quinta-feira, 6 de março de 2014

Tardes cinza



Tardes  cinza mexem comigo.

Essa coloração monótona que envolve o céu e esconde a vivacidade do azul...

não invade apenas o céu,

invade o horizonte, a terra ...  a alma.

Ainda bem que existe a chuva que lava, transforma, faz reviver.

Em dias assim, prefiro a janela da varanda, onde a chuva não chega.

Chuva mansa, benfazeja, amiga.

Cai leve, sem se assustar com o barulho dos trovões.

A água colhida pelas telhas cai ritmada, num contínuo pingue-pingue.

Na grade, vai se aglomerando em pequenas gotas enfileiradas, brilhantes, transparentes.

Gotas equilibristas pairam nas pontinhas das folhas.

A grama verde agradece o alento que vem do céu.

O vento brando toca com suavidade as folhas do coqueiro.
No balanço das folhas, gotas se espalham.

O tempo voa.

A tarde se escoa.

O cinza continua...
até que as luzes ocupem as sombras da noite. 
Luisa Garbazza
Tarde chuvosa do dia 6 de março de 2014

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Presença divina

            Às vezes, nesse vai e vem ininterrupto do mundo atual, ficamos tão acostumados com o barulho excessivo que assustamos quando impera o silêncio. Há os que nem conseguem ficar sozinhos. O silêncio incomoda. Vão logo ligando rádio, televisão, computador. Mas precisamos tanto de momentos de calmaria! Dar vazão aos sentimentos mais profundos, ouvir a consciência, deixar que o coração se manifeste.
            Em muitas ocasiões, fica difícil encontrar tempo e lugar para esse "desligar-se do mundo". O nosso dia a dia é interligado com o de outras pessoas, cada uma com horários, necessidades e preferências distintas. Se eu desejo silêncio, o outro quer ouvir uma música em um volume bem alto; se anseio aquietar-me, alguém quer sair pelas ruas exibindo o motor possante de uma máquina qualquer; enquanto uns querem curtir sua tristeza, alguns soltam fogos de artifícios para exteriorizar sua euforia; para manter a modernidade, máquinas são ligadas em fábricas e residências. Além disso, há a algazarra natural das crianças e dos adolescentes. E ainda, os ruídos internos que muitas vezes nos atormentam: problemas para resolver, - outros sem solução - lamentos, dores da alma. As horas vão se sucedendo, não conseguimos vislumbrar um horizonte mais tranquilo e não nos permitimos - ou não nos permitem - um momento só nosso, sem interferências.
            Recentemente, tive a oportunidade de uma experiência fantástica nesse sentido. Em busca de uma maior sintonia com a natureza, fomos, em família, visitar a Gruta do Maquiné. Descemos sem pressa, ouvindo o guia, que explicava tudo com detalhes impressionantes e nos orientava o caminho. Andamos por seiscentos metros, numa descida de dezoito metros de profundidade. Maravilhosas formações - imagens colossais nas paredes da gruta -  despertavam a imaginação e nos faziam sentir tão pequeninos!
            Contudo, o que mais impressionou, foi o final da descida, na última sala, de mais ou menos cento e quarenta metros. Como não há outra saída, ficamos completamente isolados do mundo.  Naquele momento, o guia nos convidou para uma pequena experiência. Pequena, mas que mexeu com as estruturas de muitos que ali estavam. Pediu que, por alguns momentos, fechássemos os olhos e ficássemos todos bem quietos e sem falar. Um estrondoso silêncio envolveu aquele lugar. Nada se ouvia. Nem um ínfimo movimento - de algum inseto, talvez - ou o farfalhar de alguma folha, nada.
            Os ouvidos, desacostumados com o silêncio, estranharam no início. Depois foram assimilando a realidade. De repente, era a alma que estava sendo despertada. Impossível não sentir, naquele instante, uma forte presença divina. Ali, naquele vazio absoluto, naquela ausência total de sons, Deus estava presente. Nenhuma outra explicação, para os sentimentos que de mim se apoderaram, iria me convencer.
            Lamentei quando o guia nos trouxe de volta à realidade. Desejei ter um tempo maior para continuar suspensa, buscar Deus cada vez mais no meu interior, prolongar a paz que rapidamente me encontrou. Lembrei-me do tempo de Jesus e das muitas vezes em que Ele se afastou da multidão para procurar o silêncio, entrar em sintonia com o Pai e rezar. No entanto, a realidade se impôs na fala das pessoas, no som dos passos e nas luzes das câmeras. Começamos a subida e Deus se impunha, todo poderoso, em tudo naquela gruta e no meu coração.
            De volta à superfície, fiquei refletindo sobre a dificuldade que temos hoje para nos silenciar - tão diferente do tempo de Jesus, quando não havia tantas modernidades. Ao mesmo tempo, sei que isso é essencial para nossa vida de fé. É nesses momentos de interiorização que sentimos a presença de Deus, ouvimos seus apelos e encontramos coragem para nos colocar a serviço.
Luisa Garbazza
Janeiro de 2014
Publicado originalmente no jornal "Paróquia"
Paróquia Nossa Senhora do Bom Despacho

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

“Ano da Graça” na Diocese de Luz



           O Ano da Graça sempre fez parte da história do povo de Deus. Em cada tempo com um objetivo e uma proporção distinta, porém com um ponto em comum: "Em tudo dar graças a Deus".
            A ação de graças deve ser uma conduta permanente de todos nós, cristãos. É ela que alimenta e fortalece nossa esperança diante das adversidades da vida. Através dela, tomamos consciência de que o fruto de tudo o que fazemos é obra o Espírito Santo que age em nós.
            Com início no primeiro domingo do Advento de 2013, nosso bispo diocesano, Dom Félix, convoca a todos nós, dessa Igreja Particular de Luz, para o "Ano da Graça". O propósito é que seja um tempo oportuno para a fraternidade, tanto familiar quanto na Igreja e na sociedade. Tempo para que possamos refletir sobre a caminhada pastoral na diocese e na paróquia e perceber a misericórdia de Deus em tudo que foi construído.
            Será, também, ocasião de reunir todos os fiéis leigos que participam de pastorais para encontros de formação, retiros espirituais e momentos de oração, principalmente nas comunidades, para fortalecimento na fé e na graça de Deus. É importante procurar os que não participam ou estão afastados: levar a Igreja aos que não vêm a ela.
            Vamos aproveitar este ano, para rever o que foi proposto nas três Assembleias Diocesanas de Pastoral e o que foi feito a partir delas.
            A primeira, em 2000, com o lema: "Queremos ser uma Igreja mais humana e participativa.", levou-nos a refletir que "Sozinho e isolado, ninguém é capaz".
            A segunda, em 2004, reforçou nossa missão de evangelizadores  e refletiu sobre o lema "Queremos ser uma Igreja que forma o povo de Deus, renova a Comunidade e transforma a Sociedade".
            Com o lema: "Somos Igreja, Comunidades de Discípulos em Missão", a  terceira assembleia, em 2009, veio despertar os fiéis para a missão, unindo as comunidades.
            Agora, o importante é percebermos de que a Igreja somos nós. E a Igreja precisa de nós. Todos. Cada um com seu dom, no entanto, com igualdade de valor. Não importa o serviço prestado. Tem mais valor aquele que é feito de graça, com alegria no coração, respeito pelo próximo e a consciência de que tudo deve ser feito em nome de Deus.
            Durante o Advento, ouvimos a voz do profeta Isaías convidando-nos a deixarmo-nos guiar pela luz do Senhor que se aproxima. Ouvimos, também, a voz de Jesus dizendo para ficarmos atentos, pois não sabemos em que dia o Senhor virá. E hoje somos convidados, de forma especial, a vivermos durante um ano, um tempo forte de encontro e partilha. Tempo para celebrar e confraternizar. Tempo de parada para reflexão, para repensarmos nossa caminhada de fé na família, na comunidade, na Igreja e na sociedade.
            O Ano da Graça deve ser vivenciado por todos nós, pois somos todos responsáveis pelo crescimento da ação pastoral da Igreja. Para isso, aprendamos com São Paulo, em sua primeira carta aos Tessalonicenses, em que nos ensina que nossas comunidades devem ser alicerçadas na fé e estar sempre preparadas para os desafios, sendo vigilantes, tendo apreço pelas lideranças locais, sendo sempre alegres, rezando e dando ação de graças a Deus em tudo. A ação de graças nos desperta para acolher o mistério da presença de Deus em nossa vida. Ela nos alimenta e fortalece a nossa esperança.
            Aceitemos esse convite. Assim poderemos formar, juntos, a "Igreja Viva, que caminha para o Reino do Senhor."

Luisa Garbazza
Fevereiro de 2014

Publicação do Informativo Igreja Viva - Paróquia Nossa Senhora do Rosário

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

A Deus, os melhores momentos de nossa vida

       Todo início de janeiro tem esse misto de nostalgia pelo ano que finda e esperança de um ano melhor. Com os olhos no futuro, ainda lembramos os acontecimentos do final de dezembro.
            Fim de ano é tempo de sonhos e magia. Mesmo com os contratempos e diferenças, as pessoas se aproximam, numa mesma corrente de solidariedade, com um desejo comum: desejar uns aos outros - E a si mesmo, por que não? - um "Feliz Natal e um Próspero Ano Novo".
            Tudo nessa época gira em torno desse propósito, a começar pela Igreja que, seguindo os passos de João Batista, prepara os caminhos para a chegada do Salvador.
            Depois do Natal, o foco é a virada do ano, as simpatias, promessas em prol de dias melhores, mais prósperos e felizes. Aqui, Deus fica esquecido pela maioria. A ênfase é para as regras ditadas pela mídia e as crendices supersticiosas. Ditam até a cor da roupa a ser usada de acordo com o desejo que se tem no coração. Muitos exteriorizam tudo que esperam conseguir durante o ano vindouro; outros fazem um balanço do ano que passou e selecionam tudo que querem fazer diferente; alguns registram listas de todos os desejos e aspirações - dizem que dá sorte.
            Essa busca, às vezes até obsessiva, por alguma coisa que transforme a vida de um ano para o outro, estende-se de geração em geração. Mesmo que a pessoa não fale, muitos anseios estão guardados lá no íntimo da existência: uma casa nova - ou a reforma da casa, pintura que seja - um bom emprego, um namorado, um carro, mais paciência, saúde, um corpo perfeito, beleza, sucesso... E Deus, muitas vezes, fica longe, guardado apenas para os momentos difíceis, para as "noites traiçoeiras", quando a cruz pesa e necessita-se de ajuda para carregá-la.
            Que pena! Deus é um Pai de bondade, misericordioso, e é a Ele que recorremos, sim, quando precisamos de ajuda. Mas não é só isso. Como Senhor da vida, é a Ele que pertence o início e o final de cada dia, é a quem confiamos nossos trabalhos, nossas lutas, nossas conquistas, nossas tristezas e alegrias. É Ele quem vela nosso sono e nossos sonhos.
            Deus é nosso Pai celestial e, como tal, merece os melhores momentos de nossa vida. Tomara que o Espírito Santo nos ilumine e nos inspire a viver mais próximos de Deus em 2014 e a Ele ofertar o melhor que formos conquistando durante o ano.
            A Deus, nosso melhor sorriso, seja ele dirigido a alguém próximo, que merece todo nosso apreço; a alguém que nem conhecemos, mas que nos olha como se esperasse algo de nós; a uma criança que nos encanta com sua simplicidade e pureza de coração; ou a nós mesmos, quando nos sentimos transbordar de alegria.
            A Ele, a melhor palavra que sair de nossa boca: alguma palavra de esperança, que devolva o sentido da vida a algum desventurado; uma palavra de conhecimento para tirar alguém da escuridão; palavras mais severas para alertar alguém que está se perdendo pelo caminho. A melhor palavra pode ser ainda a que propaga as maravilhas que o Senhor fez para nós.
            Ao Pai do céu, o melhor dia. Aquele em que conseguimos viver cheios da graça divina e sentimos o Espírito Santo agindo em nós. Também os pensamentos mais positivos, que podem se tornar realidade e frutificar em boas obras.
            Ao Todo-Poderoso, a melhor e mais perfeita oração, saída do fundo do coração, seja de louvor, súplica ou uma prece de agradecimento por alguma graça alcançada. Também o gesto mais terno, mais carinhoso, que faz a diferença na vida de alguém e permite viver em maior plenitude.
            Com esse pensamento, tomara que, neste início de ano, depois de vermos todas as luzes comemorativas apagadas, tenhamos ousadia suficiente para acreditar que nunca estamos sozinhos. Temos um Pai pelo qual somos muito amados. Tenhamos coragem para seguir o caminho da paz e do amor. E, acima de tudo, que possamos, alegremente, oferecer A Deus os melhores momentos de nossa vida.

Luisa Garbazza
Dezembro de 2013

Publicação do jornal "Paróquia" - da Paróquia Nossa Senhora do Bom Despacho.
Janeiro de 2013