segunda-feira, 25 de junho de 2012

Diagnósticos


Certos acontecimentos na vida, esses que surgem do nada, sem nos darmos conta, causam tamanho desarranjo que abalam consideravelmente nossa estrutura emocional. Passei por um, bem nesses moldes, recentemente.
Vivi as últimas semanas voltada quase exclusivamente para o encontro de casais. A rotina muda, as atividades se intensificam, reuniões se sucedem... Quando chegou o dia propriamente dito já estava cansada. Foram três dias muito frios e, como tenho a saúde frágil, os resultados não foram muito positivos para mim. Tive um forte resfriado, acompanhado por febres altíssimas que me derrubou. Passei a noite de domingo e a segunda-feira com febre cada vez mais intensa. No início da noite, o Flávio, meu esposo, levou-me ao hospital. Muito desagradável a espera. Não tinha forças nem para manter os olhos abertos. Quando chegou a minha vez, o médico examinou-me, passou-me para um quarto de observação e, na manhã seguinte, para a internação.
Durante a noite o médico pediu um exame de sangue e uma radiografia do tórax. Fez um diagnóstico sugestivo de pneumonia e medicou-me adequadamente.
No quarto do hospital foi horrível. Sentindo mal, muitas dores, febre, uma água quente a escorrer-me pelos olhos, que era confundida com lágrimas, sem ânimo algum e sozinha – não permitiram a permanência do Flávio. E o pior, uma enxurrada de pessoas – enfermeira, técnica de enfermagem, nutricionista, psicóloga, médico, acompanhantes de outros internos – todos com uma chuva de perguntas que eu respondia com meias palavras, pois além de total debilidade estava quase sem voz. O único refrigério foi a hora de visitas em que tive a companhia do Flávio e do meu filho, Rafael.
Mas a angústia havia apenas começado. À noite, ainda sem melhoras, estranhei a chegada apavorada de uma enfermeira que começou a recolher minhas coisas de maneira urgente e disse que ia me levar para outro quarto. Juntou tudo, retirou o soro do suporte e saiu me puxando. Fui cambaleando, segurando aqui e ali, tonta, até chegar ao novo destino – um quarto pequeno e estreito. Como não estava em condições de questionar, limitei-me a deitar sem entender o que estava acontecendo. “Você vai ficar aqui até descobrir o que você tem.” Ela saiu, fechou a porta e retornou logo depois com um recipiente plástico. Passou-me as instruções para colher secreções do escarro por três dias consecutivos, e tornou a sair. Nesse momento entendi tudo: pensavam que eu estava com tuberculose. Comecei a entrar em pânico, mas parei e tive a certeza de que esse não era um motivo para preocupação. Graças a Deus eu não tenho essa doença. A experiência nos ensina. Já tive outras crises iguais a essa.
Acordei bem mais disposta no outro dia e colhi o material para exame. Mas tenho que confessar que mesmo sabendo do erro no diagnóstico, passar o dia sozinha naquele quarto foi bem desgastante. Um ventilador silencioso; um televisor falando sozinho; uma janela com pouca abertura que se descortinava para outras iguais; e, em frente à cama, uma parede neutra que me devolvia imagens que se tornavam reais sempre que meus olhos se fechavam – delírios nos momentos de extrema fraqueza. Na hora de visitas, o Flávio e o Rafael apareceram com máscaras causando-me certo estranhamento.
Passei o dia ali, quase sem assistência e sem medicamentos, pois o médico só apareceu à noite. Acabei descontando nele todo o nervosismo e a angústia de um dia tão obscuro.
O dia seguinte não foi muito diferente. Apesar de receber assistência e medicação devidamente, o lugar não ajuda. A porta fechada; a máscara em cada profissional que entra; a placa na porta do quarto – isolamento; a cara das pessoas – dá para perceber quando alguém abre a porta; a falta de visitas, que são barradas na portaria. Até o Flávio e o Rafael foram barrados e tiveram que argumentar para conseguirem chegar até mim. Constrangimento total.
Quando o resultado do exame saiu – NEGATIVO, a música ganhou novos acordes. O discurso mudou completamente. Porém, nada será suficiente para mudar os efeitos de uma atitude tão imponderada.
Isso também acontece em nossa rotina de vida. Muitas análises são feitas sem pensar. Muitas palavras inconsequentes são ditas – ou mal ditas. E assim vamos deixando para trás oportunidades de viver cada dia de maneira mais amena. Vamos perdendo oportunidades de aproveitar as coisas simples da vida e enfrentar os obstáculos com mais esperança e fé. Isso tudo vai ficando para trás em cada “diagnóstico precipitado”, em cada palavra mal interpretada, em cada perspectiva perdida.
Luisa Garbazza – 25 de junho de 2012

domingo, 10 de junho de 2012

Juventude católica



“A juventude é a semente que Deus na terra semeou
Tornou-se flor, tornou-se gente, e o mundo nunca mais parou.”

Com essa frase, padre Zezinho começa uma música que fala sobre a necessidade de os jovens esperarem o tempo certo para tomar atitudes em cada fase da vida. Lembrei-me dessa canção, por acaso, quando passava os olhos pelas datas comemorativas de junho e lá estava: 21 de junho – Dia da Juventude Católica.
A primeira ideia que me veio à memória foi a situação do jovem hoje. Nesse mundo globalizado em que vivemos, valores como esse, cantado pelo padre Zezinho, tornaram-se obsoletos, fora de moda, exceções à regra. O jovem é bombardeado por informações e modelos de vida baseados em antivalores morais que cada vez mais passam a ser seguidos de forma aberta e liberal. As leis, em um país que quer ser essencialmente laico, estão cada vez mais materialistas, derrubando censuras e apoiando projetos contrários à defesa da vida em quaisquer circunstâncias.
Nós cristãos, que queremos viver segundo os ensinamentos de Cristo, ficamos ilhados em meio a tantas atitudes de violência social, física e espiritual. Isso afeta principalmente os jovens por estarem em fase de autoconhecimento, de escolhas, de amadurecimento na fé. O mundo oferece a eles tantos outros caminhos, com promessas de dinheiro fácil e prazeres diversos, e muitos se entregam abandonando família, igreja, amigos. Por isso eles precisam mais do que nunca de apoio, de incentivo, de carinho e de espaço para mostrarem seus anseios, seus dons, sua alegria.
Felizmente, é crescente o número de jovens que são católicos e não têm vergonha de demonstrar que o são. Basta acompanhar pela televisão, pelas redes sociais e também em nossa cidade. São muitos eventos com a presença efusiva dessa juventude distinta, que quer participar, mostrar a todos a sua fé, louvar a Deus e viver na esperança de dias melhores.
Sinto uma ternura muito grande por esses jovens que se entregam aos ensinamentos de Cristo e se colocam a serviço do reino; participam de projetos sociais; reúnem-se em grupos para louvar e agradecer por todos os benefícios concedidos; que usam a internet, principalmente o Facebook para registrar seu amor e sua confiança em Deus. Jovens que brincam, cantam, celebram, riem, choram, questionam, mas sem perder a direção nem a fé.
Exemplo bem concreto é o nosso JC (Juventude Construindo), grupo de jovens de Bom Despacho. São jovens católicos espalhados pela cidade, nas várias paróquias, que dão testemunho de vida cristã, participam das celebrações, organizam quadrilhas nas festas juninas, apresentam-se nos eventos da Igreja e reúnem-se sempre, aos sábados, para um tempo forte de experiência de Deus. Divididos em ministérios, cantam, encantam e emocionam com suas músicas, suas coreografias, suas orações de louvores. Seu diferencial é a alegria. Sempre os vejo com um sorriso aberto, bonito, acolhedor. É a juventude católica em nosso meio.
Muito propício celebrar essa data nesse período em que o mundo todo, principalmente o Brasil, se prepara para viver uma das maiores emoções: a Jornada Mundial da Juventude. Jovens do mundo todo se reunirão no Rio de Janeiro para receber o papa Bento XVI e acolher sua mensagem. A Igreja precisa mesmo valorizar a presença do jovem, tanto para ajudá-los a viver segundo o evangelho de Cristo como para se enriquecer com seu jeito entusiasmado de realizar cada tarefa.
Por isso, acreditemos na força dessa juventude e peçamos a Deus que os impulsione a serem cristãos autênticos testemunhando os ensinamentos de Cristo no dia a dia, nas escolhas que fazem, na convivência com o outro, na família e na sociedade. Que os jovens tenham sempre em mente a necessidade de ajudar os mais necessitados, de colocar os dons recebidos de Deus a serviço dos irmãos e vivam como nos ensina o próprio padre Zezinho nessa mesma canção:
“A vida é como um tanque cheio que sente que precisa dar,
não tendo quem receba dele, ele também se fecha e para de ganhar.”
Luisa Garbazza

Texto originalmente publicado no "Informativo IGREJA VIVA", da Paróquia Nossa Senhora do Rosário, no mês de junho.

Em especial para você, jovem.

domingo, 27 de maio de 2012

Pureza de coração


 Certas emoções me sensibilizam consideravelmente. Sobretudo quando envolve relacionamento entre mãe e filhos. Daí vêm as alegrias mais intensas, mas também as dores mais amargas. O esforço que se faz necessário para criar um filho e o amor a ele dispensado é imensurável e por mais que os outros reconheçam, nunca será devidamente compreendido, nem há recompensa à altura. Merece gratidão eterna.
No último final de semana, presenciei um momento entre mãe e filha que me deixou incomodada. Domingo à noite, estava auxiliando em barraquinhas beneficentes em frente à Igreja Matriz, no centro da cidade - vendas de caldos e canjica. Havia uma movimentação constante no local e, embora às vezes diminuísse bastante, sempre aparecia alguém querendo apreciar as guloseimas.
Após a missa, muitas pessoas foram se aglomerando no local e a animação foi maior ainda. Transformou-se em um momento de confraternização, de conversa amiga, de brincadeiras, que foi se estendendo noite a dentro. No vaivém das pessoas, nos encontros, nos abraços, ia fortalecendo os laços de amor fraterno tão divulgado no cristianismo. Colocar-se a serviço foi uma experiência tão gratificante que nem percebi o cansaço chegar.
Após muita andança, meus pés pediram arrego. Afastei-me um pouco e sentei-me na beirada de um canteiro de rosas, ao lado de um casal conhecido. Pessoas de uma simplicidade tamanha, dessas que amolecem o coração. Ali não importa beleza, riqueza ou aparência; precisa apenas de um sorriso nos lábios e um pouco de boa vontade. Tudo o mais se torna supérfluo. A mulher humilde se agiganta e me trás à memória uma frase de Jesus: “Felizes os puros de coração, porque verão a Deus.” Em sua singeleza, em seus trajes humildes, em sua fala despreocupada, foi o que senti – alguém puro de coração.
Poucos minutos de conversa e vejo aproximar duas mocinhas. Pude perceber que era a filha dessa senhora e a amiga dela. Chegou, sem dar muita importância, com certa reserva. O pai logo foi comprar cachorro-quente para agradá-la. A mãe, toda preocupada, perguntando coisas, querendo saber novidades. Porém, por mais que se esforçasse, só recebia monossílabos. Em dado momento ela tirou do bolso uma sacolinha plástica com algumas balas e com carinho entregou à filha. “Guardei pro cê.” Não consegui assimilar o comportamento da garota. Ela abriu a sacola, e reclamou ao ver seu conteúdo. “Só isso?” A mãe, sem jeito: “Eu dei uma prum menino, ele deixou a bala cair e tive que dar outra.” A menina, em um gesto até brusco, jogou a sacolinha no colo da mãe, que continuava sentada na borda do canteiro, e deu-lhe as costas. Sem nenhuma reação negativa, dirigiu-se a mim: “A gente guarda as balinhas com tanto carinho. Olha o que ela faz!” Percebi uma pontinha de decepção naquela fala, fiquei muito sem graça com a situação e respondi para que ela não se preocupasse com aquilo. Mas sei que foram palavras vazias, sem nenhum efeito. Nem eu me convenci do que havia falado. Como não se preocupar? Mães assim vivem em prol do filho e querem agradá-lo sempre, vê-lo sorrindo, de bem com a vida.  O contrário é sempre motivo de desapontamento.
A mãe ainda tentou se comunicar com a filha sem muito sucesso. Em instantes o pai chegou com o cachorro-quente e eles se afastaram para ir embora. Na despedida ainda pude olhá-la nos olhos e constatar que não havia sobrado nem uma sombra. Em seu coração, ingênuo talvez, não há lugar para mágoa nem tristeza. Saiu feliz, ao lado do marido e da filha, como se fossem as pessoas mais importantes da terra.
Em mim ficou uma ternura muito grande por aquela mulher tão simples, tão generosa. Pessoas assim, aparentemente tão humildes, possuem sabedoria suficiente para serem felizes com tão pouco e têm tanto a nos ensinar. É a história dos lírios do campo, tão verdadeira e que temos tanta dificuldade em assimilar. Aos poucos vou aprendendo a ver, em pequenos episódios que se apresentam diante de meus olhos, lições de vida, de gratuidade, de doação sem limite, que traduzem a essência da vida.
Luisa Garbazza

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Diferentes e iguais


        Segunda-feira, 14 de maio de 2012.
      Saio bem cedinho, juntamente com meu filho, para participarmos da Santa Missa. É o aniversário do pároco, padre Mundinho. Muitos amigos estavam ali para lhe prestar uma homenagem. Presença, mensagem, preces, abraços.
       Mas, o que mais me chamou a atenção e continuou em minha mente por todo o dia, foi o refrão do Salmo:
        "O Senhor fez o indigente assentar-se com os nobres."
      Vivemos em um mundo tão competitivo, onde todos querem ser o melhor em alguma coisa. E por trás desse "o melhor", vem a indiferença, o preconceito, a discriminação. A sociedade vai formando os padrões e dividindo as pessoas. São os mais ricos, os mais bonitos, os mais inteligentes, os mais espertos. E quem não acompanha as tendências, por simplicidade ou falta de recursos, são postos às margens da sociedade e deixados de lado.
     Pobres de nós. Quem somos para rotular o outro? Para tratá-lo como inferior? Para induzi-lo a se achar menos capaz? Não somos ninguém. Perante Deus, somos todos iguais, não importam as diferenças, físicas ou sociais, que possuímos. Deus não faz distinção. Pelo contrário, o mais infeliz dos viventes, pelo julgamento dos homens, pode ser o mais importante perante Deus, pois só Ele pode julgar o que trazemos no coração.
      De que adianta ser o mais rico, se isso não me aproximar de Deus?
      De que adianta ser o mais belo, se eu não me colocar a serviço do outro?
      De que adianta ser o mais inteligente, se não consigo ajudar ninguém?
      De que adianta ser o mais esperto, se não posso resolver a dor do próximo?
     Quando paramos para pensar na preferência de Deus pelos puros de coração, olhamos o outro com mais amor e mais humanidade. Tomamos consciência de que não seremos preferidos de Deus pelo que temos e aparentamos, mas sim pelo que somos e sentimos. Assim, aquele que imaginamos ser o mais infeliz, pode estar nos braços de Deus e merecer todo nosso respeito.
   Todo nosso esforço deve ser, portanto, por uma vida mais simples, por um relacionamento mais humanizado com todos de nosso convívio. Ver no outro a presença de Deus, que espera que amemos como Ele mesmo nos amou. Olhar o outro com os olhos do amor e ver somente o bem de cada um.  Assim, com certeza, estaremos fazendo a vontade de Deus e plantando seu reino aqui na terra.
      "Levanta da poeira o indigente e do lixo ele retira o pobrezinho, 
     para fazê-lo assentar-se com os nobres, assentar-se com os nobres do seu povo."
                                                                                                                                              Sl 112)

                                                                                                                                Luisa Garbazza

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Sublime amor de mãe



Toda mãe, sem ressalva nem exceção, é digna de homenagem, gratidão, aplausos, orações e muitas bênçãos, pela sublime missão de gerar uma nova vida. Por isso é uma honra poder exaltar cada uma neste dia a elas dedicado.
Primeiramente, e de forma bem simples e pura, nossa homenagem é para aquela mãe que formou a primeira família cristã – Maria, “mãe de Deus e nossa, sem pecado concebida”. Mulher forte, fiel a Deus, que abraçou a humanidade inteira com seu sim, sua persistência, sua aceitação, sua cruz. Modelo de virtude. Nossa mãe do céu, companhia certa nos momentos de tristeza e de alegria, de desânimo e de fé, de fraqueza e de força. Nossa representante perante o Salvador: “Pede à mãe que o filho atende.”
Nossa gratidão às mães gestantes, reféns da ansiedade que faz com que esses nove meses sejam os mais longos da vida e, ao mesmo tempo, os mais sublimes. Vivem a magia que acontece dia após dia, desde a fecundação até o momento de dar à luz. Futuras mães, cheias de sonhos, com um coração enorme preparado para se desmanchar em alegrias e afetos quando admirar seu filho pela primeira vez.
Uma homenagem sincera a todas as mães que batalham incessantemente para acompanhar o desenvolvimento – mental, físico e espiritual – e a educação dos filhos. Mães guerreiras que enfrentam obstáculos, destroem barreiras, movem céus e terra, doam a vida, esquecendo-se de si mesmas, para que o filho possa crescer, se desenvolver e construir sua personalidade. Cada passo do filho, cada degrau vencido, cada vitória conseguida são sentidos com intensidade tamanha que transborda do coração pelos olhos, pelo sorriso e pelas palavras escolhidas para exteriorizar tais emoções. São lutas e alegrias que perduram por uma vida inteira.
Gratidão especial às mães de filhos distantes – por um motivo ou outro. Partiu o filho, partiu também o coração que, incompleto, não encontra espaço para tanto amor e vive se derramando em lágrimas de saudades. Cada lugar da casa, cada objeto, o prato preferido, as conversas, tudo lembra o filho querido. Ausência sofrida, apesar da alegria intensa de sabê-lo bem e do orgulho sentido ao vê-lo crescendo, conquistando espaços, progredindo.
Nossa solidariedade às mães desprezadas. Tamanho amor, que se formou ao longo de tanto tempo, não foi suficiente para mostrar ao filho que ele é o bem maior de sua existência. Tanto carinho dispensado dia a dia não foi o bastante para sustentar os laços mágicos e sagrados que unem mãe e filho. Os braços ficam abertos sem ter a quem abraçar. O amor sufoca o peito e os laços cortados provocam lamentos e choro confirmando a dor da ausência...
Nossa homenagem e solidariedade àquelas mães que se despediram do filho, devolvendo-o a Deus. Que dor imensa! Que lacuna desmedida! Filho é insubstituível. O amor permanece. A falta aperta o coração e amarga a vida.
Nossas orações pelas mães que abandonaram os filhos. Apesar de não assumirem a missão, também são mães. Quem sabe a vida, com suas circunstâncias adversas, traçou esse caminho obscuro. Ou, talvez, o amor não foi suficiente para se dividir e receber nos braços uma parte do coração que começou a bater no peito de outra pessoa.
Nossa homenagem e nosso carinho para as mães idosas, que dedicaram a vida pelos filhos e hoje já não têm força suficiente para continuar a batalha da vida. Elas, que como São Paulo, “combateram o bom combate”, fazem jus ao reconhecimento, à gratidão, à presença amiga, à assistência constante e ao amor daqueles que gerou. 
Tomara que, neste dia especial, todas as mães possam sentir a verdadeira alegria por ter-se esvaziado e se preparado para receber os filhos que Deus lhes concedeu. Alegrar-se com a certeza de que, independente da realidade vivida, os filhos são dádivas de Deus e a Ele pertence. E que Maria abrace todas as mães e dispense a cada uma as graças necessárias para bem viver essa sublime história de amor.
Parabéns a você, mamãe.
Luisa Garbazza

Crônica publicada originalmente no 
Informativo Igreja Viva 
da Paróquia Nossa Senhora do Rosário - mês de maio.

domingo, 6 de maio de 2012

Bom Despacho centenária




 Minha amada Bom Despacho, cidade hospitaleira, está se tornando centenária. Quanto tempo passado! Quantas pessoas fizeram parte de sua história! E quantas histórias nesses cem anos de emancipação! Os holofotes estão todos voltados para seus encantos, seus filhos ilustres – ou nem tanto, seu desenvolvimento e seu futuro. São encontros, visitas importantes, livros de reminiscências, coletâneas de fotos significativas, projetos para um amanhã mais promissor... Muitos querem deixar sua marca nesse acontecimento tão festejado.
Nos guardados de minha memória, a cidade de minha infância volta à tona em alguns costumes, fatos notáveis e personagens populares. Morava em um sítio no entorno urbano e, em minha pequenez, quando andava por suas praças e ruas, a cidade se agigantava e me fascinava.
Minha primeira lembrança é da imponente Igreja Matriz de Nossa Senhora do Bom Despacho – maior cartão-postal da cidade – templo católico que ainda deslumbra os que o veem pela primeira vez. Desde muito cedo minha mãe nos conduzia, meus irmãos e eu, aos domingos, para louvar a Deus participando da Santa Missa, devoção que me acompanhou pela vida e permanece.
Como sempre tivemos, os tipos populares que aqui viviam na época de minha infância foram bem marcantes, ora provocando risos, ora causando medo ou tristeza. O mais famoso era o “Romeu das latinhas”, que andava com umas roupas estranhas e, nunca soube por que, sempre carregava latinhas consigo. Havia o “João Sapato” que ficava repetindo o próprio nome – pra falar a verdade eu não entendia nada do que ele dizia. A “piriguete” da atualidade estava presente na pessoa da “Futrica”, que sempre andava com umas roupas excêntricas e usava muita maquiagem. Outra que conheci e que me causava medo era uma senhora mais velha que morava em um casebre no início da subida da Rua Cruz do Monte. Usava umas roupas estranhas, tinha a casa cheia de gatos – dizem que ela os comia – e era por nós chamada de “Sá Dona daqui”. Nunca soubemos seu nome. Ainda havia outros, porém não deixaram marcas.
Nós bom-despachenses sempre lembramos os filhos dignos que aqui viveram: médicos, padres, militares, políticos, professores e tantos outros. O cidadão mais ilustre que minha mente infantil arquivou foi o médico Dr. Roberto de Melo Queiroz. Meus pais trabalharam na fazenda dele e convidaram-no, juntamente com sua esposa, Dona Joesse – que não conheci – para batizar meu irmão. Por muitos anos eles foram nossos “anjos da guarda”. Lembro-me de algumas ocasiões – outras sei por relatos de minha mãe – que fomos atendidos por ele e medicados em seu consultório ou em sua casa, sem cobrança de honorários, pois nossa situação financeira era precária. Merece minha homenagem e gratidão.
Igualmente, lembro-me meus primeiros passos na essência para uma vida honrada – a educação. Iniciei meus estudos na Escola Estadual Martinho Fidélis que na época funcionava em um velho casarão localizado em plena Praça da Matriz, ao lado do Escritório Paroquial, onde hoje funcionam várias lojas, como a Livraria Roda-Viva. Sempre fui amiga das letras. Meu primeiro dia de aula foi inesquecível. Minha primeira professora – Dona Zélia Diniz – também. O primeiro grande acontecimento de minha vida estudantil foi uma excursão à Praça da Estação. Naquela época havia a Estação Ferroviária. E ainda havia trens que enchiam nossos olhos curiosos.
Um fato curioso da cultura da época que às vezes relembro era o modo como publicavam as notas de falecimento. Imprimiam, em folhas brancas, os dados necessários sobre o ocorrido e alguém as distribuía de casa em casa. Se não tivesse ninguém a folha era deixada na porta. Colocavam também nos comércios. Quando voltava da escola e havia falecido alguém, gostava de levar o panfleto para minha mãe e ver se ela conhecia a pessoa. 
Guardo também, com orgulho, lembranças da construção da atual Praça da Matriz. Projeto esplêndido. Algumas vezes parei para observar o árduo trabalho dos operários – meu irmão, inclusive – ao colocar as pequenas pedrinhas que formam o piso da praça. Aqueles mosaicos montados com a mistura de pedras brancas e escuras provocam um efeito artístico muito interessante. Participei de muitas brincadeiras naqueles “caminhos”.
Contudo, o que marcou de forma primorosa, não só minha infância, mas também a adolescência, foi o Cine Regina. Majestoso, enorme, gerador de fantasias e sonhos. No início, as matinês, que enriqueciam as tardes de domingo. Depois, as sessões noturnas com filmes variados que ora me deixava emocionada, ora agitada, outras vezes com medo ou enternecida. Tornou-se companhia inseparável e por vários anos proporcionou-me noites de imaginação e alegria. Faz muita falta.
Muitos anos se passaram. Outros acontecimentos, outras pessoas se destacando, mais progresso... Mas essa época ficará sempre registrada em minha memória, pois marcou os primeiros ensaios de minha trajetória e acompanhou-me até me tornar uma cidadã consciente e agradecida à cidade que me acolheu e me viu crescer.
Parabéns, Bom Despacho! Tomara que você se torne cada vez mais hospitaleira, humanizada e protegida pelo manto sagrado de Nossa Senhora do Bom Despacho, sua padroeira. 

Luisa Garbazza - 06 de maio de 2012

Crônica publicada originalmente no Jornal "Paróquia", da Paróquia Nossa Senhora do Bom Despacho, no mês de maio.
Minha homenagem ao centenário de nossa querida Bom Despacho.