domingo, 22 de outubro de 2017

No palco do infinito

Tarde quente.
Calor e secura o tempo maltrata, afeta as pessoas.
Subitamente...
uma aragem,
uma brisa fresca,
uma nuvem que sobe.
O vento ajuda:
muitas nuvens deslizam num céu de chumbo.
Da minha janela:
rajadas embalam os galhos da mangueira;
os frutos maduros despencam em queda livre;
os ouvidos assimilam a melodia das folhas,
leves, numerosas,
bailando de cá, de lá,
enroscando-se nos galhos.
Enfeitando o céu, surgem as maritacas,
em bando, barulhentas, atrapalhadas.
Em revoada, enchem o palco do infinito,
voam, fazem acrobacias, vão e vem,
voam baixo, alto, seguem para o lado,
desavisadas, sem defesa,
como que levadas pelo vento.
Então param,
refugiadas entre os galhos.
Nuvens espessas, escuras,
fecham o tempo, anunciam a tempestade.
Inesperadamente...
As maritacas recomeçam o voo,
voltam,
recolhem-se na mangueira.
Depois alçam voos mais altos, mais distantes,
e se calam.
As nuvens se aquietam.
O vento silencia.
O azul começa a se mostrar outra vez.
Foi-se a esperança.

A chuva ainda não chegou.

Luisa Garbazza
22/10/2017

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Hoje é dia!

De repente, acordo com o coração cheio de saudade.
Há algo diferente no ar.
Hoje é dia de alegria, de recordações e de lágrimas felizes que umedecem a face e a alma.
As lembranças me tomam a mente, o coração, o corpo todo...
Era tarde de sábado quando ficou decidido: é hoje.
Em algumas horas, dividi-me em dois seres: tornei-me mãe.
Então comecei a percorrer um caminho tão singular! Comecei, não: começamos! Planejamos juntos, vivemos juntos, caminhamos juntos.
A alegria da vida mostrava o sorriso mais lindo que já se viu.
Havia flores, havia pássaros, havia nuvens coloridas, havia esperança.
Havia palavras, passos, abraços, carinhos, choros e risos.
Havia mãos dadas, confiança, aprendizado.
Havia proximidade, olhares, cumplicidade.
Também havia o tempo...
Esse passou, rápido demais!!!
Foi mudando as coisas e preparando-nos surpresas...
Hoje, ainda há tudo isso.
Todavia há também a distância, a saudade, a dor no coração, a vontade de estar perto.
Há os devaneios da mente que trazem para perto, sentem a presença, abraçam...
Há o desejo de que tudo esteja bem.
Há o carinho, o amor – sempre maior a cada dia –, a prece.
A presença distante impõe uma pontinha de nostalgia, no entanto a certeza dos laços que me enlaçam a outra porção de mim mesma, traz-me serenidade, alegria e gratidão.
Gratidão a Deus por me conceder todos esses momentos. Por me amar e me permitir a graça da maternidade.
A alma se aquieta na certeza de que tudo está bem e que tudo valeu a pena.
Assim o dia vai ser feliz, apesar da ausência, da distância, da saudade imensa que sinto no coração.
Ah! Sim!
O dia há de ser feliz!
Luisa Garbazza

13 de outubro de 2017

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Missionariedade


“Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda criatura.” (Mc 16,15)

     Com essas palavras, Jesus enviou os apóstolos para que anunciassem a boa nova do amor a cada pessoa que encontrassem pelo caminho. E ainda acrescentou: “Eis que estou convosco todos os dias, até o fim do mundo” (Mt 28,20). Pela fé em Jesus e pela crença de que não estavam sozinhos, aumentava, dia a dia, o número dos que criam nele e anunciavam suas palavras, as mesmas que foram ditas a cada cristão, ao longo dos séculos, e que são ditas hoje a todos nós.
     Outubro chega até nós com a força da missionariedade. Somos todos convidados a rezar pelas missões e a assumirmos, também nós, nossa postura de discípulos do amor, da fé, da pertença a Deus. Em setembro de 2017, em uma caravana organizada pelo Padre Antônio, saímos, rumo a Manhumirim, para conhecermos, mais de perto, a história de um missionário muito especial: Padre Júlio Maria De Lombaerde. Chegamos ao berço da Congregação dos Missionários Sacramentinos de Nossa Senhora no sábado, dia 9 de setembro, em plena festa do Centenário do Jubileu do Senhor Bom Jesus de Manhumirim.
     Alojados no Seminário Apostólico, tivemos oportunidade de conhecer um pouco da cidade, visitar a fazenda da congregação, fazer uma parada em Vargem Grande e rezar um pouco na Igreja de Santo Antônio, erguida no local onde Padre Júlio Maria rezou sua última missa, e ainda fazer a caminhada até o lugar onde Padre Júlio Maria perdeu a vida, em um acidente, naquela fatídica noite de Natal. Hoje o local está todo preparado para receber os devotos. A cruz, no alto do morro, nos lembra de que, em nossa caminhada de fé, tudo o que fazemos e somos é por causa de Cristo que o fazemos.
     Manhumirim se transforma durante a festa do Senhor Bom Jesus. A cidade inteira respira religiosidade. No Santuário do Senhor Bom Jesus, missa de duas em duas horas. À noite, missa solene, na praça em frente ao seminário, devidamente preparada para receber os fiéis, que enchem a praça para louvar, rezar e engrandecer o nome de Jesus e do Servo de Deus Padre Júlio Maria. Participamos todos da missa na noite do dia 9 de setembro. Foram momentos de muita fé e de muitas graças, vividos com emoção e alegria.
     Na manhã do dia 10, fomos conhecer um pouco mais da história desse grande missionário. No suntuoso santuário, construído pelo próprio Padre Júlio, o local onde estão seus restos mortais. No interior do seminário, o museu, ainda em fase de organização, que guarda as marcas de uma história marcada pela fé, pela alegria em servir, pela entrega total às coisas de Deus, pela vida de sacrifício e amor ao próximo.
     Padre Júlio Maria, sacerdote belga, vindo de tão longe, nos deixou um grande exemplo de como ser um autêntico discípulo do Mestre Jesus. Cada pedacinho de sua história que conhecemos leva-nos a crer o quão merecedor ele é de ser beatificado e proclamado santo. Ainda temos muito a aprender desse homem que acreditou ser possível uma vida mais humana, em que todos tivessem a oportunidade de estudar e conviver de forma mais harmônica. Ele doou todo o seu tempo em prol dos mais necessitados, formando pessoas, acudindo os que o procuravam.
     Hoje somos convidados a sermos, também nós, missionários do reino de Deus. Sabemos que não precisamos ir muito longe para anunciar o nome de Jesus. Podemos cumprir a missão que Jesus destinou a cada um de nós, onde quer que estejamos. Como nos diz o Papa Francisco, “Cada cristão é missionário na medida em que testemunha o amor de Deus. Sede missionários da ternura de Deus!” 

Luisa Garbazza
Publicação do Jornal Paróquia Nossa Senhora do Bom Despacho
Outubro de 2017

sábado, 7 de outubro de 2017

Vida em missão


Outubro é tempo especial no calendário da Igreja Católica: é o mês dedicado às missões. Somos chamados a rezar por aqueles que, atendendo a um pedido de Jesus, deixaram tudo mais e se puseram a caminho para se dedicar aos fracos e desamparados. “Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda criatura.” (Mc 16,15)
É dever nosso rezar pelas causas da Igreja. Lembro-me de que, no meu tempo de criança, minha mãe sempre reunia a família para rezar.  Mas, em alguns meses, ela o fazia com mais intensidade, com a reza do terço todos os dias: maio, louvando Maria e pedindo sua intercessão para as mazelas da vida; agosto, pelas vocações; e outubro, pedindo pelas missões. Saciando nossa curiosidade, mamãe nos contava exemplos de missionários que serviam a Deus e aos irmãos em terras distantes. Entre eles uma prima, Irmã Marlene, que estava em missão na África.
Tantos são os exemplos de homens e mulheres que se doam por uma causa maior! Aqui, tivemos a alegria de receber entre nós um autentico missionário, comprometido com as coisas de Deus: Padre Cristiano. Chegou causando admiração por causa de sua pouca idade. Aos poucos, porém, ele mostrou que estava preparado para levar adiante essa paróquia. Por quase sete anos, tivemos o privilégio de conviver com esse sacerdote que tanto acrescentou na vida de todos nós. Padre Cristiano está sempre presente: fala, pede, trabalha, acolhe, brinca. Em seu peculiar entusiasmo e com sua voz que nos acorda o ânimo, evangeliza, acaricia-nos a alma, mostra caminhos, faz-nos pensar. Em sua humildade, ele se agiganta. Com seu jeito simples, deixa-nos vislumbrar o quão rico se torna quando precisa ajudar alguém. Não escolhe pessoas, atende a todos com dedicação e alegria. Solidário, está sempre disponível para amainar a dor, serenar a alma e partilhar a alegria das pessoas. Sua presença tornou-se necessária para tanta gente!  É grande a lista dos que compõem esse coro: “Obrigados, Padre Cristiano!” É imprescindível mostrar-se agradecido nesse momento em que ele está indo para outras terras. Gratidão também ao Padre Roberto que, em 2017, esteve em missão em nossa paróquia.
Também somos chamados a participar da vida do irmão. Hoje sabemos que missionário não é só aquele que se desloca para evangelizar em outras terras. Cada um de nós é chamado a ser missionário no seu lugar: no trabalho, na paróquia, na comunidade, na rua e na própria casa. Jesus nos convida a plantar sementes de amor, de verdade, de justiça e fraternidade em todos os jardins a que tivermos acesso. Também em nosso jardim interior. Se formos os primeiros a cultivar a plantinha do amor e deixá-la florescer, outros nos seguirão.
Peçamos ao Espírito Santo o dom da sabedoria, para escolhermos as sementes certas e encontrarmos a melhor maneira de semeá-la no coração das pessoas. Peçamos também o dom da paciência, para não desanimarmos se a planta estiver demorando a florir. Assim podemos dizer que somos, também nós, missionários a serviço do Reino de Deus. Assim saberemos que fizemos nossa parte na seara do Senhor, mesmo que não tenha dado tempo de colhermos os frutos.
Luisa Garbazza

Publicação do Informativo Igreja Viva
Homenagem ao Padre Cristiano por seu carisma e seu entusiasmo com o sacerdócio.

sábado, 30 de setembro de 2017

Nova manhã


O sol – insistente – castiga, instiga, fustiga.
Em seu monopólio, seca e resseca a terra:
água evapora; plantas sofrem, lutam,  fenecem.
Pesado torna-se o ar;
difícil torna-se a vida.
Toda a criação padece.

Mas o dia hoje veio diferente:
trouxe a alegria, as nuvens, a chuva, a vida.
Manhã de chuva, depois da seca, é presente.
Esquece-se o passado árido, deseja-se o futuro farto.
A chuvinha persiste: macia, serena, fria.
Sair de casa é sentir o dia, respirar fundo a pureza do ar.
Andar pela cidade molhada e viver as mudanças:
        ver ruas e praças cheias de sombrinhas – alegres, coloridas, necessárias;
        acompanhar o corre-corre dos desprevenidos, aqui e ali, fugindo dos pingos;
deixar o barulho da chuva, na sombrinha, embalar os passos;
        seguir a água que escorre barulhenta das calhas e corre silenciosa pelos passeios;
        reparar a enxurrada que vai lavando a cidade e escorre – suja, escura, poluída – nos cantos da rua.
sentir, sem alarde, o borrifar da água nos sapatos, a umidade na roupa, o frio nos pés;
sorrir para as plantas, que exibem, agradecidas, o verde brilhante e as cores mais vivas.

Foi preciso sair de casa, aproveitar a manhã e sentir na pele os reflexos da água que vem do céu – limpa, pura, gratuita – trazendo vida nova.  
Foi preciso chegar a casa com o corpo umedecido e os pés encharcados.
A alma, porém, se alegra, canta, festeja:
é alegria pura, é renovo de vida, é graça de Deus;
é chuva.
Luisa Garbazza

30 de setembro de 2017

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Despedidas

“Vai-se a primeira pomba despertada...”
Assim dizia o poeta; assim na vida.
Assim os alunos que aqui vêm preencher minhas horas: chegam, ficam, vão e voltam, partem.
Alguns me envolvem, criam laços, cativam-me.
A amizade brota: leve, suave, terna.
Começam a fazer parte da minha vida.
Os anos passam e ali estão eles: presença cativa na cadeira de minha sala.
Mas a vida – incerta, passageira, cheia de surpresas – não para nunca.
É preciso caminhar, subir degraus, alçar voos, ganhar novos ares.
E lá vão eles, um a um, como as pombas do poeta.
Hora de soltar as amarras e deixá-los ir. Hora de despedidas.
Cada um que parte, deixa um pouco de si e leva um pouco de mim.
Paradoxalmente, os sentimentos se misturam: um misto de alegria e vazio, orgulho e tristeza.
É gratificante vê-los crescer. Difícil, porém, é a separação...
***
Ontem foi dia de despedida, de abraço, de aperto no coração.
Foi-se mais uma “pomba despertada”: companhia de muitos anos.
Chegou de mansinho e aqui fez morada. Alojou-se em meu coração.
Com jeito simples, convivência terna, sorriso fácil, já fazia parte da família.
Então veio a vida dizendo que a hora havia chegado.
E assim se fez.
Ontem foi dia de adeus, de abraço, de lágrimas.
Outro ciclo se abre: novos rumos, novas conquistas, novos voos.
“Mas se tu me cativas, minha vida será como que cheia de sol.”
E o sol que aqui deixou é suficiente para manter acesa a chama da amizade conquistada.

Luisa Garbazza
29 de setembro de 2017


Para meus alunos!
Em especial, para minha aluna Lívia Costa.
Obrigada, Lívia, pelo carinho e por sua presença em todos esses anos.

Sucesso!

sábado, 16 de setembro de 2017

Tai Chi Chuan: a poesia do corpo


O lugar calmo, o silêncio – que vem de dentro – a música suave.
A quietude do espírito, a postura do corpo, a paz na alma.
A mente se aquieta e acompanha, harmoniosamente, os movimentos do corpo.
Os joelhos se dobram e os braços se levantam, suavemente, em delicados ritmos.
As pernas se movem:
dobram-se, alongam-se, sobem e descem;
seguem, recuam, giram, em um bonito bailado.
Os braços se agitam: cadência suave e forte ao mesmo tempo.
Como se possuíssem vida própria,
abrem-se, fecham-se, expandem-se,
projetam-se em todos os espaços;
avançam em direções diversas, protegem o rosto,
distendem-se, abraçam o corpo.
O corpo responde:
abaixa, levanta, inclina-se para lá e para cá;
solta-se, embrenha-se nesse labirinto de giros e passos.
e deixa ser guiado pelo instante.
É assim o Tai Chi Chuan.
É a poesia do corpo.
É a alma que fala através dos movimentos.
É a expressão do eu profundo que existe em nós.
Belos são os movimentos do Tai Chi Chuan:
compasso harmônico, gestos lentos e precisos, embalos e ritmos.
Em algum momento,
já não é a música suave que embala os movimentos;
é a melodia que vem do espírito, envolve corpo e mente,
inunda os sentidos e guia os passos.
São versos que brotam, com leveza e suavidade,
nas rimas da vida.
A alma torna-se leve; o corpo flutua
– como se buscasse o alto –
com graça e liberdade.  
Isso se consegue aos poucos, um passo a cada dia,
sem pressa ou atropelos.
Cada gesto aprendido, uma conquista;
cada dificuldade vencida, um pouco mais de confiança.
Um dia, quando menos se espera, a vitória:
os movimentos são vividos com mais segurança.
A mente se solta, o corpo responde e a mágica acontece:
na profundeza do ser,
o corpo é parte indivisível do universo.
Encontra-se, então, a calmaria, a alegria,

a paz e a completude.
Luisa Garbazza
16 de setembro de 2017