No imensurável bulício que se forma em torno da passagem de ano, um dos destaques são as crendices, as simpatias. A entrada de um novo ano é sempre esperada e vivida com muita expectativa, talvez a maior de todas. A crença de que a felicidade e as conquistas vindouras dependem dessa festa, impulsiona as pessoas a buscar uma noite mágica, que deve ser vivida em seus mínimos detalhes, às vezes carregada de exageros.
Tudo isso à espera do mês de janeiro, o primeiro do calendário.
Janeiro, por si só, já traz suas histórias. Esse mês não existia no calendário, que continha apenas dez meses – quatro nomeados homenageando deuses e seis de acordo com a ordem numérica. O imperador Numa Pompílio acrescentou ao calendário mais dois meses – janeiro e fevereiro, também em homenagem a deuses – no século VII a.C. (Posteriormente, dois meses foram renomeados – julho e agosto – em homenagem a Júlio César e César Augusto, imperadores romanos que fizeram as últimas modificações no calendário.)
O nome – janeiro – faz uma homenagem a Jano – um deus genuinamente romano. Jovem maduro, Jano comandou um exército, fez muitas conquistas e construiu uma cidade: Janícula. Por ter acolhido o deus Saturno, que viveu no exílio, foi abençoado e agraciado com o dom da prudência e o poder de ver o passado e o futuro. Por isso, sua figura mostra dois rostos em uma só cabeça, em direções opostas. Uma delas observa o passado; a outra, o futuro. O início e o fim. Presidia tudo o que se abria e tudo que se fechava.
Essa história do deus Jano simboliza muito bem os acontecimentos do final/começo do ano. Tempo de expectativas, de sonhos – concretizados, desfeitos, refeitos – de acerto de contas, de promessas, de tristezas, frustrações e de esperanças. É sempre uma face para o que passou e outra para o que está por vir.
Por mais que nos esforcemos, não conseguimos nos desligar do passado. Principalmente o passado mais recente. O ano que finda ainda reina, poderoso, fazendo questão de nos mostrar os momentos vividos – bons ou maus. Se vivemos intensamente, construindo algo de positivo, o coração fica cheio e a mente em paz. Porém, as lembranças focam, quase sempre, nos momentos não vividos: as promessas sem cumprir, os compromissos adiados, os desejos reprimidos. E muitos porquês povoam nossa mente. Por que não conseguimos realizar os sonhos? Por que não fomos mais perseverantes? Por que fizemos ou deixamos de fazer alguma coisa? Mas... agora não dá mais tempo. Se ficamos à beira da estrada olhando a vida passar, perdemos as oportunidades, saímos de mãos vazias.
Então, agarramo-nos à segunda face. Ao futuro. Aos novos sonhos. Depositamos nossos anseios em um recomeço. Buscamos uma nova carga de pensamentos positivos que nos assegurem a realização de nossos ideais. Começamos a enumerar projetos, sonhos e objetivos para o ano novo. “Ano que vem vai ser diferente. Vou levar a vida mais a sério.” E acreditamos que essa é a verdade absoluta. Vislumbramos um futuro bem próximo e muito feliz. A impressão é de que tudo conspira a nosso favor. É só esperar e viver a vida.
Todavia, com o passar dos dias, percebemos que já não temos tanta convicção de que conseguiremos manter o que nos propusemos. Onde foi parar aquela certeza que nos estimulou a verbalizar nossas aspirações? E, se estivermos desprevenidos, esse confronto com a realidade há de nos deixar vazios e sem esperanças. Não temos, como o deus Jano, o dom de antecipar os futuros acontecimentos. Já não valem as simpatias, as crendices. E agora?
Agora precisamos acreditar mais em nós mesmos. Acreditar que temos um Deus, Pai todo poderoso, que não nos antecipa o futuro, mas está sempre nos acompanhando, amparando e nos impulsionando a seguir pelos caminhos, sempre retos, que Ele vai traçando para nós, e que nós, às vezes, insistimos em entortá-los, desviar deles ou procurar algum atalho.
Assim, para que 2012 seja um ano de realizações e conquistas positivas, peçamos a Deus que aumente nossa fé e nossa esperança. Com Ele temos certeza de que a vida vai seguir pelo rumo certo e conseguiremos a paz tão sonhada.
Feliz ano novo!
(Crônica publicada originalmente no Jornal A Paróquia Nossa Senhora do Bom Despacho.
Janeiro de 2012)
quarta-feira, 18 de janeiro de 2012
domingo, 8 de janeiro de 2012
Seara do Senhor
Depois de assistir o padre Zezinho
cantando a música “O Pacifista” fiquei com esse finalzinho na mente, indo e
vindo.
“Quem não sabe lutar sem rancores
Pra ver seus valores um dia vencer
Tem o medo estampado na cara
E por causa do joio
Destrói a seara.”
Muitas imagens vieram-me à mente.
Nossa sociedade está tão carregada de
joio!
Presenciamos, a todo momento – longe ou
perto – barbaridades de toda espécie, praticadas às vezes sem explicação e que
nos chocam por sua perversidade.
O ser humano se encontra tão perdido!
Nesse mundo globalizado, em que todos buscam velocidade para tudo, o ritmo
normal da vida fica esquecido. Quer tudo ao mesmo tempo e perde muito da beleza
da vida. Quer encontrar a felicidade a qualquer custo e por coisas tão banais
se esvaziam. De vez em quando ouço alguém dizendo: “Que tédio!”
E muito se faz em nome desse tédio, que se
multiplica, se transforma e ganha proporções cada vez maiores. Ignoram-se os
pais, criam-se suas próprias leis, passa por cima de tudo e de todos para
atingir os objetivos, às vezes tão egoístas.
Assim, torna-se fácil esquecer os valores
aprendidos e vividos em família. Já não tem convicção das verdades que
professava. Tem medo de agir, de lutar pelo que acredita, de propagar o amor a
Deus e ao próximo.
Consequentemente, deixam o joio crescer
mesmo sabendo da destruição que ele causará. É mais fácil cruzar os braços e
fingir que não está vendo nada, desde que não seja atingido diretamente.
Por isso é tão importante permanecermos
em Cristo, vivermos com Cristo e por Cristo. Ele precisa de nós e deixa isso
bem claro quando diz: “Ide e fazei
discípulos entre as nações”. E nós necessitamos dele para preencher nossa
vida. Devemos nos entregar a Ele e ajudá-lo no trabalho de evangelização do
mundo. Precisamos responder ao seu chamado: “Eis-me aqui, envia-me”!
Dessa forma teremos força interior para vencer qualquer tédio e lutar por
uma sociedade mais justa, mais solidária, mais fraterna. Só Cristo é capaz de aumentar nossa fé, nossa
esperança e guiar-nos pelas veredas da vida, levando-nos a cultivar a seara do
Senhor com paciência, dedicação e fé.
Luisa Garbazza
Informativo Igreja Viva - Paróquia Nossa Senhora do Rosário
Março de 2013
terça-feira, 3 de janeiro de 2012
Tempo das águas
Uma chuva fria marca o início de 2012. Chove há dias, confirmando a tropicalidade de nosso verão. Ora com mais força, ora mais fina, às vezes quase silenciosa, mas constante, sua presença esvazia as ruas nesta segunda-feira.
Pela janela, as retinas fotografam uma tarde cinza. Como um acanhado riacho, a enxurrada escorre, continuamente, no asfalto, próximo à calçada. No jardim, o chão alagado, as folhas bailando impulsionadas pelo vento brando e as rosas que se curvam pesadas, encharcadas. Olhando para cima, as nuvens recobrem todo o céu. A impressão que se tem é que a chuva vai continuar, talvez “para sempre”.
Esse quadro trouxe-me à memória lembranças de minha infância. O cenário era uma casa tosca à beira de um riacho que, em uma grande extensão, jogava suas águas sobre uma laje bem irregular, cheia de altos e baixos, piscinas e paredões. A água era pouca, ocupava apenas um canto da laje e o espaço maior era transformado em área de lazer onde passávamos bons momentos.
Família grande, casal e dez filhos, vivendo em cinco cômodos pequenos com poucos móveis. A cozinha, estreita e comprida, possuía apenas uns bancos, uma prateleira e um grande fogão à lenha. O terreiro da sala era enorme e enriquecido por uma grandiosa árvore que alegrava nossas primaveras com o ouro de suas flores. Um pé de buganvílias vermelhas se debruçava bem próximo à janela. Aquela singeleza transformava-se no paraíso em minha mente infantil.
Como morávamos próximo a uma mata, era fácil conseguir paus secos para serem queimados no fogão, todavia, durante o período “das águas”, a luta pela sobrevivência era complicada. Minha mãe sempre fazia um estoque de lenha para essa temporada. O fogão era usado para cozinhar a comida, esquentar água para banhos e ainda para secar algumas roupas mais urgentes. Além disso, a cozinha transformava-se em ponto de encontro. Todos queriam se posicionar próximo ao fogão, que servia também de aquecedor.
Porém, quando chovia muitos dias seguidos, era o caos. Era preciso sair debaixo de chuva, ajuntar alguns paus e colocar ao lado do fogão para escorrerem, secarem e aí sim, serem usados para alimentar o fogo. Muitas vezes acontecia de faltar lenha seca. Lembro-me da dificuldade para acender o fogo. A lenha molhada não respondia aos apelos de minha mãe. A fumaça invadia a cozinha. Ficávamos ali, amontoados, respirando aquele ar poluído e torcendo para que o fogo surgisse logo, aquecesse o local e as panelas onde seria preparado nosso alimento.
Imagino como deveria ser difícil, naqueles dias chuvosos, a lida de minha mãe, para conseguir roupas (sempre muito escassas) limpas e secas para doze pessoas. Muitas vezes ela permanecia até tarde da noite colocando roupas para secar ao calor do fogo e assim termos o que vestir no outro dia. E o interessante é que não me lembro de tê-la ouvido maldizer a chuva.
E assim, nessa rotina, seguiam os dias. Às vezes, semanas. Valia até apelar para santa Clara, pedindo a volta do sol. Contudo, era só a chuva dar uma trégua, mesmo por poucos minutos, e os siriris começarem a voar, que a meninada saía, corria pelos pastos, subia nos cupins, pisava nas poças d’água e celebrava a vida ao ar livre.
Volto ao presente e constato que o tempo continua chuvoso, as nuvens ainda carregadas e a noite, que ora se inicia, é completamente cinza. No entanto a vida continua e não podemos viver de nostalgia nem deixar o cinza invadir nossos dias. Celebremos, pois, a vida acima de tudo. Que o frio da estação chuvosa possa ser substituído pelo calor humano, pela vida em família e pela alegria renovada de um novo ano.
domingo, 1 de janeiro de 2012
"Faça novo o teu ano"
"Neste ano-novo, faz-te novo, reduz a ansiedade, cultiva flores no canteiro da alma, rega de ternura teus sentimentos mais profundos, imprime a teus passos o ritmo das tartarugas e a leveza das garças."
(...)
Mira-te em ti mesmo, assume teus talentos, acredita em tua criatividade, abraça com amor tua singularidade. Evita, porém, o olhar narciso. Sê solidário; ao estender aos outros as tuas mãos estarás oxigenando a própria vida. Não sejas refém de teu egoísmo."
(...)
"Guarda um espaço em teu dia-a-dia para conectar-se com o Transcendente. Deixa que Deus acampe em tua subjetividade. Aprenda a fechar os olhos para ver mellhor."
(Trechos da crônica "Faça novo o teu ano", de Frei Betto - Estado de Minas, 3 de janeiro de 2008)
Luisa Garbazza
01/01/2012
(...)
Mira-te em ti mesmo, assume teus talentos, acredita em tua criatividade, abraça com amor tua singularidade. Evita, porém, o olhar narciso. Sê solidário; ao estender aos outros as tuas mãos estarás oxigenando a própria vida. Não sejas refém de teu egoísmo."
(...)
"Guarda um espaço em teu dia-a-dia para conectar-se com o Transcendente. Deixa que Deus acampe em tua subjetividade. Aprenda a fechar os olhos para ver mellhor."
(Trechos da crônica "Faça novo o teu ano", de Frei Betto - Estado de Minas, 3 de janeiro de 2008)
Como seria bom se todos pudéssemos fazer deste ano um momento único na vida.
Se todos plantássemos na alma um canteiro de belas flores que encantariam a própria vida e a de todos com os quais convivêssemos.
Se Narciso fosse apenas um personagem da ficção e entre nós imperasse a solidariedade e a união.
Se Deus fizesse parte efetiva da vida de cada um de nós.
Assim a vida teria mais significado. Todas essas teorias de ano novo teriam mais chances de se concretizarem.
Poderíamos viver apenas com o suficiente para sermos felizes, sem ganância, sem esse desejo desenfreado de acumular bens, mais e mais. Iríamos mais ao encontro do outro.
Aprenderíamos a "fechar os olhos para ver melhor". E, com certeza, veríamos tudo com os olhos da alma, tornando a vida mais simples, mais plena e imensamente mais feliz.
Um ano novo de interiorização e oração, de muito amor e muita fé para você.
Faça deste o ano mais importante de sua vida.
Um abraço e meu desejo de um mundo mais irmão.Luisa Garbazza
01/01/2012
quinta-feira, 22 de dezembro de 2011
Três desejos do Papa
Bento XVI formulou três desejos antes de acender as luzes de uma árvore de Natal.
O Meu primeiro desejo é que o nosso olhar não se detenha somente no horizonte deste mundo, nas coisas materiais, mas que se dirija para Deus.
O segundo desejo é que nos recorde que também nós necessitamos de uma luz que ilumine o caminho da nossa vida e nos infunda esperança, especialmente nas épocas em que sentimos com mais força o peso das dificuldades.
O último desejo é que cada um de nós transmita luz nos ambientes em que vive.
(Bento XVI, 7-12-2011)
Meditando essas palavras de nosso querido papa, muitas são as reflexões...
Como seria bom, Senhor, se esses fossem os desejos da humanidade toda!
Como seria bom, Senhor, se esses fossem os desejos da humanidade toda!
Cada ser humano, criado à imagem e semelhança de Deus, transmitindo luz nos lugares por onde passar. A luz verdadeira, a luz que ilumina os passos das outras pessoas e, consequentemente, de quem a acende.
Seria bom se pudéssemos viver e sentir em todos, o amor como o autêntico sentido do Natal. Constatar que os sentimentos conseguiram dominar os corações deixando os bens materiais em segundo plano. Valorizar sempre mais o ser.
E, melhor ainda, seria perceber que Deus, a luz maior, está acima de qualquer coisa. Que a luz divina consegue iluminar e aquecer o coração de cada pessoa enchendo de esperança o dia a dia de todos os homens de boa vontade.
Aí, sim. O espírito do Natal preencheria nossos lares, nossas empresas, nossas repartições públicas, nossas cidades, nosso país. E reinaria a igualdade, a solidariedade, o amor e uma paz muito grande.
E glória a Deus nas alturas e no meio de nós.
Então?
É Natal.
Feliz Natal, com a presença constante do Menino Deus em sua vida.
Que 2012 seja o melhor ano de sua vida.
Meu abraço.
Luisa Garbazzaquinta-feira, 15 de dezembro de 2011
A magia de um instante
Na rotina do meu domingo sempre consta uma visita ao supermercado. São compras de última hora, mas imprescindíveis para o almoço em família. Nesse último domingo não foi diferente. Por volta das dez horas, paramos – meu marido e eu – no estacionamento do comércio em que faríamos nossas compras. E tudo teria transcorrido seguindo a velha rotina, não fosse uma cena que se formou e se desenvolveu diante de meus olhos.
Defronte ao estacionamento, em um ponto de ônibus, localizado em um terreno abandonado, cheio de mato e entulhos, um senhor aguardava o horário da condução em companhia de uma menina. Estavam sob a sombra de uma frondosa mangueira, abrigando-se dos raios castigantes do sol. A menininha, aparentando uns três anos, parecia cansada de ficar em pé e lançava ao homem – pai? – um olhar de súplica que não passou despercebido aos meus olhos. Nem aos olhos do pai, que mirou aquele corpinho miúdo, com seu vestidinho rosa, um chinelinho minúsculo e o cabelinho amarrado no alto da cabeça. Parecia uma bonequinha distribuindo ternura, tamanha a simplicidade de sua existência.
Sem falar nada, aquele homem, que segurava delicadamente a mão da menina, soltou-a e andou por trás da mangueira, como se procurasse alguma coisa. Seu jeito humilde e seu traje simples se confundiam com o ambiente. Em um dado momento, ele se agachou, levantou uma pedra do chão, voltou para junto da menina e colocou a pedra ao lado dela bem devagar. Passou a mão várias vezes retirando as impurezas de cima da mesma.
Então, suavemente, segurou aquela mãozinha tão pequena e conduziu a garotinha para que ali se sentasse. Não sei o que se passou na mente e no coração dela, mas o que transpareceu foi a sensação de ser a pessoa mais importante do mundo naquele momento. Alisou o vestidinho, colocou as mãozinhas no colo e lançou um olhar tão terno para o pai, como só uma criança é capaz de fazê-lo. O pai devolveu-lhe o olhar e sustentou-o demoradamente, observando aquele rostinho tão alegre, sentindo-se orgulhoso por ter proporcionado um pouco de conforto para a filha.
Senti-me embevecida de ternura com aquela cena. Meus olhos ficaram cheios de lágrimas e meu coração pulsou mais forte dentro do peito. Encantamento por aquele momento mágico, saudade dos meus filhos pequenos, esperança na vida e uma inércia, pelo medo de perder a magia daquele instante.
Entramos no supermercado para fazer nossas compras e quando voltamos os dois já não estavam mais lá. Mas o quadro desenhou-se novamente em minha memória. Fiquei ponderando sobre a naturalidade do acontecido e de como fiquei sensibilizada. Comecei a pensar na complexidade da vida moderna, no emaranhado de coisas que as pessoas criam para agitar o dia a dia. Como as pessoas colocam a felicidade nas coisas materiais. – Ah, vou ficar muito feliz quando der conta de comprar meu som... minha televisão... meu carro... e a lista nunca tem fim. Percebi o quanto damos valor às coisas e nos esquecemos das emoções, dos sentimentos, da palavra amiga, da cumplicidade de um olhar. Como a vida seria diferente se valorizássemos mais a essência do ser humano do que a aparência e as posses de cada um.
Voltei para casa sentindo-me mais sentimental que de costume. Todo o meu dia foi preenchido por aquela imagem que teimava em voltar à minha mente. A delicadeza daquele gesto, eu sinto, vai me acompanhar por um longo tempo. Quem sabe até pela vida toda. Pude perceber como muitas pessoas, que às vezes pensamos serem dignas de dó, são bem mais felizes do que nós e confirmam a frase que sempre é dita, mas, talvez, não sentida como deveria: “A felicidade está nas coisas mais simples da vida”.
Luisa Garbazza
Essa crônica foi publicada originalmente no jornal
"PARÓQUIA N. S. do Bom Despacho"
no mês de dezembro de 2011.
quarta-feira, 30 de novembro de 2011
Um flagrante casual
Custei a identificar aquele pássaro. Vi-o em uma pracinha, ainda deserta, no começo de uma fria manhã de primavera. Era um esbelto joão-de-barro que, em um canteiro recoberto por pequenas folhas de grama, estava à caça de algum alimento.
Os primeiros raios do sol lançavam seus reflexos sobre as gotículas de orvalho que pairavam no gramado colorindo-as com as cores do arco-íris. Alheio a esse singelo espetáculo da natureza o joão-de-barro levantou a cabeça e andou pelo canteiro até subir na pequena mureta que marcava o limite do jardim. Dali pra frente o asfalto toma conta e o domínio é dos veículos, que sempre passam, ruidosamente, em uma velocidade incompatível com o andar de ave tão pequena.
Mas, nesse horário de calmaria, o trânsito é quase inexistente e nosso personagem aproveitou para se aventurar um pouco mais. Lentamente, desceu o degrau do jardim. Pisou calmamente o asfalto. Parou por um instante, hesitou, depois andou na pista asfaltada. Andou? Não. Desfilou, tamanha elegância de seu porte e firmeza dos passos. A cabeça erguida, o bico apontando para o céu e a certeza do que queria.
Parada do outro lado da rua, absorta, assistindo aquela cena tão simples, porém bela, sorri por dentro ao perceber a altivez daquele pássaro. Preocupou-me a possível chegada inesperada de algum carro para atrapalhar o sonho de liberdade do nosso amigo. Porém, o pássaro, sem o menor constrangimento, continuou rumando para o outro lado, sem pressa, sem medo, levantando as pernas esguias para mudar o passo. Comecei a entender o quanto a vida para ele é simples. Vive em busca de comida, aqui e ali, sem se preocupar com fama, com glórias, pompas ou aparência. O importante é viver. É procurar o próprio alimento, voar, cantar, misturar-se com o verde. Fazer da paz sua máxima. Naquele momento, ele nem se dava conta do lugar onde estava. “Um estranho no ninho”, mostrando em seu andar confiante e seguro que já estava acostumado a tal façanha.
De passo em passo, ele continuou sua “travessura” até ganhar outro canteiro da praça.
Atravessei a rua, ainda deserta, sem desviar o olhar do nosso amigo, que também continuava sua jornada ultrapassando o limite e subindo no outro canteiro.
Antes de seguir meu caminho, do outro lado da praça, contemplei uma última vez o pássaro, que agora reinava absoluto procurando alimento em um terreno todo recoberto por gramas verdinhas, que começavam a brotar incentivadas pelas primeiras chuvas, presente da natureza.
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