domingo, 23 de março de 2014

Despedida de Dom Félix





Dom Félix
Tenha certeza de que cada um de nós, dessa grande comunidade aqui presente, temos no coração muitas lembranças suas para compartilhar e uma palavra amiga que gostaríamos de dizer-lhe. Ao mesmo tempo, tenha certeza de que palavras, quaisquer que sejam, são insuficientes neste momento de despedida.
Limitamos, então, a dirigir-lhe uma palavra de gratidão pelo trabalho doado em prol de nossa diocese. Gratidão por esses 11 anos de dedicação, de ensinamentos e de sementes plantadas.
Obrigada, Dom Félix, por ter se aproximado de nós com esse jeito manso e olhar terno, mas, ao mesmo tempo, com voz firme, fala coerente e espírito decidido. Por nos fazer perceber que o Reino de Deus está também aqui, na Diocese de Luz e na cidade de Bom Despacho.
Obrigada por nos persuadir, através de seu exemplo de pastor dedicado e incansável, da necessidade de prosseguirmos a caminhada com fé em Deus, olhar de esperança e comunhão fraterna. E nos conscientizar de que, seja qual for o trabalho prestado na comunidade, ninguém deve vangloriar-se ou enaltecer-se, pois, somos todos irmãos, filhos de Deus, portanto, estamos em igualdade de condições.
Admiráveis são os pés do mensageiro que anuncia o Evangelho e deixa a marca de seus passos por onde passa. O senhor vai para outras terras, mas pode ter certeza, Dom Félix, que os seus passos ficarão marcados, para sempre, em nossa história e em nossos corações.
Receba nosso carinho, nossa gratidão sincera e nosso abraço.
Luisa Garbazza


Mensagem final, em nome da comunidade, 
para a Missa de despedida de Dom Félix.
Igreja Matriz de Nossa Senhora do Bom Despacho.
Domingo, 23 de março, 2014
10h30


sexta-feira, 21 de março de 2014

Depois da chuva














Fim de verão.
Sol.
Tempo seco,
calor absoluto,
terra ressequida.
Noite.
A natureza comemora o primeiro dia de outono.
No momento do brinde,
mansa e fria,
cai a chuva,
saúda a nova estação.
Depois da chuva,
terra molhada,
novos ares.
A manhã nos recebe – toda sorrisos.
No lado leste,
o sol, recém despertado,
procura espaço entre as nuvens – escuras e teimosas –  que adornam o céu.
No oeste,
um resto de lua,
resignada,
branca e fria,
paira no espaço azul,
disputa, com esparsas e brancas nuvens,
o melhor lugar.
Contrastes sublimes na amplitude do céu.
 A manhã clara e amena convida-nos a respirar profundamente...
e a embriagar-nos com seu ar puro e restaurado.
É a natureza mudando de fase, renovando-se.
É a mão de Deus que nos toca, nos reconstrói, nos sensibiliza.
São os olhos da alma em sintonia com o universo.
É você.
Sou eu.
Luisa Garbazza
21 de março de 2014

domingo, 16 de março de 2014

Peso da solidão



A ausência dos filhos gera uma sensação de solidão, de desamparo que não me abandona. Impossível viver qualquer minuto do dia sem trazê-los à memória. Presença constante. Cada detalhe uma lembrança. “Ah! Depois você se acostuma.” Engano total. No meu casão não funciona. O tempo vai ficando para trás e a face dos filhos aparece em cada canto da casa. Vejo-os chegando, andando pela casa ou espalhados pelo chão assistindo a um bom filme. Risos, falas altas, gargalhadas. E, a todo o momento: “Mãe!” Domingo estão, quando estávamos  juntos o dia todo, desassossego em dobro.
Nesse domingo, a solidão foi mais pesada. Filhos fora, esposo viajando. Que eu me lembre, nunca havia passado um domingo sozinha. Como havia algumas tarefas inadiáveis, não pude pedir asilo onde tivesse companhia. Fiquei completamente só. O coração cresceu e apertou o peito.
O horário do almoço foi sombrio. Olhei pelos lados, nos armários. Nada servia. Carne pronta na geladeira. Nem cheguei a abrir a porta. Precisava comer algo. Preparei uma omelete e sentei à mesa. A primeira porção cresceu na boca. O estômago reclamou. A garganta se fechou. As lágrimas pediram espaço. Uma figura amada apareceu bem à frente. Os ouvidos ouviram longe, outros tempos, os meninos disputando para ver qual ia se sentar próximo a mim. A cachorrinha apareceu devolvendo-me a lucidez. Um pouco mais de esforço e alguns pedaços foram consumidos.
O tempo livre foi ainda mais denso. A televisão não me prendeu. O pensamento não quis acompanhar a leitura de um livro. – Bem que tentei. – Nada nas redes sociais. Resolvi, então, traduzir em palavras aquilo que o coração teimava em me dizer.
Ficar a sós alguns momentos é bom para refletir, tomar decisões, colocar a cabeça no lugar. Mas sentir-se só é muito triste. O ser humano não foi criado para a solidão. Como deve ser triste a vida de quem fica o dia todo sem falar com ninguém. Sem ter alguém que lhe escute os gritos da alma. O dia passa, a noite vem, logo rompe a aurora e nada foi dito, nem ouvido, nem dividido.
Penso na realidade e constato que, por necessidade ou capricho do destino, há muita gente vivendo só. Sei também que muitos escolhem viver assim. E penso que um dia, quem sabe, possa ser eu a viver nessas circunstâncias. Mas não será por livre escolha, isso eu tenho certeza. Gosto de sentir a presença do outro. Ter alguém com quem conversar, dividir as alegrias e tristezas, as certezas e as dúvidas. Sair de casa e saber que tem alguém esperando  minha volta. Ou, ao contrário, esperar a hora do almoço ou o final da tarde e saber que tem alguém para chegar.
A tarde começa a se despedir. As primeiras sombras caem sobre a terra. Entre lembranças, saudades e apertos no coração, alegro-me ao saber que, em breve, alguém vai chegar e preencher pelo menos um pouco dos meus espaços vazios.
Luisa Garbazza
16 de março de 2014

quinta-feira, 13 de março de 2014

A dor do outro



               Desde que não houve mais espaço para o homem no paraíso, em razão do pecado, a história do povo de Deus é permeada de dor e sofrimento. Por causa do egoísmo, da inveja e da ambição desmedida, a desigualdade social cresce cada vez mais e provoca situações desagradáveis e conflitantes.
            Foram muitas as situações de conflitos pelas quais passaram nossos ancestrais: a morte de Abel, bem no início da história; a tirania dos reis e dos faraós; a escravidão no Egito; o sofrimento de José, vendido por seus próprios irmãos; a morte de tantos mártires e inocentes em toda a história da humanidade.
            Deus mandou seu filho à Terra para redimir a humanidade. Mas também ele foi humilhado, blasfemado e crucificado. Poucos se importaram com as barbaridades que sofreu, ou se compadeceram com suas dores.
            Ainda hoje, o povo sofre as consequências da crueldade e ambição do grupo dominante, que causam tanta dor, opressão, preconceito.
            Até mesmo entre pessoas que convivem mais de perto, em uma cidade pequena, por exemplo, não há a devida preocupação uns com os outros. A modernidade e a era tecnológica estimulam uma vida isolada e a busca pelo prazer acima de tudo. Cada um luta por maior conforto, mais espaço, mais comodidade e se esquece de que há muitos que sofrem, passam necessidades, vivem sós. Quando estão bem ou festejam, tornam-se - às vezes até inconscientemente - egoístas. A dor do outro fica esquecida.
            São muitas as situações de sentimentos contrastantes com as quais nos deparamos no dia a dia. Há festas com música altíssima em bares, casas de shows ou mesmo residências, enquanto alguém não consegue dormir, outro agoniza, um sofre com uma doença qualquer. A festa continua. Ninguém toma consciência da dor do outro.  Vamos a um velório e encontramos um pequeno grupo rezando ou consolando os familiares. A maioria está ali cumprindo o seu papel social. Por vezes, apenas uma pessoa sofre ao lado do parente amado do qual se despede. A dor é sua. Mesmo que a sala esteja cheia, ninguém sente - ou compreende - tamanho sofrimento.
            Até mesmo na Igreja, durante a Celebração Litúrgica, percebemos essa separação. Uma família está ali para celebrar, em ação de graças, os quinze anos da filha; outra, os noventa anos da avó; outra, ainda, celebrando as bodas dos pais. Enquanto isso, uma família que se encontra despedaçada, sentindo uma dor muito grande, foi rezar pelo sétimo dia de falecimento de um parente querido. As famílias não se misturam. Cada uma em seu canto. Uns fazem pose para fotos, outros se encolhem por não aguentar tamanha dor nos ombros. E choram. Depois da celebração, quem se compadece do sofrimento alheio? Poucos. Alguma alma generosa que percebe a necessidade de se aproximar e dirigir ao irmão uma palavra de conforto e de fé.
            No curso natural da vida a cena se repete. Enquanto uma família está felicíssima pelo nascimento do filho tão esperado, outra - às vezes bem perto - chora a morte do pai, da mãe ou de outro membro da família. Enquanto um casal festeja e conta para todos o bom desempenho do filho, ou da filha, no vestibular, no curso que tanto sonhou, outro casal chora ao ver o filho todo machucado, em cima de uma cama, - ou ainda sem vida - vítima de um acidente de trânsito ou de violências diversas.
            É certo que os fatos da vida vão continuar assim, nesses contrastes inevitáveis. Não há como ser diferente. Mas há, sim, como ser diferente, a maneira como lidamos com isso. Apesar de não podermos evitar a dor do nosso semelhante, podemos demonstrar nossa solidariedade e compaixão por ele nos momentos de escuridão. Quem sabe podemos, também, ser mais comedidos em nossas manifestações de euforia ao perceber que alguém está sofrendo ao nosso lado? Não há nada mais degradante do que sofrer sozinho. Estar no limite da dor e ver festejos e risos ao nosso lado.
            Como bons cristãos, aprendamos com Jesus a nos compadecer do outro. A ajudá-lo como o bom samaritano. Fazer com que ele se sinta amparado. Às vezes basta um abraço para devolvermos a dignidade a alguém que passou por uma ocasião de agonia e não sabe como sair do marasmo e da tristeza que domina sua alma. Se Jesus nos dá forças para suportarmos nossa própria dor, podemos aproveitar essa graça para fortalecer o irmão que sofre ao nosso lado e mostrar-lhe que ainda há muita coisa para ser feita em nome de Deus e que todos devemos dar a nossa contribuição. Assim, com a dor repartida, o sofrimento será menor. Com a graça de Deus. 
Luisa Garbazza

              Com essa crônica, deixo meu agradecimento, minha homenagem e meu reconhecimento ao amigo, Laender, pessoa ímpar e íntegra, que nos precedeu na partida para a casa do Pai.
    Deixo, também, meu abraço e minha solidariedade sincera à amiga Aninha, cuja dor imensurável não passou despercebida. Foi compartilhada por muitos que, como eu, a admiram e a querem bem.
Aninha, Deus lhe conceda a força necessária para você continuar, com dignidade, apesar das dores da alma, sua missão de mãe, de cristã, de profissional, de amiga...
Receba o nosso carinho e conte sempre com nossa amizade.
Luisa Garbazza

Publicação no Jornal  "Paróquia Nossa Senhora do Bom Despacho"
Março de 2014 

terça-feira, 11 de março de 2014

Páginas em branco



No início da tarde desta terça-feira quente de final de verão, andando pelo centro da cidade, encantei-me com uma cena inebriante: uma menina sentada no cantinho do beiral da porta de uma loja. Loirinha, cabelos cacheados, pernas curtas, espalhadas pelo passeio. No colo, pesavam-lhe vários cadernos. No olhar, um misto de ansiedade e indiferença. Ansiedade pela espera de alguém; indiferença, pois não se importava com o grande movimento, próprio do horário de início das aulas. Os braços, cruzados por cima dos cadernos, ocultavam o uniforme. Não consegui identificá-lo. Pela aparência, devia ter uns seis anos. Não resisti ao desejo de parar por alguns minutos e observar aquela criaturinha. Sorri sozinha, reparando a inocência ali contida, sem me importar com os olhares curiosos dos passantes. Em minha mente, surgiu outra menina, com sete anos de idade, em situação extremamente idêntica.
Era o meu primeiro dia de aula. Morava longe da cidade, por isso quase não a conhecia. Minha mãe foi me levar até à escola, que ficava em plena Praça da Matriz. Não tinha nenhum material escolar. Então, ela deixou-me perto da escola, sentada no beiral da porta de uma loja – exatamente igual à cena por mim presenciada neste dia – e disse-me que iria à “Gráfica Piraquara”, a única papelaria da época, para comprar-me um caderno. Minha mente tão jovem e ingênua estimou uma distância tão grande que fiquei com medo de perder o horário de entrada. Fiquei sentada ali, completamente imóvel, observando o fluxo de crianças e pais, na gostosa correria de início de ano escolar. Gritos se misturavam com choros e conversas num vai e vem interminável. Tudo para mim era novidade. Estava muito ansiosa para entrar para a escola e entender esse universo tão esperado.
Não tardou muito e minha mãe retornou trazendo-me um caderno – sem pauta – um lápis preto e uma borracha. Era só o que cabia em seu orçamento. Meus olhos se iluminaram. Pela primeira vez eu tinha um caderno só meu. As páginas em branco multiplicaram-se em sonhos e anseio de saber. Abri uma sacolinha de plástico transparente, que havia pedido na loja, e coloquei cuidadosamente o material.
O toque da sineta anunciou o momento da entrada. Segui, levada por aquelas mãos firmes e amigas, até o portão da escola. Soltei-me devagar e dei os primeiros passos naquele novo universo. 
Luisa Garbazza
11 de março de 2014