sábado, 21 de abril de 2012

Palavras em movimento


"Contratempos são como facas, que nos servem ou nos cortam,
 conforme as pegamos pelo cabo ou pela lâmina."
(James Russell Lowell)

"Senhor,
quando Te recebemos na barca da nossa vida,
vai-se o medo, pois vem a certeza que contigo
chegaremos sempre a Bom Porto. Amém."

"Quem souber vivenciar as manhãs,
saberá enfrentar o entardecer e certamente repousará ao anoitecer."
( Bettina Weege )

"O segredo de qualquer conquista é a coisa mais
simples do mundo: saber o que fazer com ela."

(O Diário de Um Mago)

Que bonita é a nossa vocação de cristãos
 – de filhos de Deus! –,
que nos dá na terra a alegria e a paz que o mundo não pode dar!
(S. Josemaría Escrivá - Forja, 269)

"E a coisa mais divina / Que há no mundo
É viver cada segundo / Como nunca mais."

*(Vinicius de Moraes)*

"Se houver flores em seu jardim, aproveite o perfume.
Se tudo estiver seco, aproveite para colocar as mãos na terra,
plantar sementes e aguardar a floração."
  (Ana Karine de Almeida)   

Estou enfrentando a última etapa do caminho da minha vida e não sei o que virá daqui para frente. Sei, entretanto, que a luz de Deus está presente e que ela é mais forte do que qualquer escuridão."
(Bento XVI celebrando os 85 anos de vida)

"Aceite que há dias em que você é o pombo e outros em que você é a estátua."

" Deixe sua mente ser livre e seu coração ser gentil e suave. "
- (Jack Kornfield)

"Que as nossas palavras sejam verdadeiras, claras, oportunas; que saibam consolar e ajudar, que saibam sobretudo levar aos outros a luz de Deus."
(São Josemaría Escrivá)

"Nossa missão: Compreender o universo de cada ser humano, respeitar as diferenças, brindar as descobertas, buscar a evolução."
(Luis Fernando Veríssimo)

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Tenra idade


A infância, uma fase mágica da vida, está sempre se fazendo presente, por toda nossa vida, em lembranças constantes que não se esgotam nunca. Quando essa foi povoada de momentos felizes, volta em forma de alegria que provoca risos interiores e enternece o coração. Mas, se, ao contrário, foi marcada por acontecimentos difíceis, gera traumas tão intensos que chegam a atormentar por anos e anos.
Atualmente presenciamos uma preocupação muito grande com as crianças através da mídia. Os primeiros anos da história de cada um deve ser uma fase de descobertas, de brincadeiras, de alegrias, de encanto. Recordo os meus, vividos em um pequeno sítio, às margens de um córrego de águas limpas, que brincavam com os acidentes da natureza, ora formando pequenos lagos, ora caindo verticalmente formando pequeninas quedas-d’água ou ainda correndo serenamente por entre as pedras. Em uma família de muitos irmãos, nunca faltava companhia para brincar, estudar ou ajudar em alguma tarefa. Dali ficaram eternizadas em minha memória muitas aventuras, alegrias e sonhos.
Infelizmente, para muitas crianças, essa é uma fase marcada por maus-tratos, miséria e tristeza, por todo o país. Vez ou outra, o caso de uma criança sendo oprimida congestiona os meios de comunicação e provoca uma avalanche de opiniões, críticas, revoltas. Porém, constato que poucos casos são registrados, explorados ao extremo, enquanto outros, muitos, passam despercebidos, sem alarde, sem “incomodar” ninguém.
Em recente viagem ao litoral, presenciei um fato que me causou indignação. Entre os ambulantes que circulam pela praia – e que deveriam ser devidamente cadastrados e licenciados – chamou-me a atenção a figura de um menino. Com seus dez, onze anos, sugeridos pela estatura, a pele escura, maltratada pelos raios escaldantes do sol e a cabeça desprotegida, vendia bolsas. Não algumas bolsas. Um emaranhado de bolsas femininas de todos os tipos, cores e tamanhos. Tantas, que enchiam um suporte que ele trazia pendurado no pescoço e pendia de um lado imobilizando seus braços. Do outro lado, o peso incontrolável das bolsas puxava-as para a areia onde se arrastavam constantemente.
Foi dolorido observar o semblante daquela criança. Um olhar triste, demonstrando cansaço, já nem falava nada. Passava de um lado para outro, jogando as bolsas de qualquer maneira tentando equilibrá-las nos ombros. Era visível o descontentamento do menino. Vender bolsas não deve ser o sonho de nenhum garoto. – Se pelo menos fossem algumas bolas coloridas!...
E, por várias vezes naquela manhã, a presença marcante de tão inusitado personagem veio perturbar meus pensamentos. Impossível não pensar nesse momento na desigualdade social. Na má distribuição de rendas em nossa sociedade. Enquanto algumas crianças têm tanto, vivem mergulhadas no luxo, no desperdício, muitas vivem no limite e outras sofrem, batalham e conseguem apenas o suficiente para sobreviver. Os sonhos de criança? Ficam camuflados no vaivém cansativo do dia a dia.
O desejo que brotou no coração depois disso, embora um pouco utópico, foi de uma sociedade mais justa, pelo menos com os pequenos. Toda criança tem direito ao lazer e a ser protegida contra o abandono e a exploração no trabalho, já diz a Declaração Universal dos Direitos da Criança. Toda criança tem o direito de ser amada e feliz. Acima de tudo, precisa de um incentivo a mais para se desenvolver sadiamente e fazer reservas de sonhos para suavizar a realidade da vida adulta. 
                                                                                                                                           Luisa Garbazza
* Crônica publicada originalmente no jornal 'Paróquia', da Paróquia Nossa Senhora do Bom Despacho, no mês de abril de 2012.)
 

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Jornada jovem

               O altar improvisado no pátio da Catedral de Nossa Senhora da Boa Viagem  em Belo Horizonte – montado com zelo e bom gosto – aguardava o momento da celebração eucarística. Em frente ao altar, em um espaço devidamente separado, os ministros extraordinários da comunhão aguardavam pacientes. Os organizadores faziam os últimos acertos. O ambiente todo iluminado colaborava com a ocasião dando-lhe o devido destaque.
             A passeio na cidade, fui participar da Santa Missa, pois o Matheus, meu filho, seminarista sacramentino, seria o cerimoniário. O horário marcado já estava vencido. Poucas pessoas estavam na assembleia. Pensei comigo: tanto aparato para tão poucos fiéis. Foi um pensamento de pura ingenuidade, pois eu não sabia ao certo o que estava para acontecer. No momento seguinte, uma turma de jovens – uns cinquenta – chegou ao local e foi se acomodando nos espaços disponíveis. Poucos instantes se passaram. Outros jovens foram chegando, outros, mais outros, e “de todos os lugares vinham aos milhares” e foram circundando o altar, espalhando pelos jardins, por sob as árvores, em cada cantinho da praça que ladeava a catedral. Jovens alegres, radiantes, de “cara pintada”, terço na mão, segurando faixas, exibindo bandeiras... Milhares de jovens ali estavam para louvar a Deus e agradecer pelo dom da vida. Era o encerramento da III Jornada Arquidiocesana da Juventude.
             Alguns jovens ainda estavam chegando quando o coral começou a cantar a música Nova geração, do padre Zezinho. Foi muito comovente ver aqueles jovens todos reunidos por um propósito tão edificante. Comecei a cantar junto e no momento do refrão – todas aquelas vozes repetindo “No peito eu levo uma cruz, no meu coração o que disse Jesus” – a emoção foi tamanha que não pude – nem quis – segurá-la no peito, ela se desfez em lágrimas comprovando a força da graça e da presença de Deus: “Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estarei no meio deles”. (Mt 18,20)
           A celebração eucarística transcorreu com primor de organização, belas vozes, presença de padres, diáconos, seminaristas e as sábias palavras de Dom João Justino, bispo auxiliar da Arquidiocese de Belo Horizonte. Marcou-me muito o momento em que Dom Justino pediu que todos fechassem os olhos e abaixassem a cabeça, levando-nos a refletir sobre o que ele ia proferindo. O silêncio foi completo. Nenhum ruído, nenhuma conversa, nada. Apenas as palavras enriquecedoras que nos transportavam ao encontro de nós mesmos e ao encontro de Deus. Ao levantar a cabeça, senti uma leveza profunda e uma gratidão imensa pela oportunidade de participar desse evento.
          Após a celebração eucarística, a entrada do arcebispo Dom Walmor, motivou os jovens a saudá-lo com carinho e muitas palmas. “Uma igreja sem a presença do jovem nunca será uma igreja marcada pela alegria”, disse ele. A mensagem trazida pelo arcebispo foi de humildade, paz, esperança, alegria e muita fé. A esperança de um mundo melhor, com a significativa atuação dos jovens principalmente na Igreja. A alegria de ser filho de Deus e poder espalhar esse sentimento na família, no trabalho, na escola, contagiando cada irmão, cada irmã, para que também possam se alegrar. Dom Walmor colocou-se à disposição da juventude sendo recompensado com muitos aplausos. Também convidou os jovens ao sacerdócio e à vida religiosa e disse que a alegria que ele encontrou na Igreja, seguindo os passos de Cristo, com certeza, não experimentaria em nenhuma outra atividade.
          Saí dali com a certeza de que aquela celebração fez a diferença na vida de muitos jovens, como fez na minha. E continuará fazendo nesse tempo de preparação para a Jornada Mundial da Juventude, no Rio de Janeiro, em 2013. O mundo está carente de jovens engajados, que acreditem na força de Deus. E nós cremos “na força do jovem que segue o caminho de Cristo Jesus”.  E esse mesmo Cristo Jesus será nosso guia nessa jornada em busca de uma sociedade mais justa, mais santa, mais fraterna, mais divinizada. Tomara que todos tenham saído dali “Enraizados e Edificados em Cristo, Firmes na Fé”. (cf. Col 2, 7)
 Luisa Garbazza
04 de abril de 2012
Crônica inspirada em emoções vividas no encerramento da III Jornada Arquidiocesana da Juventude, em Belo Horizonte, dia 1º de abril de 2012.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Quarta-feira Santa

      A igreja nos propõe para meditação, nesta quarta-feira santa, a traição sofrida por Jesus. Judas Iscariotes, escolhido como um dos 12 apóstolos, também foi aquele que, impiedosamente, entregou Jesus. Durante a última ceia, naquele momento de confraternização, Judas já havia combinado a traição com os sumos sacerdotes. Já havia acertado um preço: 30 moedas de prata para entregar Jesus. 30 moedas era exatamente o preço de um escravo naquela época. E por esse preço Judas ia entregar Jesus. Apenas aguardava o momento oportuno para concluir seu plano. Ele não aceitava aquele Jesus humilde, protetor dos fracos e oprimidos. Mas Jesus veio justamente por isso: para que reine a justiça em toda a terra. Reunidos ali para comer a Páscoa, Jesus falava para seus discípulos o que estava para lhe acontecer, inclusive sobre a traição. Judas, agindo friamente, teve coragem suficiente para perguntar ao Mestre se por acaso seria ele. Agiu dissimuladamente, sem se abalar e mesmo depois desse acontecido levou seu plano adiante e entregou Jesus.
       A traição é uma atitude que vem sendo repetida pelos séculos afora. Mesmo hoje, no nosso dia a dia, convivemos com muitos judas, que por qualquer quantia não hesitam em trair seu semelhante, seja parente, conhecido, colega de trabalho... trai até o próprio Jesus, através da Igreja. Sim, às vezes traímos Jesus por não concordar com as condições impostas por ele. Queremos um Jesus bonzinho, que nos aceite sem cobranças, sem sacrifícios. Traímos Jesus por que para segui-lo, às vezes, temos que mudar nosso modo de ser e preferimos continuar no nosso comodismo, com manias e atitudes que não condizem com a lei de Deus.  Quantas vezes cada um de nós já fomos traídos? Ou traímos também? Quantas vezes não fomos cristãos suficientes para livrar alguém da traição? Para defender a Igreja de Jesus dos traidores de hoje?
      Porém, nós não estamos aqui para julgar nem condenar ninguém. Somos todos iguais perante Deus e nosso dever é agir como Jesus, procurando ajudar cada irmão que cruzar nosso caminho. É ter sempre uma palavra de conforto para quem se encontra abatido. Ajudar o outro a encontrar Jesus, a encontrar a si mesmo e merecer as graças de Deus, como nos ensina o profeta Jeremias na primeira leitura.
      Não é uma tarefa fácil ser multiplicador dos ensinamentos de Jesus. É preciso coragem e perseverança para levar, além da palavra de Deus, nossa ajuda concreta ao irmão que sofre.
      Como ouvimos no Salmo, muitas vezes recebemos insultos e enfrentamos sofrimentos nessa nossa missão de propagar a lei de Jesus, o objetivo maior de sua vinda à terra: “Que todos tenham vida plenamente.” Contudo, apesar de todas as dificuldades, precisamos ser perseverantes, não nos deixarmos abater nas humilhações. Precisamos ter confiança na proteção divina, louvar o nome de Deus e ter humildade para agradecer, sempre, em quaisquer circunstâncias.
      Podemos ter convicção de que não estamos nessa luta em vão. Ter a certeza de que Deus não despreza nossos pedidos e atende às preces de quem sofre.
      Vivamos, então, esta semana santa com um espírito de penitência, de oração, com o coração contrito e a segurança de que Maria, que tanto sofreu por amor a Cristo, nos acompanha dia a dia e Deus nos espera no final de nossa caminhada aqui na terra. Precisamos estar preparados para nos encontrar com Ele. 
                                 “Eu vim para que todos tenham vida
Que todos tenham vida plenamente.”

Luisa Garbazza
04 de abril de 2012

terça-feira, 27 de março de 2012

Cultivando a alegria

      É curioso perceber o poder que as palavras exercem em nós. Podemos ler uma frase de impacto ou um texto e, simplesmente, passar por ele. Esse mesmo texto, lido em um momento de fragilidade emocional, pode interferir efetivamente em nossa maneira de pensar e agir.
      Aconteceu-me, no último final de semana, um exemplo dessa constatação. Amanheci tristonha, angustiada com certas ideias e bem quieta, taciturna. Esposo e filho arrumavam para sair – iam a Divinópolis – e chamaram-me para ir junto. Sem cogitar qualquer atitude contrária, disse que não iria, nem compensava, o tempo era curto, nem valeria a pena. Comecei a ler o caderno “Cultura” do jornal Estado de Minas e interrompi meditando algumas palavras da psicanalista Regina Teixeira da Costa em seu texto “A promoção da alegria”:
      “Uma coisa é certa: viver é uma peleja constante. Quando a gente pensa que chegou a hora do sossego... lá vem mais. Sem esquecer que é mais fácil ser infeliz do que feliz. Para viver penando basta não fazer nada. É só deixar a vida rolar de qualquer jeito, passivamente, sem interferência nem intervenção.”
      É bem verdade. Ser infeliz é muito mais fácil. Deixar a vida passar e ficar na posição de vítima, reclamando da sorte, não dá trabalho nenhum. Em vários momentos da vida, desempenhamos esse papel. Por qualquer contrariedade nos sentimos vazios, como se tudo tivesse perdido o sentido. Nesses instantes, acreditamos cegamente que somos infelizes.
      Podemos nos sentir fragilizados e nos entregar ao pessimismo passando aos outros a impressão de sermos pessoas miseráveis, abandonadas à própria sorte, sem amor, sem carinho nem proteção. Porém, às vezes, nem nós mesmos sabemos o motivo de tão negativo sentimento. É um vazio existencial que nos domina e nos faz sentir a pior pessoa da terra. Mergulhamos nesse universo por um simples descontentamento, algo que não deu certo, alguém que não correspondeu a nossa amizade ou amor, um grupo que não nos aceitou... qualquer desconcerto na vida é suficiente para nos lançar ao abismo e crer na ausência de solução.
      Contudo, ao ler aquelas palavras no jornal, comecei a pensar na inutilidade desses sentimentos. É muito fácil ficar triste e se entregar à solidão. Mas é mais saudável lutar para se libertar de pensamentos negativos. É mais tranquilo entrar no quarto, colocar uma música que traduza o sentimento e mergulhar na melancolia. Mas é mais benéfico ir ao encontro do outro e dividir os problemas, interagir, buscar novos caminhos. É bem simples colocar a culpa nas outras pessoas ou nas circunstâncias e se fazer de “coitado”. Mas é mais libertador ter fé em Deus e lutar por dias melhores, por momentos de paz interior, pela aceitação das dificuldades. Sempre teremos problemas na vida, todavia não precisamos nos entristecer e sim buscar a melhor maneira de resolver os reveses e aprender com cada situação.
      Acreditei tanto nessas palavras que quando meu filho perguntou se eu não queria ir mesmo, “Fazer companhia!”, pedi cinco minutos, arrumei-me rapidamente e segui com eles. A tristeza foi ficando para trás. A certeza agora era de que tudo seria diferente. Outra seria minha maneira de analisar esses sentimentos traiçoeiros que nos roubam a paz e a alegria de viver. Cultivar tristeza é anular o próprio direito de ser feliz.
      O final da viagem foi um pouco desastroso – o carro quebrou próximo a Nova Serrana; tivemos que deixá-lo em um posto e terminar o percurso de ônibus – porém, meu moral não foi abalado. Incrível como consegui manter a calma e, apesar do problema, encontrar motivos para me alegrar percebendo que estávamos todos bem, além de ter sido tão bom passar esse tempo com minha família.
Luisa Garbazza – 27 de março de 2012

domingo, 11 de março de 2012

Vem, Senhor Jesus!

          A Celebração Eucarística, uma música de ação de graças, um grito jovem em uníssono, um canto de louvor, abraços e mais abraços – na turma, nos pais e nos amigos, algumas lágrimas, muitos sorrisos e corações transbordando de alegria e amor. Assim, em meio a esse torvelinho de emoções, encerrou-se mais um Maranathá.
          Como um oásis em meio ao burburinho do Carnaval, um grupo de jovens pararam por três dias para um “carnaval” diferente. Reservaram um tempo para se aproximarem mais de Deus. Aceitaram a proposta de renovação, de meditação, de encontro consigo mesmo e com o Criador.
Durante uma visita ao local do retiro (convidada por alguns jovens), participei de um maravilhoso momento de louvor e adoração, que me deixou emocionada. A presença de Jesus era incontestável. A música, de uma letra tão intensa, calava fundo na alma. Que bonito ver aqueles jovens aos pés de Jesus, abrindo o coração para Ele. Uns comovidos, andando de um lado para outro. Alguns em um silêncio tão profundo! Outros, como se estivessem sendo purificados, derramavam-se em lágrimas. Ninguém ficou insensível, nem mesmo eu. Quando dei por mim, senti lágrimas caírem tranquilas por minhas faces, revelando um momento de pura comunhão com Deus.
          Em seguida, nos poucos minutos que ali estive, senti uma convivência harmoniosa entre todos: os adolescentes e jovens que vivenciavam o encontro; os jovens que coordenavam as atividades; os adultos que ajudavam na cozinha e apoiavam tão bela obra. Um clima de paz e amizade reinava em todos os ambientes por onde andei. Todos juntos, engajados em um só ideal, firmes no mesmo propósito: expandir o reino de Deus aqui na terra.
          É admirável, nessa sociedade globalizada em que vivemos, constatar que existem tantos jovens com disponibilidade e aceitação para participar de um movimento com o objetivo de conhecer Jesus melhor e colocá-lo como prioridade em todos os momentos da vida. Jovens que descartam a avalanche de alternativas que lhes são oferecidas, quase sempre para uma existência sem compromisso, com o prazer acima de tudo e optam por seguir Jesus aceitando seus ensinamentos.
          Missão cumprida. Depois da despedida, vem o mais importante: o dia a dia de cada jovem. A vida continua. Tudo aqui fora está do mesmo jeito. Eles precisam de muita fé e coragem para colocar em prática o que vivenciaram e aprenderam. Precisam da ação do Espírito Santo para manter acesa a chama do amor fraterno e disseminar esse sentimento entre as outras pessoas.
          Vem, Senhor Jesus! Vem reinar entre esses jovens de coração puro. Vem reinar entre os jovens que decidiram seguir seus ensinamentos só por hoje... e por hoje... e por hoje... Mas, acima de tudo, vem reinar entre todos os jovens, inclusive aqueles que estão tão distantes de Ti, carentes de seu amor. Assim, pouco a pouco, veremos o reino de Deus acontecendo na face da Terra e poderemos dizer a uma só voz: “A Ele a Glória, a Ele o Louvor, / A Ele o Domínio, Ele é o Senhor”. 
Luisa Garbazza – 02 de março de 2012

Crônica publicada originalmente no Informativo IGREJA VIVA, da Paróquia Nossa Senhora do Rosário no mês de março.

sexta-feira, 2 de março de 2012

A efemeridade da vida

      Certos momentos na vida, que no princípio parece rotineiro, tomam uma proporção inimaginável e confundem nossas convicções mais consagradas. Foi o que aconteceu comigo em uma visita ao Asilo. Serviria apenas ao cumprimento de um propósito feito por um grupo de oração. Porém, o que aconteceu foi de uma dimensão inesperada. E deixou marcas que dificilmente serão esquecidas.
      Manhã de sábado. Chegamos ao local sem saber o que fazer ou a quem procurar, pois não havíamos combinado nada nem marcado horário. Vários idosos estavam no pátio da frente “tomando” sol. Aos poucos, fomos nos inteirando dos acontecimentos. Entregamos à coordenadora algumas coisas que levamos para os internos. Cumprimentamos uns, conversamos com outros, sem muita intimidade. Seria apenas uma visita rápida. Mas Deus nos reservou algo mais profundo.
      Poucos minutos após nossa chegada, apareceu também um conhecido nosso para prestar serviço voluntário. Conversando, ele nos contou que ia sempre, aos sábados, para ajudar nos cuidados para com os “velhinhos”, principalmente com a higiene pessoal. E convidou-nos para ajudá-lo. Aceitamos o desafio e o ocorrido deixou-me emocionada.
      Começamos a cortar as unhas dos velhinhos e lixá-las para “não agarrar nos cobertores” como nos disse um deles. Eram mãos e pés cansados, quase sem movimento e frágeis. Tinham que ser manuseados com cuidado. Um jovem, também prestando trabalho voluntário, fazia a barba dos homens e fomos orientadas a aparar os pelos das sobrancelhas e orelhas, que incomodam muito. Eles agradeciam, contavam algo sobre suas vidas, sorriam em reconhecimento. Outro voluntário chegou com um violão e pôs-se a cantar alegrando o ambiente. Alguns até arriscavam a cantar junto.
      Em dado momento, parei um pouco e comecei a observar aquelas pessoas. Não pude controlar a emoção. As lágrimas vieram fáceis aos meus olhos. Alguns estavam tranquilos, serenos, conversando. Outros repetiam a mesma frase sem parar: “Fazer a barba.” Uma mulher andava de um lado para outro com um cigarro na mão. Um fazia questão de deixar bem claro que não gostava dali, achava muito barulhento e ele gostava de silêncio. Havia os que permaneciam alheios aos acontecimentos, não tinham mais consciência do que estava acontecendo. Num canto mais isolado, em uma cadeira de rodas, uma mulher chorava a ausência do filho que há muito não a visitava. Estava inconsolável. Coração doeu no peito. Afinal, os pais merecem respeito em qualquer fase da vida. Honrar pai e mãe não é só na catequese, é para a vida toda.
      Percebi que havia muita tristeza camuflada naquele lugar. Meu Deus, como o ser humano pode acabar assim? Depois de tantas lutas, anos de peleja, filhos criados às vezes com muita dificuldade, acabar assim, sozinho, isolado, abandonado. Por melhores que sejam as condições do lugar, por mais paciência que os cuidadores tenham, não vale por uma família, mesmo a mais simples. Por mais bem tratados que estejam, as lembranças de uma época em que eram capazes de dirigir a própria vida é inegável. Pude constatar isso em muitas lágrimas que percebi escorrendo silenciosas em faces marcadas pela melancolia.
      Os sentimentos que me invadiram foram de tristeza e impotência diante dessa adversidade. Isso tudo me fez sentir a urgência de sabermos valorizar mais as pessoas com as quais nós convivemos. Reconhecer a efemeridade da vida é motivo mais que suficiente para pensarmos melhor em nossas atitudes e decisões. Não sabemos o que vai nos acontecer no futuro, quais as dificuldades que o mundo se encarregará de trazer até nós. Por isso, cada pessoa merece nosso respeito e nossa consideração, seja ela criança, jovem ou idosa. Assim estaremos plantando sementes de amor e misericórdia para colhermos quando for a nossa vez de necessitar de alguém que nos conduza. 
                                                             Luisa Garbazza    29/02/2012