos certas para abrir a porta”. Encontrei Helena Osório contando sobre a angústia de alguém que está sempre esperando ouvir o barulho da chave abrindo a porta altas horas, mas precisava de “Cem chaves para abrir o coração”.
Na suavidade da poesia de Egídio Trambaiolli Neto, “A bailarina e o soldado” é uma história de amor de um soldado que morreu carregando consigo a chave da alma de sua bailarina, mas que deixou viva a chave da esperança. De forma análoga, “A chave da esperança” de Isabel Maria Nascimento Rodrigues revela o caminho para encontrar o amor e a chave para abrir o coração. E nos versos de Libânia Madureira, uma dança poética que entre chaves para alento da alma, chave do pórtico e chave-círio, que tudo ilumina, apresenta-nos a “Chave do ser”.
Bem no meio do caminho, esbarrei com uma chave de prata de tons azulados. Era “A chave do cofre de Lia” que abria o coração da menina de tranças e, conforme disse Joaquim Sarmento, prendeu para sempre o coração de alguém apaixonado.  Vi também “As chaves” de Joubert Amaral revelando a efemeridade da vida e a velocidade do tempo representada pelas consequências dos atos provocados pelas chaves perdidas.
De um momento a outro, estava dentro da literatura, no mundo de Fernando Pessoa que escreveu uma “Carta para Ofélia”. Haveria ela de decifrar o código que recebeu juntamente com uma chave. José Carlos Pereira entra na confusão causada pelos heterônimos da história e a chave servirá para que encontrem o próprio caminho. Num piscar de olhos encontrei “O livro mágico” em que Luís Pereira estava perdido. Em uma narrativa de um ritmo acelerado, cheia de personagens estranhos, só ele tinha a chave para terminar aquela história.
“Demorou a chegar” a chave de Maria do Céu Neves, que precisou ser procurada exaustivamente, anunciada em um poema e encontrada no próprio peito. Chave do enigma de uma vida estagnada que precisava apenas de uma ideia para desbravar novos caminhos. Mais adiante, um homem, que depois de carregar por tanto tempo um molho de chaves, fugiu de sua realidade. Maria Isabel de Mendonça Soares não o deixou esquecer seu passado e foi “Aquela chave” levada pelo cão que o fizera voltar para casa, para os braços da esposa.
Em um desses casos de “Vidas desencontradas”, localizei Maria Isabel Loureiro que falava da chave do portão por onde passava lembranças de um passado que não se concretizou. A mesma chave que fechou sua vida levando-a a viver outra realidade, outra história. E como esquecer “A matança do porco cilindro”, em que as chaves serviram para quebrar tradições e ensinar que o poder independe de forças exteriores, como conta Maria João Gonçalves. O poder está dentro de cada um.
Essa caminhada, cada vez mais longa, levou-me até “A auxiliar”, uma história fantasiosa de Maria João Saraiva de Menezes. Uma mulher explorada, levada a loucura e uma chave inútil, desnecessária, que fechava o apartamento, mas deixava-se passar. Compensando os descaminhos, encontrei Pedro Jardim mostrando-me três chaves que revelavam o valor do abraço, do amor próprio e o sentido da vida. Era preciso apenas encontrar “A chave da existência”.
Um pouco mais adiante, a surpresa foi descobrir com Maria Mamede uma chave de ferro que fez parte de muitas brincadeiras e proporcionava risos soltos e muita alegria, tudo registrado na “Carta ao Tonico”.  Também localizei, de maneira singular, “As chaves da paciência abre as portas da glória”. Essa chave, revelada por Paula Teixeira de Queiroz, abre a possibilidade de encantar-nos com as coisas pequenas e esperar por momentos de glória, como um simples desabrochar de uma flor.
Durante minhas andanças, um encontro muito bonito, foi com o “Sonho de um caipira”. Nilce Coutinho nos leva a acompanhar belas ilusões e a luta por uma vida mais digna. Após aspirações e desenganos, a concretização do sonho de uma família: a chave de uma casa, melhores condições de vida. Depois acompanhei Paulo Jorge Almeida quando encontrou uma chave, média, enferrujada e com ela pôs-se a caminho tentando encontrar a porta que ela abriria. A perseverança na caminhada levou-o a descobrir, em um sonho, a liberdade. Quando acordou, descobriu que, na realidade, precisava “Fechar a porta à chave”.
Já cansada da caminhada, alegrei-me ao encontrar “A chave sem relógio”. Uma imensa variedades de chaves e aquela chave especial, a mais pura e genuína, que, segundo Sofia Ribeiro Fernandes, abre o coração e ensina a esquecer a correria do tempo, imposta pelo relógio, e a ser muito feliz. A seguir fiquei mais encantada ainda ao encontrar José Alberto Sá perto de “Uma porta aberta”. Aquela porta não precisava de nenhuma chave material para abri-la: nem chave de ouro, nem de prata, nem de ferro; mas sim, a chave dos sentimentos.
Percebi que minha busca estava chegando ao fim quando encontrei Wilson de Carvalho Costa que já havia experimentado a sensação de várias chaves: chave dos sonhos, chave que aprisiona o coração, e aquela chave de bronze toda trabalhada que o levou a vários lugares procurando alguém. Foi, porém, “A chave do coração” que o ajudou a se libertar e a acreditar no amor e nas coisas incríveis da vida.
Assim cheguei ao fim da minha peregrinação. Pensando em tudo que vi e vivi, percebi que não é preciso ir muito longe à procura de uma chave específica, molho de chaves, sete chaves ou chaves douradas, prateadas. A chave de que mais precisamos estará sempre em nosso poder. É aquela que abre o nosso coração para as coisas simples da vida. Que nos ensina a viver, a ser feliz e a espalhar a paz, o amor, a solidariedade, a fraternidade e a igualdade por todos os lugares, tantos quantos conseguirmos. A verdadeira chave é a que abre a porta da existência e nos ensina que a vida só tem sentido quando é partilhada.
Luisa Garbazza
30 de outubro de 2013

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Sobre brumas e manhãs

Amanhece.
A luz fraca que entra pelas frestas da janela denuncia um dia diferente.
O tempo urge.
As horas não esperam o desejado despertar.
Levanto-me.
Abro a janela e desvendo o mistério:
_ Um dia cinza!
Parece não ter amanhecido completamente.
A bruma reina poderosa.
Confunde-se com o céu e anula o horizonte.
Invade a cidade, as ruas, as casas, os jardins...
Envolve os transeuntes.
Provoca a imaginação.
Amo as manhãs eclipsadas pela bruma.
Observo-a pensativamente.
Ando pela rua e sinto-me envolvida intensamente.
 A bruma fria e úmida invade meu corpo, minha pele, minha alma.
Traz de volta momentos vividos na realidade
ou através das páginas de um bom livro.
Ou ainda, momentos que gostaria que tivessem acontecido.
Sinto-me leve, plena, feliz.
Começo a flutuar, pensar coisas agradáveis, sentir a beleza da vida.
Somos tão frágeis!
A vida é tão efêmera, no entanto deixamos de aproveitar momentos ímpares.
O dia cinza talvez traga à memória os entraves da existência e certo tom de melancolia.
Porém a alegria maior é saber que o sol não nos abandona.
Por maior que seja a névoa que povoa nossas manhãs,
 não conseguirá ofuscar nossos olhos por muito tempo.
Devagar vai se dissipando e alargando os horizontes.
Clareando o dia e a alma.
E estaremos prontos para saltar da cama e começar um novo dia.
Luisa Garbazza
18 de outubro de 2013